27/12/2025
Toda jornada começa em um mundo conhecido.
O meu era um lugar onde eu acreditava amar, pertencer e estar segura.
Mas, silenciosamente, esse mundo foi se tornando estreito, confuso e violento.
Até o dia em que tudo ruiu.
O chamado para a mudança veio na forma da dor mais crua:
abandono, humilhação, rejeição e a sensação devastadora de não valer nada.
Eu fui deixada no meio de um supermercado…
mas, na verdade, eu já vinha sendo abandonada há muito tempo — por mim mesma.
Como toda mulher ferida, eu quis desistir.
Neguei o chamado.
Senti vergonha.
Medo.
Desejei não existir.
Mas algo dentro de mim — ainda que pequeno — decidiu viver.
Começou então a travessia do limiar.
Pedir ajuda.
Voltar para a casa da mãe.
Reconhecer os próprios gatilhos.
Encarar a origem das feridas.
Nada disso foi escolha confortável — foi sobrevivência.
Na caminhada, surgiram ajudas inesperadas.
Pessoas simples.
Gestos pequenos.
Um homem com uma kombi.
Um senhor no mercado.
Um abraço de uma estranha.
E, acima de tudo, Deus. Falando comigo quando eu já não tinha forças para ouvir mais nada.
Vieram então as provações e os abismos.
Depressão.
Crises.
Culpa.
Autossabotagem.
A dor de ser psicóloga e, ainda assim, precisar de ajuda. A dor de perceber que até a culpa fazia parte do aprisionamento. Foi no fundo do poço — às margens de uma estrada — que eu entendi:
ou eu pedia ajuda, ou eu não voltaria inteira.
E eu pedi.
A terapia virou caminho.
A psiquiatria virou cuidado.
A oração virou alimento.
E Deus se tornou o arquiteto daquilo que eu já não sabia como reconstruir.
Então começou a reconstrução.
Primeiro, a fundação:
derrubar crenças, arrancar culpas, limpar o terreno.
Depois, a estrutura:
aprender a respeitar limites, finalizar laços, colocar o foco em mim.
Vieram as instalações:
selecionar pessoas, conteúdos, ambientes, escolhas.
Qualidade no lugar de quantidade. Verdade no lugar de ilusão.
E então, os revestimentos:
reencontrar minha identidade, me reconhecer no espelho, voltar a fazer sentido para mim mesma.
No fim, eu descobri que liberdade não é ausência de dor.
(Continua nos comentários)