16/10/2025
OLHA A FACA DE BOM CORTE, OLHA O MEDO NA GARGANTA.
Os homens estavam exaustos.
Dias cercados por tropas maragatas, sem comida e sem água.
A rendição parecia o único caminho.
Cerca de 300 soldados Pica-paus foram presos e postos dentro de um cercado de pedra.
Uma mangueira, destas antigas, erguida por escravos para conter animais, rapidamente se encheu de gente.
Do lado de fora do muro de pedra, no calor de novembro, os vitoriosos maragatos bebiam uns tragos de canha entre risos.
Debaixo da sombra do angico, um homem afiava sua faca.
A lâmina chiava sobre a dureza crua da pedra. Dentro do curral, angústia e silêncio.
Tão logo o primeiro homem foi retirado do potreiro, o silêncio deu lugar aos gritos de desespero.
Alguns, diante da morte iminente, tentavam correr, mas eram laçados feito bois e arrastados para o lado de fora da mangueira.
Uns tentavam resistir, mas eram agarrados pelos cabelos e puxados, enquanto tentavam se segurar no pasto ralo da terra seca da mangueira. Esperança vã, num potreiro de almas abandonadas, às margens tranquilas da Lagoa da Música.
Fora do cercado de pedra, o condenado era obrigado a se ajoelhar.
O homem com a faca vinha sem pressa, passando o fio da lâmina contra a unha do polegar, queria ter certeza do fio e de não ter que deslizar a faca mais de uma vez contra a carne. Exigente, gostava de um corte limpo.
Alguns dos condenados, quando postos de joelhos, tentavam apertar o queixo contra o peito com toda a força.
Numa busca instintiva por proteger o pescoço. Como forma de levantar a cabeça e expor o pescoço do condenado, um dos soldados maragatos enfiava a ponta de uma faca na narina e empurrava para cima.
Muitos narizes foram cortados, quase todos os queixos se erguiam.
Os olhos se arregalavam. O coração mergulhava em taquicardia.
Uma vez que o pescoço estivesse exposto, o olhar da vítima enxergava o céu azul do pampa gaúcho.
Um lindo céu azul.
No alto, bem no alto, podia ver uns pássaros cruzando.
O som do canto de um quero-quero vinha misturado com o vento quente.
Pairando sobre a mangueira de pedra, umas nuvens calmas e, antes delas, o rosto frio do degolador.
O corte da lâmina começava perto de uma das orelhas, cruzava todo o pescoço, rompendo as carótidas e terminava perto da outra orelha. Esse corte, conhecido como a “degola criolla”, era o preferido.
Mas o degolador também dominava outra técnica, mais simples, chamado de “degola brasileira”.
O corte era menor, a cabeça não chegava a cair para trás.
O degolado tinha tempo de mover as mãos e sentir o sangue entre os dedos, inutilmente tentando estancar a vida pelo buraco da faca. Restava a queda no chão, as tentativas de jogar ar para os pulmões, o corpo se debatendo em pânico. Tudo se terminava depois de umas dúzias de segundos de sofrimento.
Era novembro de 1893.
Em dezembro de 1977, em Uruguaiana, no palco da Califórnia da Canção Nativa, Apparício Silva Rillo e Mário Barbará Dornelles apresentaram uma das obras mais poderosas do nosso cancioneiro:“Colorada”. Uma canção que fazia o oposto de boa parte da nossa produção artística. Em vez do ufanismo diante dos caudilhos do passado, o peso da história.
Em vez do gaúcho como o detentor das melhores qualidades humanas, a bestialidade do sangue.
“Colorada” foi um espelho que nos lembrou de um tempo em que o gaúcho sangrava contra si mesmo.
E no espelho do passado, a imagem refletida era bem diferente daquela que a maioria das canções nativistas mostrava. “Colorada” vinha nos lembrar dos anos de barbárie, de um Rio Grande do Sul onde a degola era a regra e a vingança se escrevia com sangue nas paredes.
“Olha a faca de bom corte,
Olha o medo na garganta!
O talho certo e a morte,
No sangue que se levanta.”
A letra toda é uma poesia que se sustenta em sua riqueza histórica.
Sempre que eu ouço “Colorada”, eu me gelo por dentro, como quando era guri, na beira do fogão a lenha, ouvindo as histórias de assombração da minha avó.
Os versos de “Colorada” cortam fundo na nossa história. Rillo e Barbará nos arrastam para um outro século, para um Rio Grande do Sul “das revolução, das guerra braba de irmão contra irmão”.
Em pouco mais de dois anos (fevereiro de 1893 a setembro de 1895) cerca de 12 mil gaúchos se agrediram e se mataram, destes, mais de mil morreram da mesma maneira: degolados. Vizinhos lutando contra vizinhos. Parentes contra parentes. Amigos contra amigos.
O Estado estava dividido entre duas correntes políticas.
De um lado, os Republicanos, ou os Pica-paus, afeitos ao Positivismo e liderados por Júlio de Castilhos, membros do Partido Republicano Rio-Grandense.
Do outro lado estavam os Liberais, do Partido Federalista Brasileiro, os Maragatos, liderados por Gaspar Silveira Martins, com seus lenços vermelhos no pescoço.
A querida Sandra Pesavento, falecida historiadora, já escreveu bastante sobre esse período e tornou claro o que cada lado queria.
Os Republicanos queriam que uma elite de intelectuais e de sábios fosse a promotora de um desenvolvimento capitalista para todo o Estado.
No entanto, também queriam que este Estado, no intuito de fomentar essa mudança, pudesse ser autoritário e opressor com os descontentes.
