08/10/2019
Artigo opinativo – Crítica de cinema
Coringa
Atenção: contém spoilers.
“Não recomendado para menores de 16 anos
Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) trabalha como palhaço para uma agência de talentos e, toda semana, precisa comparecer a uma agente social, devido aos seus conhecidos problemas mentais. Após ser demitido, Fleck reage mal à gozação de três homens em pleno metrô e os mata. Os assassinatos iniciam um movimento popular contra a elite de Gotham City, da qual Thomas Wayne (Brett Cullen) é seu maior representante”.
Essa a sinopse do longa. Não explica nada do filme. Sequer nos dá uma ideia do conteúdo do maciço enredo de Coringa.
O longa é baseado em histórias de quadrinhos, cujo personagem é um palhaço psicopata que não quer apenas matar e destruir, mas fazer estas coisas da maneira mais espalhafatosa possível. Explodir prédio, encetar roubos milionários, sequestrar (e matar ocasionalmente) figuras ricas e famosas. Coringa provoca a sociedade explodindo joalheiras sem roubar nada, e ateando fogo em montanhas de dinheiro em praça pública. Sua maior obsessão, no entanto, é capturar o Batman, o homem morcego, vigilante e justiceiro de Gotham City. Essa briga já perdura oitenta anos, nas HQs. O Coringa dos quadrinhos é inteligente, inventivo, manipulador, adora invenções extravagantes como flores de plástico que aspergem ácido, bonecos de palhaços que explodem. O Coringa de Todd Phillips não apresenta essas características.
Este é o quarto Coringa nas telonas. O longa tenta dar uma origem para o personagem, partindo já de uma latente esquizofrenia e de uma vida atribulada, estressante recheada de muito azar. Os problemas se amontoam em sua cabeça e sua esquizofrenia toma proporções que o personagem não consegue controlar, cheio de ódio por uma sociedade que simplesmente o ignora e tortura, ele saca de um revolver ganho de um colega de trabalho, de onde fora demitido, dificultando ainda mais o já atribulado relacionamento com uma mãe doente, esquizofrênica e incapaz de cuidar de si mesma; mãe que ele mesmo mata sufocada com um travesseiro, logo após descobrir que fora adotado e torturado pela mãe e por alguns namorados aleatórios; ele saca do revolver e mata três pessoas dentro em trem, e foge. A notícia de um palhaço que matou engravatados toma a cidade e as ruas e faz escola, centenas de moribundos começam a usar a máscara de palhaço como símbolo de revolta social. Arthut Fleck sente pela primeira vez que uma atitude sua o tornou realmente famoso, e resolve investir nisso. A partir desse ponto o caos vai se instalar em Gotham.
Em primeiro lugar não acredito que Arthur Fleck tenha condições de bancar ser “o Coringa”. É um homem obtuso, sem nenhuma genialidade e incapaz de conviver em qualquer tipo de sociedade, o filme deixa claro que o personagem não entende quem são e o que move as pessoas ao seu redor. F**a evidente quando ele tenta escrever e contar piadas totalmente fora do contexto social. É extremamente alienado em si mesmo, e analfabeto em leitura social. Seria uma trajetória relâmpago sua história como Joker.
O filme é muito elaborado, direção cuidadosa, iluminação milimetricamente disposta, um tom NOIR acompanha o filme por completo, o personagem central aparece em absolutamente em todas as cenas do filme, nada acontece longe dele.
Joaquin Phoenix dá show de interpretação, consegue convencer de que está gargalhando e se odiando por isso, ao mesmo tempo. É impecável como ator, e passou mesmo por grandes exercícios para a composição do personagem.
Merece o Oscar. O filme considero difícil, pois se trata de uma adaptação dos quadrinhos, e Academia do Oscar parece não considerar muito essas adaptações.
O filme tem um discurso de apelo social, ao mesmo tempo que mostra os párias sociais como desajustados e incapazes de se relacionarem do modo efetivo com a sociedade. Não chega a representar um perigo para as ordens sociais vigentes hoje no mundo.
Chamo a atenção para uma cena espetacular em que Thomas Wayne, pai do futuro Batman, chama o mascarado de “Cruel e covarde, que se esconde atrás de uma máscara com medo de encarar a sociedade”.
Um Coringa bem elaborado que jamais esqueceremos, mas se trata de “um Coringa” e não ainda de “O Coringa”.
Gostei, foi divertido e reflexivo, o fã roxo de quadrinhos se sentiu bem representado por um filme que vale a pena ver muitas vezes.
Antenor Emerich
Fotografia: Clara Scheffer Emerich