Amazônia Latitude

Amazônia Latitude Revista científica que contribui para a ampliação do debate crítico sobre a Amazônia

10/09/2026

A tutela colonial sempre exigiu que a Amazônia coubesse em roteiros encomendados pelo Norte global.

Quando o cinema e a ciência hegemônica se recusam a encarar o conflito político, fabricam heróis convenientes e trancam memórias em arquivos inacessíveis.

O documentário Não Haverá Mais História Sem Nós, dirigido pela cineasta paraense Priscilla Brasil e corroteirizado pelo historiador Raphael Uchôa, rompe frontalmente com essa cartilha.

A obra coloca realizadores amazônidas no centro da disputa pela narrativa. O longa investiga as engrenagens históricas que transformaram conhecimento em extração, confrontando diretamente a lógica imperial que dita quem tem legitimidade para falar sobre o território.

O filme inicia hoje suas sessões de pré-estreia em Belém e Salvador, chegando ao circuito das salas de todo o país no dia 17 de setembro.

🎥 Não Haverá Mais História Sem Nós, de Priscilla Brasil.

A ciência feita no Norte formula hipóteses de ponta, desenvolve tecnologias e renova o pensamento crítico do país. O con...
09/09/2026

A ciência feita no Norte formula hipóteses de ponta, desenvolve tecnologias e renova o pensamento crítico do país. O conhecimento gerado na Amazônia não se limita a responder a demandas externas. Ele cria matrizes teóricas próprias, funda métodos e desafia as hierarquias acadêmicas tradicionais.

A partida de Zélia Amador de Deus reforça a urgência de dar nome, autoria e densidade a essas pesquisadoras. Professora emérita da UFPA e cofundadora do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), Zélia articulou arte, docência e rigor analítico para transformar as estruturas do ensino superior por meio das cotas.

Sua tese sobre as teias de Ananse não foi apenas uma contribuição acadêmica. Foi um marco na interpretação das relações raciais brasileiras a partir da experiência amazônica.

Ao lado de nomes como Joyce Kelly, Ândrea Ribeiro dos Santos, Jane Beltrão e Vânia Torres Costa, a trajetória de Zélia comprova que a universidade pública paraense produz respostas sofisticadas da genética às ciências humanas.

Homenagear intelectuais amazônidas exige mais do que reverência póstuma. Exige abrir seus livros, debater suas hipóteses, disputar seus conceitos e incluir suas obras nos currículos obrigatórios de todo o Brasil.

A Amazônia pensa e suas mulheres precisam ser lidas.

📲 Leia o artigo completo no site da Amazônia Latitude. O link está na bio: https://x.gd/HnMO5
📷 Alexandre de Moraes, Heloísa Torres e Vinicius Gonçalves - Ascom/UFPA; Joyce Kelly/Acervo pessoal; Rômulo Ferreira/Flickr.

A complexidade política, biocultural e científica da Amazônia ganha o centro do debate global. A revista catalã IDEES la...
08/09/2026

A complexidade política, biocultural e científica da Amazônia ganha o centro do debate global. A revista catalã IDEES lançou sua 65ª edição em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).

O dossiê especial “Amazônia: a última fronteira viva” teve lançamento público em Manaus, no Bosque da Ciência. O encontro reuniu vozes do Norte e do Sul global sobre a crise climática e a preservação do território.

O diretor do INPA e coeditor do dossiê, Henrique Pereira, destacou a proposta do projeto. Segundo ele, a publicação traz uma abordagem descolonizadora em múltiplas dimensões. O objetivo não é descrever a Amazônia. A meta é ampliar o conhecimento, estimular cooperações e lembrar que o futuro depende do pertencimento à região.

O evento contou com duas mesas centrais. A primeira debateu governança pública e sustentabilidade com as cientistas Ana Carla Bruno e Camila Ribas e com Rodrigo Perpétuo (ICLEI América do Sul). A segunda mesa abordou arte, cinema e memória com Henrique Pereira, Zeus Moreno (UNESPAR), Meritxell Soler (CETC) e Marcos Colón (Arizona State University / Amazônia Latitude).

A edição traz artigos de Philip Fearnside, Sidarta Ribeiro, Ima Célia Vieira, Francisco de Assis Costa, Vanessa Grazziotin e outros pesquisadores.

📲 Leia os artigos do dossiê no site da IDEES: https://x.gd/nlTCM
📷 Adelino Meireles/Revista IDEES; Valdete Araujo / Ascom INPA.

