02/06/2026
Um paraibano na Lapa e um tenente em Tucuruí: os dois Brasis em uma só história
"O Sul se trabalha. O Nordeste se visita". A frase é de Jefferson, paraibano que chegou à Lapa sem dinheiro, sem teto e com apenas uma mochila nas costas. Hoje, mais de três décadas depois, ele é dono de uma empresa de segurança construída do zero na cidade onde, um dia, precisou dormir na rua.
Trazido por um ex-delegado que acreditava no potencial do negócio, Jefferson começou fazendo rondas noturnas na Lapa e retornando para Curitiba ao amanhecer. Sem recursos, dependia de motos emprestadas e, muitas vezes, não tinha sequer o que comer. “Passei um sofrimento que não desejo nem para o meu pior inimigo”, relembra.
Natural de Marisópolis (PB), ele chegou ao Paraná ainda jovem, após perder o pai. Trabalhou em fábrica, enfrentou preconceitos e ouviu inúmeras vezes o rótulo de “puxa-saco” por nunca f**ar parado. Enquanto outros aguardavam o expediente terminar, ele varria, limpava e fazia qualquer serviço disponível. “A gente trabalha com medo de perder o emprego”, resume.
A história de Jefferson dialoga com a visão do tenente Osni Nascimento Ferreira, que atua em Tucuruí (PA), cidade marcada pelo contraste entre a riqueza gerada pela gigantesca usina hidrelétrica e as dificuldades enfrentadas por parte da população local. Para ele, os desafios sociais da região são resultado de estruturas históricas e econômicas, não de características individuais.
De um lado, a luta de quem chega ao Sul em busca de oportunidades. Do outro, as contradições de regiões onde a dependência econômica e política molda gerações. Em comum, uma conclusão: as diferenças entre os Brasis não estão nas pessoas, mas nas oportunidades que cada lugar oferece.
Na Lapa, Jefferson construiu uma trajetória baseada em trabalho, persistência e solidariedade. Foi ajudado por outros nordestinos quando mais precisou e seguiu em frente quando o sócio desistiu. Hoje, seus filhos são lapeanos e desconhecem uma parte importante da história do pai: a de um homem que chegou sem nada e transformou dificuldades em degraus para vencer.