29/01/2026
O Relato de uma Injustiça: O Caso do Jornalista Claudio Antonio Machado
Deixe-me contar o que aconteceu naquele ano. No dia 27 de janeiro de 2006, o então prefeito de Rafard (SP) e delegado, Dr. Vicente do Prado, descontente com uma matéria de jornal que mencionava uma traição aos seus amigos, tomou uma atitude drástica. Por volta das 11 horas da manhã, o prefeito ligou para o meu falecido irmão, o jornalista Claudio Antonio Machado, diretor responsável pelo periódico.
Eles conversaram por quase uma hora, mas meu irmão percebeu que a conversa estava sendo gravada na tentativa de incriminá-lo por extorsão. Durante a ligação, fecharam um negócio: a venda de 500 exemplares do jornal a R$ 1,00 cada, totalizando R$ 500,00. Um funcionário da prefeitura foi buscar os jornais e entregou o dinheiro.
Meu irmão havia acabado de fechar a porta da redação e estava contando o valor quando fomos surpreendidos pela violência dos investigadores. Eles chutaram a porta e entraram empurrando meu irmão contra a parede, apontando armas automáticas .765 para nossas cabeças e para a minha mãe, que na época tinha 71 anos e ficou em estado de choque, sem entender o que acontecia.
Mesmo sem mandado, o delegado deu voz de prisão por extorsão. Eu intervi, dizendo: "Foi uma venda de jornais!". No entanto, meu irmão foi algemado e levado no camburão da viatura até a delegacia de Capivari. Procurei imediatamente um amigo advogado e expliquei a situação. Na delegacia, o advogado exigiu ouvir o DVD da gravação. Houve discussão, pois o áudio não continha nenhuma prova de meu irmão pedindo dinheiro ou ameaçando a família do prefeito. Um policial civil chegou a tranquilizá-lo, dizendo: "Fique tranquilo, você será liberado".
Contudo, quando o prefeito e o presidente de seu partido chegaram à delegacia, o político começou a gritar com o delegado, exigindo a prisão. E assim foi feito. Meu irmão foi transferido para a delegacia de Elias Fausto, onde passou a noite antes de ser levado para a penitenciária de Piracicaba (SP).
Eu e minha mãe f**amos arrasados. Ele foi tirado de nossa casa e preso sendo inocente. Ficamos emocionalmente abalados com a violência policial desnecessária; somos uma família de bem e sempre respeitamos as instituições. Meu irmão era muito conhecido por seu trabalho jornalístico, inclusive pelos próprios policiais.
Comecei então uma luta por justiça: enviei e-mails ao Ministério da Justiça, aos Direitos Humanos e à OAB. A reviravolta aconteceu quando um jornalista da revista Caros Amigos ligou pedindo informações. Ele publicou em sua coluna um artigo sobre a "prisão arbitrária do jornalista", o que deu visibilidade ao caso.
Na prisão, meu irmão ficou em uma ala de presos menos perigosos. Eu o visitava duas vezes por semana para levar a comida da minha mãe — eram os únicos dias em que ele comia bem, pois chegou a emagrecer 20 quilos. Lá, ele fez amizade com todos. Os detentos pediam que ele escrevesse cartas para suas namoradas e familiares. Ele chegou a redigir cinco pedidos de Habeas Corpus para outros detentos (mesmo não sendo advogado, tinha conhecimento jurídico) e todos foram soltos por já terem cumprido suas p***s.
Finalmente, a perícia do DVD chegou ao Fórum de Capivari. Ao analisar o conteúdo, o juiz imediatamente despachou o alvará de soltura. Quando o advogado ligou dizendo para buscarmos meu irmão, eu e minha mãe nos abraçamos em uma alegria imensa.
Foram dois meses e oito dias de agonia e medo de rebeliões. Por fim, veio a sentença definitiva: ele foi absolvido de todas as acusações absurdas feitas pelo então prefeito.