Antes que os palácios de veludo e mármore da borracha fossem erguidos na Amazônia para abrigar óperas europeias, a flore...
07/09/2026

Antes que os palácios de veludo e mármore da borracha fossem erguidos na Amazônia para abrigar óperas europeias, a floresta já havia inventado a sua própria cena dramática. Ela é soberana, insubmissa e feita no chão de terra batida e no asfalto da rua.

Longe de serem meros folguedos pitorescos ou cópias rústicas da cultura aristocrática, manifestações como os Pássaros Juninos e o Boi-Bumbá guardam uma raiz revolucionária de resistência anticolonial.

Porakê Munduruku desconstrói séculos de historiografia hegemônica para resgatar a genealogia indígena do teatro popular amazônico. Revela, assim, como os povos originários deglutiram e subverteram as Pastorinhas jesuíticas do século XVI.

Quando as peças perderam a reverência sacra e ganharam o teor profano da sátira política, foram expulsas dos templos, foi nas praças que as comunidades substituíram o dualismo moral europeu pela fauna nativa, orientando-se pelo calendário ecológico do verão de junho — tempo de vazante das águas, fartura na pesca e plantio nas várzeas férteis.

O Pássaro Junino e os cordões de bichos permanecem como o testemunho vivo de quem rompeu o cativeiro da catequese para fundar, a céu aberto, uma dramaturgia própria de libertação.

📲 O ensaio completo de Porakê Munduruku está disponível no site da Amazônia Latitude. O link para leitura está na bio: https://x.gd/7MoEj
📷 Fernando Sette/Comus/Agência Belém; Jader Paes/Agência Belém.

No Dia da Amazônia, uma das histórias mais potentes de resistência e coragem dos nossos territórios ganha uma janela glo...
05/09/2026

No Dia da Amazônia, uma das histórias mais potentes de resistência e coragem dos nossos territórios ganha uma janela global e gratuita.

​Entra em estreia mundial e aberta no YouTube o documentário YANUNI, dirigido por Richard Ladkani e coproduzido pela cacica Juma Xipaia e pelo ator Leonardo DiCaprio.

O filme, que integrou a shortlist para o Oscar de Melhor Documentário de Longa-Metragem em 2026 e conquistou 21 prêmios internacionais, acompanha a trajetória de Juma na defesa do território Xipaya contra as pressões do garimpo, da mineração predatória e do desmatamento.

​A narrativa entrelaça o ativismo político de Juma — a primeira secretária nacional de Articulação e Promoção de Direitos Indígenas do Ministério dos Povos Indígenas —, a atuação de seu companheiro Hugo Loss, agente federal do Ibama na repressão aos crimes ambientais, e os desafios da maternidade diante de ameaças constantes.

​Disponibilizado gratuitamente no canal de Leonardo DiCaprio no YouTube com legendas em 8 idiomas, YANUNI democratiza o acesso a uma denúncia urgente e lembra que a defesa do planeta passa necessariamente pela garantia dos territórios e das vidas indígenas.

Compreender a Amazônia exige despir o olhar das fantasias coloniais que insistem em reduzi-la a um cartão-postal exótico...
04/09/2026

Compreender a Amazônia exige despir o olhar das fantasias coloniais que insistem em reduzi-la a um cartão-postal exótico, estático e desprovido de gentes. A floresta viva não é o vazio demográfico inventado por discursos de poder, mas um território denso, tecido por memórias de exploração, feridas históricas abertas e contínuas travessias diaspóricas de resistência.

A escritora Sandra Godinho disseca as camadas de Sol abrasador prepara solo fértil, novo livro de contos de Myriam Scotti.

Ao longo de 18 narrativas, a obra entrelaça as rotas de judeus marroquinos, soldados da borracha cearenses, migrantes nordestinos e comunidades ribeirinhas que transformaram as margens dos rios entre Manaus, Maués, Nhamundá e Parintins em chão de pertencimento e sobrevivência.

A leitura de Godinho ressalta a centralidade das personagens femininas na prosa de Scotti: mulheres que guiam destinos, enfrentam os ritos de passagem do corpo em ermos isolados, vivenciam as solidões conjugais e confrontam violências veladas pelo desamparo social — como na denúncia visceral da exploração sexual infantil presente no conto O canto de Iara.

