23/08/2026
*CHIP REVERSE*
O cemitério clandestino de cães encontrado no bairro Santa Clara, em Lages/SC, não é apenas um caso de crime ambiental. É uma ocorrência que levanta sérias reflexões no âmbito da segurança pública em sua acepção mais ampla.
O local, conforme descrito pelo Secretário do Meio Ambiente, Jean Felipe de Souza, apresenta características de uma estrutura sistematicamente elaborada para o descarte de cadáveres caninos, com canaletas projetadas para esta finalidade. Foram encontrados corpos em diversos estágios de putrefação, muitos em estado avançado, o que exigiu sepultamento no próprio local e impossibilitou a análise pericial completa pela polícia científica acionada, além de corpos em estágio recente, indicando a continuidade e reiteração da conduta criminosa.
A primeira reflexão de segurança pública é a mais evidente e imediata: o risco à vida humana. A existência de uma área afastada, sem delimitação, cercas ou muros, utilizada para a prática de crime continuado, expõe o transeunte a risco letal. Se um cidadão passar a pé no exato momento em que os criminosos estiverem executando a ação de descarte, ele corre o risco concreto de ser vítima de violência para encobrimento do crime, inclusive de ser enterrado junto aos animais. A cena descrita traumatizou os próprios servidores públicos que a atenderam, o que demonstra o nível de violência do local.
A segunda reflexão é o precedente criminoso que se abre. A literatura de criminologia e segurança pública é pacífica ao demonstrar a correlação entre a execução sistemática de animais e a escalada para outros tipos de manifestações criminosas contra pessoas. Locais que se consolidam como zonas de descarte de cadáveres de animais, sem fiscalização, tornam-se territórios propícios para outras práticas ilícitas.
Isso nos leva ao terceiro ponto, que é a pergunta que não quer calar: de quem é o terreno?
Este questionamento nos remete diretamente ao Plano Diretor do Município de Lages e ao dever de fiscalização da secretaria responsável pelo controle e ordenamento de terrenos e áreas afastadas no entorno da cidade. A ausência de delimitações físicas, como cercas e muros, e a falta de fiscalização efetiva, permitiram que uma área se transformasse em um cemitério clandestino e em um ponto de risco à segurança pública.
Não se trata de um fato isolado de abandono de animais. Trata-se de um equipamento criminoso instalado em área urbana, que expõe falhas estruturais na fiscalização territorial e que, por sua natureza, oferece risco de todas as formas à coletividade.
É por isso que defendemos o Censo Animal para cães e gatos. Somente com quantificação, qualificação, diagnóstico e mapeamento será possível romper este ciclo de violência que hoje vitima animais e já coloca em risco a vida de pessoas.
Estamos enlutados.
*Autoria:* Enfermeira, mestre e jornalista Adriane Enf Nane Boff (2020) - Ideia original do Censo Animal Lages, em parceria dividida com o saudoso vereador Bruno Hartmann.
Fiscaliza Nane, Fiscaliza!