25/07/2025
Não para o tempo
Noite abafada, céu estrelado, meados de julho… estava em meus aposentos quando ouvi vozes vindas da sala. Tratava-se de uma visita: minha irmã e meu cunhado vieram nos ver e, com eles, trouxeram a pequena Helena, minha sobrinha e afilhada.
Helena, que recém completara seu segundo ano de vida, estava linda como a primavera. Usava uma bermuda azul-claro e uma blusa branca, com finas listras escuras e uma margarida estampada. Seus cabelos, na altura dos ombros, caíam em ondas revoltas que, nas pontas, se rendiam em cachos.
Brincamos com ela por muitos minutos, até que decidi levá-la à casa de minha tia, que ficava bem ao lado da minha. A varanda estava escura. Entramos, e a velha residência da Família Souza se encontrava em completo silêncio.
— Ela deve ter ido se deitar cedo hoje — cochichei para Helena. — Vamos bater na porta do quarto dela e fazer uma surpresa.
Caminhamos em silêncio, observados por esmaecidos quadros de gente de outro tempo e santos católicos. Na penumbra, seguimos por entre estampas florais até o corredor, antigo como o mundo.
De maneira suave, posicionei Helena diante da porta do quarto de minha tia e bati delicadamente algumas vezes, até que ela ouviu. Me afastei e escondi-me ao canto, envolto nas sombras.
Durante os não mais que trinta e três segundos que os pés cansados de minha tia levaram para alcançar o trinco, fui atravessado por uma epifania.
Aquela criança parada diante daquela porta. Aquele olhar inocente, sem saber o que lhe esperava. Cheguei a sentir culpa por deixá-la sozinha, mas esse sentimento durou pouco. Logo, outro, ainda mais cruel, me agarrou no escuro.
Aquela criança parada diante da porta. Aquele olhar inocente…
Essa criança tinha os dias contados. Iria desaparecer, assim como desaparecera o bebê frágil que, dois anos antes, eu segurara nos braços pela primeira vez. Helena permaneceria. Helena sobreviveria a todos nós. Mas aquela Helena de dois anos e poucos dias, naquela forma e naquela justa maneira de ser, essa eu perderia. E de nada adiantaria procurar, pois ela já não estaria mais lá dentro de um ano. Talvez nem isso.
Não sei como todos esses pensamentos se condensaram naqueles trinta e três segundos, mas eu os engoli a seco quando a porta se abriu.
E qual não deve ter sido a alegria de minha tia, que, talvez pensando ser algum portador de más notícias, deparou-se com um anjo minúsculo parado no corredor. Ela a abraçou e beijou, mas Helena estava assustada, estranhando tudo. Correu até mim.
Por mais que eu quisesse que ela fosse dar carinho para minha tia, não deixei de me sentir nas nuvens por ser, naquele instante, o seu porto seguro.
Chamei tia Arlete para ir até a nossa casa, para ver minha irmã e prosear. Helena permanecia abraçada a mim como um filhote de urso, e eu a segurei forte, como se o próprio tempo estivesse à espreita, prestes a emergir de algum canto daquele cômodo sombrio para arrancá-la dos braços.
Ele não faria isso naquela noite, mas sabia que seria o vencedor. Ele nunca poupou nenhuma criança. Se quiserem viver, elas precisam crescer.
Abracei-a. Aquela Helena de dois anos se tornaria lembrança, e esqueceria essa noite. Mas, naquele breve caminhar até minha casa, eu ainda a tinha. Ela era especial para mim, não para o tempo.