16/06/2016
MÉDICOS VERSUS PACIENTES
Domingo cedo, no Parque Flamboyant, deparei uma cena interessante. Grupos de formando (a)s em medicina surgiam de várias direções elegantemente trajados. Traziam nas mãos impecáveis jalecos de sua faculdade e nos rostos um ar de felicidade. Reuniam-se para a tradicional foto para o convite de formatura. Desejei-lhes, mentalmente, que sejam bons médicos, que tenham sucesso.
Será que foram bem preparados para tal?
Na semana anterior conheci um cardiologista, descolado, jovem, que sabe levar a consulta entre o divertido, cordial e sério ao mesmo tempo, o que desfaz a ansiedade do paciente, sem puxões de orelhas, e o leva a atender as orientações repassadas com precisão. Talento para poucos.
Admiro também outro jovem médico, meu conhecido, que escolheu lidar com o que considero das mais dramáticas especialidades da profissão, a infectologia. Sua competência é ímpar, sua dedicação às pessoas, notória. Ele caminha com seu paciente até onde seja possível ou este permita, exatamente como descrito no texto que compartilhou numa rede social, escrito por uma oncologista de atitudes admiráveis.
Todos eles lembram-me médicos que se fizeram queridos por longas gerações por seu empenho e cuidado com os pacientes. Alguns, verdadeiros missionários, por vezes bancavam tratamentos e remédios aos mais carentes e não se importavam com o tilintar do telefone no meio da noite com alguém lhes pedindo socorro para suas dores. Algo quase impraticável nos tempos atuais, reconhece-se.
Justo hoje, eu meditava sobre a relação médico e paciente. Anda desgastada em razão de variáveis nem sempre provocadas por um ou outro, mas pelo modo de vida que criamos em nossa sociedade, pelo precário sistema de saúde pública e pelas exigências mercadológicas da saúde privada. Em ambos somos tratados por equipes apressadas, com algum esforço superficial de cordialidade e atenção ou com inteiro descaso. Os exemplos estão aí abundantes na mídia.
Penso que muito precisa ser feito, a começar dos currículos da área da saúde em que é preciso ir além da técnica, do conhecimento científico. Os futuros profissionais e a sociedade teriam muito a ganhar com o aprender a ouvir, aprender a compreender, aprender a cuidar com amor, dedicação. Isso mesmo. Você leu certo. Amor, dedicação, instrumentos necessários na bagagem de quem escolheu salvar vidas. Do técnico ao gestor de saúde.
Ah, o texto compartilhado é da Dr.ª Ana Lucia Coradazzi, que tem um blog interessante para médicos e pacientes: https://nofinaldocorredor.com/
Inspire-se:
"Ao receber um novo paciente, com uma doença grave, penso que estamos ambos sentados à margem do rio. O paciente precisa atravessar para a margem oposta. Ele tem que fazer isso antes que anoiteça. Eu não conheço o paciente, mas conheço bem o rio. Sei onde ele é mais fundo, sei em que época ele é cheio de piranhas, sei quando tem corredeira. Meu paciente não. Só que é ele quem precisa atravessar, e tem que atravessar agora. Não vai dar para esperar a melhor época do ano, quando o rio está mais favorável à travessia. E ele conta com o que eu sei sobre aquelas águas para tentar chegar em segurança do outro lado.
Às vezes, o rio é estreitinho, e eu posso dizer para o paciente: “Pode pular, garanto que você chega do outro lado sem nem molhar seus pés!” E ele vai, e f**a tudo bem. Às vezes, o rio é mais largo, não dá pra pular, mas eu sei de um trecho onde ele é mais raso, e posso dizer para o meu paciente: “Olha, você vai se molhar, mas vai chegar do outro lado em segurança!” E ele vai. Chega encharcado do outro lado, mas sorri agradecido e segue seu caminho.
Só que às vezes, muitas vezes, o rio é bem largo e bem fundo. É tão largo e tão profundo que vou ter que ter muito mais critério ao avaliar as chances dele chegar ao outro lado. Eu vou ter que perguntar, por exemplo, se meu paciente sabe nadar, se o preparo físico dele está em dia, se ele tem medo de água fria. Dependendo do que ele me responder, eu vou poder orientá-lo dos riscos da travessia, e ele vai poder decidir se quer corrê-los. Pode ser que meu paciente não saiba nadar. Pode ser que ele esteja numa condição física tão ruim que, apenas de olhá-lo, sei que não vai dar para chegar do outro lado. Nessa hora é que eu vou ter que ajudá-lo a tomar as decisões certas, para que ele não morra se debatendo desesperado no meio do rio gelado. Se ele decidir correr o risco, vou pegar minha canoa e atravessar do seu lado, orientar cada braçada. Estarei ao seu lado se ele não conseguir completar a travessia, e vou garantir que sua despedida seja digna e tranquila. E, se ele quiser permanecer na margem, não tem problema. Vou f**ar do lado dele, fazendo companhia, até a noite chegar."