18/11/2015
Carros no Japão, grande variedade. Ou não?
Passado o deslumbramento ao qual somos submetidos sempre que conhecemos algo novo e melhor do que estamos habituados, eu começo a olhar o mercado japonês automotivo de uma forma mais crítica. Sem dúvida aqui você tem mais opções do que no Brasil, uma vez que a gama de carros por marca é assustadora. Uma coisa, porém, que me remete muito ao mercado brasileiro é a elitização dos modelos alemães importados (leia-se Audi, BMW e Mercedes – até Volkswagen tem certo prestígio), que aliás, criam um contraste geral de forma e estilo bem grande se comparado aos carros japoneses tradicionais. Se você pensa que não vai estranhar o mercado japonês pois tem um Nissan, ou Honda, ou Toyota aí no Brasil, engana-se. Os Hondas Fit e City, os Nissans March e Tiida, e o Honda HRV (aqui no Japão chama-se Vezel) são alguns dos poucos ícones familiares para os entusiastas brasileiros. Carros mais parrudos da Mitsubishi também são familiares, e até iguaizinhos aos brasileiros, fora isso, nada mais é igual. Você pode se perguntar sobre o Corolla e o Civic, e eu vou responder que são carros japoneses feitos para o mercado estrangeiro, e isso também explica por que os achamos tão bonitos e por que não os vemos nas ruas por aqui.
O comum aqui é ser prático. Acredite, depois de um tempo aqui, percebe-se como os carros brasileiros (que não são nada brasileiros, pois vem de toda parte do mundo, menos do Brasil) são muito bonitos. Essa percepção e esse fato é simples de ser explicado: Temos poucos carros japoneses no Brasil, pois os que estão aí são os que são focados justamente no mercado estrangeiro. Os carros que são naturais aqui da terra do sol dividem-se em 2 grandes grupos: Os de baixa cilindrada, pequenos, compactos, com motores de litragem até 0.7 litros. E os comuns, como os conhecemos no Brasil. Isso cria uma gama enorme de opções que se relacionam inclusive com as taxas tributárias.
A praticidade e eficiência é levada ao extremo na categoria menor, conhecida aqui por Kei Car. O design predominante é o Box Style, que nos rende uma infinidade de carros que assemelham-se a caixas de sapato, com uma grande variação de grades e faróis, mas todos seguindo o mesmo estilo. Sem generalizar, algumas marcas sobressaem-se no estilo dos pequenos, como a Suzuki e a Daihatsu (esta última fazendo exclusivamente carros para essa categoria). E para sermos justos, damos crédito a Honda pelo excelente e esportivo S660, que apesar de entrar na categoria Kei Car, rende o desempenho de um 1.0, mas tem o tamanho aproximado de um carrinho de golf avantajado. É lindo e conversível, alias.
Na categoria acima encontra-se de tudo. Tudo mesmo. E apesar das variedades somos rodeados por grandalhões, tanto Sedans, quanto Wagons. Existem sim os esportivos menores, mais ágeis e também muito bonitos, mas seu custo obviamente será maior. Principalmente se levar em conta custo por espaço. Além disso, são mais beberrões, claro, e isso pesa muito por aqui, principalmente em se tratar de um mercado assolado por modelos híbridos supereficientes (lembre-se, estamos na terra do Prius).
Mas se você quer um carro pequeno, com design estiloso, e preço acessível, sua situação f**a um pouco complicada, por incrível que pareça. Com tantos Kei Car disponíveis, as marcas tendem a desviar o foco de carros compactos de motorização maior, e focar em Wagons e Sedans, uma vez que os Kei Car ofuscam os Hatch Backs. Não estou dizendo que f**amos sem opções, isso não existe por aqui. Mas que, talvez, o nível de estilo, tecnologia e desempenho que esperamos seja mais complicado de encontrar. Principalmente para quem está habituado ao mercado Brasileiro, onde encontramos Ford Fiesta, Renault Sandero, Ford Focus, Chevrolet Cruze Sport, Hyundai i30, Fiat Uno, Fiat Bravo, Fiat Punto, Volks Gol, Volks Up, Polo e Golf, Peugeot 308 e 208, Citroen C3 e C4... são carros bons, bonitos e eficientes.
O que vemos no mercado japonês é a possibilidade de encontrar algo jamais visto no Brasil (ou que está chegando só agora), como opções de carros em duas cores, carros cor de rosa, verdes, laranjas, todos muito completos, seguros, totalmente automáticos. Porém, muitos deles possuem exageros na quantidade de detalhes, ou na simplicidade da forma. Algumas linhas de design são claramente sobrecarregadas, outras quase transformam o carro em um “brinquedo”. E é aí que entra o contraste que comentei entre os carros alemães e os japoneses. A qualidade japonesa é indiscutível, mas a maturidade do estilo, do design e do acabamento dos carros europeus acaba se destacando. Outro dia vi um Peugeot 208 GTI passando pela rua, entre as gigantes Wagons e os pequenos Kei Car, ele brilhava como um modelo na passarela. Pode soar um exagero, afinal, reconheço a beleza da série Z da Nissan, a robustez da Subaru e o estilo do FT86 e do Honda CR-Z. Obviamente muitos carros japoneses possuem um estilo e design marcante e competente, mas a simplicidade e a beleza do carro europeu ainda se sobressaem. Tanto que em uma conversa casual comentou-se: “os alemães tem uma beleza simples, parecem carros, e ponto. Os japoneses são muito cheios de coisa, as vezes parece um brinquedo simples querendo parecer mais interessante”. Excluem-se dessa frase os clássicos, claro, e também a maioria dos carros da Lexus, que obviamente encontram-se em um nível de maturidade de design muito além da maioria que vemos por aqui.
É estranho estar em uma terra com propriedade criativa de tantos carros e encantar-se ao ver passar um Renault Lutécia. Se compararem o Renault Lutécia, ao Toyota Aqua Gs (série especial) entenderão claramente o que digo sobre simplicidade, beleza e maturidade. Alás, se compararem o Aqua, com o Aqua Gs, perceberão que o normal é mais harmonioso e elegante do que sua versão “top esportiva”. E não me entendam mal, gosto muito do Aqua e sei que é um excelente carro.
Obviamente grande parte das diferenças são de raiz cultural, outras são do próprio estilo em criar e desenvolver. Mas em meio a esse turbilhão de carros pequenos, enormes e alguns de tamanho bom, nós lapidamos algumas pedras preciosas que conseguiram colocar o conceito e o pensamento, acima do visual e da técnica e graças a isso criaram carros com uma base artística e de pensamento muito legais, mas só falaremos deles no nosso próximo encontro.