02/01/2026
O Amor Não Veio Ficar — Veio Me Reorganizar
A virada do ano passou como passa uma maré que não pergunta se a casa está pronta. Fiquei ali, parado na areia, enquanto o tempo recolhia os fogos e devolvia o silêncio. Não era solidão, era campo aberto. Há momentos em que o coração vira estação desativada e os trens continuam passando por dentro.
Sempre vivi assim: partindo. Algumas emoções foram portos, outras apenas plataformas onde o corpo descia por engano. Às vezes me senti trilho, às vezes carga. Houve dias em que fui locomotiva sem mapa, e outros em que virei céu tentando entender por que alguns voos não pousam.
O amor, quando acontece, nunca chega como história. Chega como fenômeno. Não pede licença, não explica intenções. Apenas altera a pressão do ar. A mulher, nesses momentos, não é pessoa comum: é clima. Onde ela pisa, algo se reorganiza. O que estava quebrado muda de lugar sem avisar.
Aprendi cedo que amar uma mulher é parecido com perceber a presença de algo maior no cômodo. Não se vê, mas tudo reage. O copo treme levemente na mesa, o corpo muda de temperatura, o pensamento abaixa a voz. Não é devoção, é reconhecimento.
Poucas vezes isso aconteceu. Mas quando aconteceu, foi inteiro. Em alguns desses encontros, o mundo parecia recém-varrido. Em outros, o silêncio chegou antes do adeus. Nem sempre soube sustentar o peso do que me visitava. Há presenças que exigem mãos firmes, e eu, muitas vezes, estava feito inverno.
Quando o amor vinha, a casa mudava de função. Não era mais abrigo, virava altar improvisado. O chão aprendia outro idioma, as paredes escutavam melhor. Mesmo à distância, esse amor não desaparecia — apenas chamava. E quando chamava, não era saudade: era bússola desorientando o norte.
Os amores que não ficaram não foram erros. Foram clarões. Luz excessiva para um corpo ocupado demais em sobreviver. Não faltou sentimento; faltou aterrissagem. Enquanto buscava respostas grandes , deixei portas abertas demais.
Hoje sei: algumas visitas pediam joelhos no chão, não argumentos. Pediam presença, não resistência. Mas eu estava em guerra com coisas antigas, batalhando incêndios que ninguém via. E quando se luta contra o próprio incêndio, qualquer calor assusta.
As mulheres que não me quiseram não me rejeitaram. Apenas seguiram seu movimento natural, como nuvens que não chovem sobre todos os desertos. Aceitei. Há recusas que são treinamento.
Ainda me forjo. Ainda passo pelo fogo. Não para endurecer, mas para não evaporar quando o sagrado volta a atravessar o corpo de alguém que me olhe sem promessas. Talvez um dia o amor não chegue como tempestade, mas como permanência.
Desde menino, algo em mim espera. Não uma pessoa — um estado. A reconstrução silenciosa de algo que foi interrompido cedo demais.
Se Deus retorna, que me encontre menos distraído.
Cesar Wega Felisbino