05/04/2026
A cidade dorme, mas o lixo não.
É nessa hora, quando o silêncio toma as ruas, que o caminhão passa e a vida escondida debaixo das calçadas aparece.
Sou gari há vinte e dois anos.
Já vi de tudo — resto de festa, brinquedo quebrado, carta rasgada, foto de gente que um dia se amou.
Mas naquela madrugada, o que encontrei não era coisa pra ser jogada fora.
Tava na esquina da Rua das Palmeiras.
Um s**o preto, se mexendo.
Pensei que fosse gato.
Abri com cuidado, e lá dentro um cachorro — pequeno, caramelo queimado, com uma pata sangrando e o olhar mais assustado que já vi.
Os meninos do caminhão gritaram:
“Deixa isso aí, Zé! Vamos logo!”
Mas eu não consegui.
Peguei o bicho no colo, ele tremia tanto que mal respirava.
Enrolei no cas**o laranja do uniforme, sujando de sangue e poeira.
“Esse não vai pro lixo”, falei.
Terminei o turno com ele dormindo na boleia, encostado na minha barriga.
Quando amanheceu, levei pro posto veterinário da prefeitura.
A moça olhou, disse que talvez não andasse mais direito.
“Mas tá vivo”, eu disse. “E vai continuar.”
Dei o nome de Poeira.
Porque foi do chão que ele voltou pra vida.
Hoje ele manca um pouco, mas corre como se não soubesse disso.
F**a comigo nas folgas, deitado na calçada enquanto limpo a frente de casa.
Quando saio pra trabalhar, ele late baixo, como quem promete esperar.
E quando volto, já tá no portão, abanando o rabo com aquela alegria que não cabe no corpo.
Às vezes olho pra ele e penso em quantas coisas boas o mundo joga fora sem perceber.
Poeira era uma dessas — jogado como lixo, achado como destino.
E desde aquela madrugada, eu entendo melhor o meu trabalho:
não é só recolher o que sobra.
É resgatar o que ainda tem vida.