Entre enchentes e estiagens extremas que castigam e moldam os corpos, o sol e a terra convertem-se em forças que ora acolhem, ora soterram o desterro de quem não tem escolha senão resistir.

Trata-se de uma literatura que escuta os silêncios gritantes da Amazônia profunda, recusando a romantização para revelar a complexidade crua, poética e humana de quem constrói e reinventa a vida no coração das águas.

📲 Leia a resenha crítica completa de Sandra Godinho no link da bio: https://x.gd/g2xVO
📷 Luiz Silveira/Agência CNJ; Marcos Capelini/Flickr; Monica Abreu/Flickr; Waldemar Luiz Mainente/Flickr.

04/09/2026

“Cada árvore dessa é um filho. Quem cuida é a natureza, e eu simplesmente vou zelar dela.”

No território amazônico, a preservação não é um conceito abstrato ou distante. Para a espiritualidade, ela é um laço de parentesco, cuidado e reverência diária.

Os pais de santo Pai Edeilson e Pai Raimundinho compartilham como as vivências de terreiro e os ensinamentos dos encantados guardam uma das defesas mais lúcidas e urgentes da floresta em pé e dos igarapés.

Enquanto a lógica da exploração predatória enxerga apenas mercadoria e lucro imediato, os saberes tradicionais e a sabedoria ancestral ensinam que zelar pela mata e pelas águas é cuidar da própria existência.

Tratar cada planta e cada curso d’água com afeto, respeito e conhecimento empírico. É dessa relação íntima com o território que nasce a verdadeira força para resistir e adiar o fim do mundo.

🎥 Juliana Carvalho/Amazônia Latitude.

A floresta pode continuar verde e, ainda assim, perder sua vida invisível. O açaí transformou-se no grande símbolo da bi...
03/09/2026

A floresta pode continuar verde e, ainda assim, perder sua vida invisível.

O açaí transformou-se no grande símbolo da bioeconomia amazônica e gera sustento para milhares de famílias ribeirinhas, mas a hiperespecialização das várzeas acende um alerta ecológico urgente e chama atenção para a simplificação silenciosa dos nossos ecossistemas.

O manejo intensivo não exige motosserras para derrubar a mata. Ele acontece pela remoção seletiva de árvores e arbustos nativos para favorecer a proliferação das touceiras de açaí.

Em estudo publicado na Biological Conservation, pesquisadores avaliaram 36 áreas de várzea no Pará — com densidades variando de 11 a 1.430 touceiras por hectare — e comprovaram que a intensificação do açaizeiro reduz a riqueza de espécies de aves em até 28% e empobrece as funções ecológicas da paisagem.

As aves insetívoras e as espécies estritamente dependentes do interior da mata são as mais prejudicadas, abrindo espaço para espécies generalistas.

Pesquisas anteriores da mesma equipe já apontavam perdas de mais de 50% na riqueza de espécies arbóreas nativas nessas áreas de várzea manejadas.

Essa perda de biodiversidade gera um paradoxo produtivo.

Manter a floresta em pé não é suficiente se ela for esvaziada de suas interações biológicas. Uma verdadeira sociobioeconomia precisa valorizar a renda de quem produz sem transformar florestas nativas em monocultivos disfarçados.

Fontes citadas: Biological Conservation; Neotropical Entomology.
📷 Angelo Reis/Flickr; Paulo Tosto/Flickr; Rui Oliveira Santos/Flickr; Sametkisa/Flickr.

A corrida pelo ouro na Volta Grande do Xingu segue travada em uma das disputas socioambientais e jurídicas mais complexa...
01/09/2026

A corrida pelo ouro na Volta Grande do Xingu segue travada em uma das disputas socioambientais e jurídicas mais complexas do país.

Embora decisões judiciais recentes tenham restabelecido a Licença de Instalação do projeto Volta Grande, da canadense Belo Sun Mining, a área técnica da Funai apresentou novos questionamentos formais apontando a necessidade de avaliar impactos em 20 comunidades indígenas da região.

Com uma barragem prevista para estocar 35 milhões de metros cúbicos de rejeitos e o uso de cianeto a poucos quilômetros do Rio Xingu — já impactado pelo desvio de águas de Belo Monte —, o caso aguarda julgamento definitivo no TRF-1 sob forte contestação do MPF.

📷 Luiz Silveira/Agência CNJ; Mídia Ninja; Shanti Zumbo G/ Flickr; Verena Glass/Flickr.

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Belém, PA

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