11/05/2026
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O DESPERTAR DA FÉ
No mundo todo, nos últimos anos, os meios de comunicação vêm dando destaque ao aumento de conversões ao catolicismo entre jovens e adultos. É um fenômeno global, impressionante e imprevisto para quem imaginava que as religiões fossem coisa do passado, que seriam inevitavelmente superadas pela cultura contemporânea. Sociólogos e intelectuais estão começando a se interessar pelo fenômeno, que entendem como algo a ser analisado antes de ser uma novidade na vida. Tentam interpretá-lo aplicando uma série de categorias: a busca por segurança para uma geração frágil e precária, a recuperação de valores tradicionais sólidos diante dos desafios da tecnologia, a ação de influenciadores habilidosos, a necessidade de se encontrar num mundo que exalta o narcisismo e a autoafirmação, a solidão do mundo digital… São muitos motivos. Provavelmente todos eles têm alguma contribuição. Porém, no fundo trata-se da recuperação do cristianismo como um acontecimento vivo, capaz de mudar a vida e fascinar o coração das pessoas.
É interessante retomar aqui a intuição de Dom Giussani, o fundador do Movimento Comunhão e Libertação, quando, em 1954, conversando com jovens num trem, percebeu que o cristianismo não pode sobreviver como mera doutrina ou conjunto de regras, mas precisa ser reproposto como um acontecimento – um encontro presente e concreto que desafia a razão e responde aos desejos mais profundos do coração. À medida que, sob o influxo de uma cultura laicista, a transmissão da fé deixa de acontecer de modo formal e quase “mecânico”, o que observamos não é o fim da religião, mas a redescoberta do cristianismo como este acontecimento vivo e incidente sobre a realidade.
Nesta Passos, contamos alguns desses eventos da Graça. Na França, as histórias de conversão são incontáveis: você chega à Igreja de muitas formas, até mesmo seguindo alguns influenciadores, e a motivação recorrente é que “acreditar realmente me faz voltar a ser eu mesmo”. Em Grenoble, conhecemos as missionárias de São Carlos Borromeu, que colaboram com a paróquia de São José acompanhando jovens na jornada sacramental. Daria (atualmente religiosa), uma russa de Novosibirsk, nascida numa família ateia siberiana, também se converteu na universidade de sua cidade após conhecer uma professora de italiano. As Igrejas do Norte da Europa estão vivenciando uma verdadeira primavera de fé.
No Brasil, encontramos as experiências do padre Cássio Carvalho, da Paróquia de Santa Generosa, em São Paulo, e do pediatra Ramon Nascimento, de Salvador, que começou a encontrar-se com famílias que conheceu no consultório, recém-convertidas e que, até inconscientemente, buscavam uma experiência de comunidade.
No entanto, o aspecto mais surpreendente da demografia cristã na atualidade, também documentada nesta edição de Passos, é que o seu crescimento é maior justamente nos países onde ele é perseguido – e estes países não são poucos. Cerca de cinco bilhões de pessoas (64% da população) no mundo estão sofrendo graves violações da liberdade religiosa. Os cristãos estão entre os grupos mais assediados: mais de 380 milhões de fiéis são discriminados ou sofrem violência por causa de sua fé. É um fenômeno que afeta um em cada sete cristãos, agravado em 2025 por conflitos contínuos, regimes autoritários e extremismo religioso. Em vista do Jubileu, em julho de 2023 o Papa Francisco criou a comissão “Novos Mártires – Testemunhas da Fé” para preservar a memória de quem deu sua vida por Jesus nos últimos 25 anos.
Em poucos meses, mais de 12 mil histórias de martírio foram coletadas. “São mais numerosos em nosso tempo do que nos primeiros séculos: bispos, padres, homens e mulheres consagrados, leigos e famílias que, em diferentes países, com o dom de suas vidas, ofereceram a suprema prova da caridade”, disse o Pontífice argentino.
Shahbaz Bhatti, um ministro paquistanês que foi assassinado em 2011 e agora é venerado como Servo de Deus, escreveu em seu testamento: “Quero viver por Cristo e quero morrer por Ele. Não sinto medo neste país. Muitas vezes os extremistas quiseram me matar, me prender. Fui ameaçado, perseguido e minha família foi aterrorizada. Mas digo que, enquanto eu viver, até meu último suspiro, continuarei a servir a Jesus e a essa pobre e sofredora humanidade, cristãos, necessitados, pobres”.
Os cristãos perseguidos são tão queridos por nós não só pela empatia natural para com nossos irmãos que sofrem, mas também porque são o sinal visível de uma nova humanidade. Os milhões de perseguidos e milhares de mártires são pessoas que não querem realizar gestos heroicos. Não buscam a morte, mas uma vida plena, vivida em fidelidade ao que acreditam. Com seu testemunho, fortalecem nossa fé. Não são heróis trágicos, mas testemunhas silenciosas. Eles confirmam o que a Tradição da Igreja sempre soube: a fé se assenta não sobre os êxitos dos poderosos, mas se manifesta e se transmite pelo testemunho dos que dão a vida por Cristo.
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