14/08/2019
O Embaixador do Campo e Adjacências: Bico.
Por Rafique Nasser
Não se sabe, por certo, se quando Bico canta, ouve-se a um homem ou às rodas de um carro-de-boi rangendo pelo estrado dos caminhos da zona rural de Ipiaú. É tudo de um lamento muito desencobrido, de uma voz grave, vezes lixa, que trasteja entre o declamar e o cantar, que inebria os ouvidos atentos - como é próprio dos cantadores populares nordestinos.
A cobrança constante por justiça social, o amor apaixonado por uma moça dessas rendeiras e rendadas do interior da Bahia - caboclas, negras, pele marcada de sol e boca roxa -, o retrato de uma família muito parecida com “Retirantes” de Cândido Portinari: Todos temas abordados por Oswaldo Carmo Sobrinho - um sociólogo da roça, um antropólogo da lida roçaliana, um contestador forjado na forja do facão. Vinícius de Moraes deu o título de “Príncipe da Caatinga”, de forma muito justa, para Elomar Figueira Mello, logo sinto-me no direito de promover Bico à “Embaixador do Campo e Adjacências”, por julgamento não menos reto.
Quem sabe se um dia não cantaram Antônio Conselheiro e Lampião? Caso o tenham feito, é de se imaginar que tiveram um cantar muito parecido com o de Bico. Virgulino, Conselheiro e Bico: Ajuntadores de povo, semeadores de sonhos, sobreviventes de sequidões e agruras de toda a sorte. De todo modo que, também, não é possível desassociar sua imagem à semelhança de Patativa do Assaré ou até mesmo de Ar**no Suassuna: Sagazes, sensíveis, simples e verdadeiros, contadores de realidades de um povo afastado das supostas benesses da modernidade capitalista, mas que consegue se virar.
Avante, mão na enxada. A lavoura não se faz sozinha. Portanto, foi preciso colocar uma Canoa bem no meio da plantação. “O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”. As canções altanejas de Bico se bastam em sua voz e no bater de seu inseparável pandeiro. Mas, o bastar não basta: Sonoridades complementares - de guitarras cortantes como biscós, sanfona resfulengadeira e percussão de ferro batendo no chão - são o atestado de que o cantador pode versar também para urbanidades e cenários outros.
Eis que surge um sol negro, despontante em Ipiaú, carregante da tradição dos cantadores errantes, tropeiro de canções-espadas de gumes duplicados - dor e alento -, portador da benção dadivosa dos profetas do sertão. Caso um dia seja eu sortudo, me encontrarei com Oswaldo Carmo Sobrinho, ouvirei de sua própria boca o rajado trovoêiro de sua mente.
Bico - Alegria da Vida 01 - Nego da África 00:01 02 - Orgulho do Burguês 01:30 03 - Beijo Molengo 03:08 04 - Lenço Branco 04:46 05 - Morena Bela 09:55 06 - S...