17/12/2021
Eu não quero convencer você a ter parto normal.
Esse não é meu papel. Nem você que está me lendo, nem as pessoas que vem em consulta. Meu papel é oferecer informações e outras visões sobre parto, para que as pessoas saibam que a visão negativa que elas têm do parto é frequentemente uma construção baseada nas histórias que ouvem de partos traumáticos e violentos. Mas que parto não É assim, não precisa ser assim. A violência e o trauma não são parte do processo fisiológico de parir, mas são frequentemente resultado de um sistema obstétrico que historicamente maltrata parturientes e seus bebês. Infelizmente, aprendemos a ver o parto como ruim e nos escapou que ruim era a assistência.
Se, depois de acessar essas informações e visões, gestantes e famílias decidirem livremente que desejam cesárea, tudo bem por mim. Não me cabe decidir pelo outro. Fico feliz de contribuir para decisões informadas, independente do resultado final. Cada gestante viverá na pele (literalmente) os desdobramentos de suas escolhas. E compartilhará os mesmos com seu bebê e família. Quem sou eu para impedir, convencer, insistir? O que eu quero é informar. E cuidar bem de quem estiver sob meus cuidados. Garantir, aí sim, que dei o meu melhor para que saiam satisfeitas, íntegras e saudáveis de seus partos.
Esses dias eu lembrei de uma história maravilhosa. Há muitos anos, eu coordenava um grupo gratuito de gestantes. Num dos encontros, uma gestante se apresentou dizendo que estava já com 36 semanas e que estava ali enganada. Que uma pessoa da família tinha dito para ela ir, que era um grupo sobre cuidados com o bebê. 🤣 Mas que ela já tinha marcado a cesárea e era isso que ela queria. Que não aguentava dor, que desmaiava. Ela era engraçada, todos riram, deram seus depoimentos. E ela se permitiu ficar até o fim. Ouviu, processou. Ninguém tentou obrigá-la a nada. Ela ainda rebateu algumas coisas, mas ficou até o fim.
Alguns dias depois, recebemos notícia que no dia seguinte ela demitiu o GO da cesárea e encontrou uma equipe. E que pouco tempo depois, chegou parindo ao hospital. E que nem tinha doído tanto!
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