22/09/2022
Professora reprovou trabalho de aluna que o fez em linguagem neutra.
Uma professora colombiana polemizou e foi criticada por várias pessoas ao contar o episódio nas redes sociais.
Sara Vanessa Cárdenas, uma professora da Colômbia, relatou no Twitter que decidiu reprovar uma aluna por causa da forma como ela escreveu seu trabalho. “Eu estava corrigindo alguns trabalhos e uma aluna me deu uma redação em linguagem inclusiva neutra (…) obviamente ela tirou 1″, escreveu a mulher.
Para ajudar a aluna a obter melhor nota e salvar seu ano letivo, ela lhe deu a oportunidade de fazer outro trabalho, que consiste em realizar numa breve exposição em língua de sinais, “assim ela aprenderá sobre inclusão de verdade“, concluiu a professora na postagem.
A professora colombiana recebeu diversas críticas nas redes sociais por relatar seu entendimento e sua reação ao receber um trabalho todo escrito em linguagem neutra.
Com opiniões diversas, os grupos ativistas encontram maneiras polêmicas de defender seu ponto de vista.
No entanto, os mais inclinados à causa criticaram a maneira de ensinar, e alguns até mesmo opinaram que ela estava “censurando” a aluna.
Na Colômbia assim como no Brasil nos últimos tempos, tem se falado muito sobre a linguagem neutra, à medida que os defensores dessa forma de comunicação se manifestam para defender a suposta inclusão e recrutar pessoas em defesa do próprio ativismo.
Linguagem inclusiva X linguagem neutra
Embora ambas as expressões sejam usadas em contextos semelhantes, há muitas diferenças que precisam ser consideradas.
Uma linguagem inclusiva ou não sexista deve objetivar uma comunicação que inclua todos os grupos sem a necessidade de alterar a língua. Por exemplo, na linguagem comum, dizemos “bom dia a todos e todas”, assim é possível abranger tanto os homens quanto as mulheres, ou seja, pessoas, considerando todos como seres humanos dignos de respeito.
Já a linguagem neutra ou não binária busca a inclusão de um baixo percentual de pessoas pela alteração no idioma. Termos como “amigxs”, “tod@s”, “todes” que são usados na comunicação de um pequeno grupo. Sendo o grupo que mais apoia a linguagem neutra as ativistas do movimento feminista e LGBTQIA+.
Os ativistas dessa comunicação "inclusiva" acreditam que a forma como falamos, escrevemos e nos comunicamos reflete nossos valores e crenças. Nesse sentido, pela fala e escrita, podemos perpetuar estereótipos, ainda que inconscientemente. Para eles a Língua Pátria é sexista, a sociedade é, afirmam, e isso incentiva certos tipos de desigualdades.
Diferentes pontos de vista
No Brasil, aqueles que entendem e não apoiam o uso de linguagem neutra argumentam com fatos e regras da nossa Academia Brasileira de Letras que diz:
"A Academia Brasileira de Letras, no desempenho deste serviço, tem por fim a cultura da língua nacional. Isto significa que a língua deve ser cultivada na sua variedade padrão ou exemplar, tomando por modelo sua expressão literária. Tal finalidade limita a ABL ao registro dos usos tidos por modelares e corretos o sistema ortográfico convencional, por se tratar da unidade da língua escrita."
Essas pessoas também se baseiam no fato de que o gênero masculino é considerado neutro pela maioria dos órgãos responsáveis pela regulamentação dos idiomas, como a Academia Brasileira de Letras e a Real Academia Espanhola no caso colombiano, o que exclui e torna uma mudança na linguagem desnecessária.
Por outro lado, ativistas defendem o fato de que usar essas palavras dificulta a comunicação, tornando-a mais repetitiva e longa. Por exemplo, dizer “todos e todas” leva mais tempo que dizer simplesmente “todos” que é sexista. Além disso, eles também acreditam que mudar a grafia, adicionando elementos como “x” ou “@” não dificulta a leitura, inclusive para pessoas com deficiência visual.
Também que defendem esse tipo de comunicação e citam como vantagens combater o machismo e a intolerância de gênero, valorizar a diversidade, não privilegiar algumas pessoas, entre outras.
Todos esses pontos de vista são levados em conta, e cada pessoa é livre para ter a própria visão do assunto, porém é verdadeiro que as formalidades linguísticas e gramaticais tenham um peso maior na comunicação. No caso da Colômbia, onde aconteceu o fato com a professora levou em consideração as instruções da Real Academia Espanhola, e como não há proibição quanto ao uso da linguagem neutra, podemos entender que a aluna poderá recorrer da decisão.