01/05/2025
Embora pouco lembrada atualmente, a história do Primeiro de Maio começa em Chicago, em 1886. Naquele ano os sindicatos organizaram uma greve geral, iniciada no dia 1º de maio, para exigir a diminuição da jornada de trabalho - que no contexto chegava a 14h por dia - para 8h diárias.
No dia 3 de maio, ainda mobilizados, a polícia atirou em direção a multidão e matou quatro trabalhadores. No dia seguinte, a esquerda sindical - em especial os anarquistas -, convocaram uma manifestação contra tais assassinatos. Durante a tentativa de dispersão dos manifestantes pela polícia, alguém jogou uma bomba nos policiais, matando 8 e ferindo 60. A polícia então revida, deixando pelo menos 200 feridos e um número desconhecido de mortos.
Depois dessas mobilizações, as autoridades prenderam os oito principais dirigentes do sindicalismo revolucionário de Chicago e, por conta de suas ideias, seus panfletos e seus apelos revolucionários à luta, foram condenados, em sua maioria, a pena de morte. Assim, f**aram conhecidos como os “Mártires de Chicago”.
Em 1889, três anos após os fatos, a II Internacional Socialista fez do Primeiro de Maio um símbolo da luta pela redução da jornada de trabalho para 8h. Quer dizer, pelo menos esse é o seu signif**ado original, já que com o tempo a direita sindical e os reformistas degradaram a data a uma mera “festa do trabalho”, onde damos parabéns uns aos outros.
Mas onde entra a Região Carbonífera nessa história? Como registrado em relatório da CEFMSJ (Companhia Estrada de Ferro e Minas de São Jerônimo), no ano de 1895, apenas 9 anos após os acontecidos de Chicago, os operários da Região Carbonífera mobilizaram-se justamente no dia 1º de maio, onde organizaram passeatas com bandeiras vermelhas e manifestações anarquistas. No mês seguinte, conseguiram mobilizar todos os trabalhadores da região e, em uma greve que durou 15 dias, exigiram o aumento de 25% na tonelada do carvão, que infelizmente não foi conquistado e resultou na demissão dos líderes do movimento.
Conforme registrado no relatório, a mobilização fez inclusive a CEFMSJ acreditar que os mineiros estrangeiros eram socialistas expulsos das minas de carvão da Europa. Mas importante é que esse acontecimento evidencia a intensa circulação de ideias socialistas e libertárias e da propaganda anarquista na Primeira República no Brasil e, em especial, aqui na Região Carbonífera.
Isso também f**a claro quando analisamos o artigo 10 das “Bases orgânicas da Federação e respectivos Sindicatos de Mineiros e Anexos do Arroio dos Ratos, Xarqueadas, Leão, Butiá e Conde”, datado de 1924, onde diz: “Este Sindicato repele de seu seio a política e aceita como meio de luta a ação direta, mantendo como lema: a emancipação dos trabalhadores há de ser obra dos próprios trabalhadores e como finalidade o comunismo libertário“.
Mas voltemos ao Primeiro de Maio. Como mencionamos, apesar da degradação a uma mera “festa do trabalho”, a verdade é que esta data tem sua origem na luta dos trabalhadores e trabalhadoras pela redução da jornada de trabalho. E isso não só nos diz muito sobre as lutas pelos direitos que conquistamos até aqui, como também nos diz muito sobre as lutas pelos direitos que ainda temos a conquistar, principalmente em um contexto de intensif**ação de luta pelo fim da escala 6x1 no Brasil.
Nesse sentido, é importantíssimo o exemplo dos trabalhadores e trabalhadoras da rede de supermercados Zaffari, que estão hoje, Primeiro de Maio, em greve geral na luta por condições dignas de trabalho, já que enquanto a família Zaffari lucra 640 milhões por ano, submete seus trabalhadores e trabalhadoras a escalas de 10x1, horas extras obrigatórias, descontos injustos, manipulações do banco de horas e até mesmo restrições de ida ao banheiro. Para se ter uma ideia da tamanha exploração dos trabalhadores e trabalhadoras, mesmo que a empresa aceite a reivindicação de aumento de 100% no salário, seu lucro anual ainda se manteria acima dos 600 milhões de reais!
Fontes:
SPERANZA, Clarice Gontarski. Cavando direitos: as leis trabalhistas e os conflitos entre os mineiros de carvão e seus patrões no Rio Grande do Sul (1940-1954). (pg. 44-45)
MANDELLI, Bruno. Greves, repressão e resistência: uma história comparada dos mineiros de carvão no sul do Brasil (1945-1964). (pg. 96-97)
BESANCENOT, Olivier; LOWY, Michael. Afinidades revolucionárias. (pg. 22-23)