Os Federalistas, acostumados ao protagonismo, queriam que a elite da região da Campanha fosse a força política principal. Tratava-se de uma aristocracia pecuarista, cujo poder remontava aos tempos do Brasil Império e que, historicamente, estava ligada ao contrabando nas regiões de fronteiras.
Dois projetos que não dialogavam.
Dois mundos que se encontraram no fio da faca. Brancos e colorados, lenços distintos que no fim, diante da degola, tornavam-se da mesma cor:
“Onde havia o lenço branco,
Brota um rubro, de sol pôr.
Se o lenço era colorado,
O novo é da mesma cor.”
De tempos em tempos, Júlio de Castilhos fazia questão de demonstrar quem mandava.
O poder era exercido pela violência.
Para Júlio de Castlhos, os caudilhos que o apoiavam eram a ponta de lança que estocava seus opositores.
Pela região da Campanha e Fronteira Oeste, estancieiros comandavam pequenos exércitos paramilitares.
Sabendo que um vizinho tinha posição política contrária, um estancieiro, adepto de Júlio de Castilhos, não pensava duas vezes para agir. Estâncias eram invadidas, mulheres estupradas, casas eram pilhadas e os desafetos políticos perseguidos e mortos.
Tudo feito diante das vistas grossas das autoridades locais, pois eram todas alinhadas ao castilhismo, criando um cenário de brutalidade e revanchismo sem fim entre ambos os lados.
“Era no tempo que os morto votava,
E governava os vivo até nas eleição.”
Em Bagé, no inverno frio de 1892, José Bonifácio da Silva Tavares, o Zeca Tavares, recebia na Estância do Limoeiro a visita de três homens, pois estavam jurados de morte pelos Pica-paus de Júlio de Castilhos. Sabendo dos riscos de hospedá-los, resolveu levar os três para Bagé, até a casa de um conhecido, deixando sua esposa, Umbelina, sozinha na estância.
Durante a noite, um bando liderado por Maneco Pedroso, vindos de Piratini, cidade vizinha, invadiu a Estância do Limoeiro.
Nada fizeram com Umbelina e as crianças, no entanto, destruíram o que puderam.
Roubaram pertences da família, levaram animais, quebraram coisas e, por fim, mataram um porco. No escritório da Casa Grande, havia uma cadeira onde Zeca Tavares gostava de sentar ao final do dia para falar de política e pensar nos seus afazeres.
Nela, Maneco ordenou que colocassem o porco sentado, morto, degolado.
Na cabeça do porco, colocaram um chapéu que era de Zeca Tavares. Com o sangue do porco, na parede do escritório, escreveram a seguinte frase: “A tua cabeça será nossa.”
Umbelina, apavorada, enviou telegramas para diversos jornais, denunciando a barbárie a que fora submetida sua família.
No Rio de Janeiro, o Jornal do Brasil publicava um de seus telegramas: “Forças de Pedroso continuam perseguindo meu marido, Zeca Tavares.
Minha fazenda Limoeiro foi arrasada. Levaram gado, cavalos e ovelhas. Casa e móveis estragados. Pergunto a quem devo fazer responsável por tais atos de vandalismo?”
Pronto.
Estava firmado no sangue da parede o contrato de ódio entre duas famílias: o clã dos Tavares e o clã dos Pedroso.
Zeca Tavares, um maragato, e Maneco Pedroso, um Pica-Pau, eram a definição do ódio recíproco.
Um ano depois, em 1893, os maragatos, cansados da violência castilhista, iniciaram uma guerra para retirar do poder Júlio de Castilhos e todos seus apoiadores.
Antes da Revolução ter seu início, Zeca Tavares teve que deixar a família e fugir para o Uruguai. Estava jurado de morte pelos Pedroso. Permanecer em Bagé era colocar em risco a Estância do Limoeiro e sua família.
O irmão de Zeca era o General João Nunes da Silva Tavares, o Joca Tavares, ex-combatente da Guerra do Paraguai e da Revolução Farroupilha.
Por sinal, naqueles anos, a maioria dos homens adultos já haviam participado de alguma guerra, começavam cedo, seja no Rio Grande do Sul ou no Uruguai e Argentina.
E como a oferta de soldados nunca faltava, tanto maragatos quanto pica-paus contratavam mercenários do Uruguai e da Argentina.
A mão de obra era abundante e barata.
“Era no tempo das revolução,
Das guerra braba de irmão contra irmão,
Do lenço branco contra os lenço colorado,
Dos mercenário contratado a patacão.”
Zeca e Joca Tavares, de volta à região de Olhos D’Água, perto de Bagé, começaram a recrutar homens para a Revolução Federalista.
E não era difícil encontrar gente disposta.
Quase todos tinham um parente assassinado ou a propriedade saqueada pelos Pica-paus.
Poucos se alistavam por ideais políticos.
A maioria empunhava armas por vingança e ódio.
Assim, os irmãos já contavam com um exército considerável, reforçado ainda pela presença de Adão Latorre.
Adão era major no exército federalista, negro e livre, homem de confiança e capataz das estâncias dos irmãos Tavares.
Nascido no Uruguai, começou a lutar os 16 anos de idade pelo Partido Blanco.
Nas guerras uruguaias, lutou junto com Aparício e Gumercindo Saraiva. Aprendeu táticas de guerrilha e se destacou na cavalaria ligeira.
A cavalaria ligeira era formada por homens capazes de ficar o dia inteiro no sol, cavalgando com lanças e espadas. Bons no tiro e ótimos no manejo do “ferro branco”. Especialistas no trato com os cavalos, não se importavam em dormir em qualquer lugar, na chuva, na lama, no frio, desde que ao lado dos seus animais.
“Era no tempo dos combate a ferro branco,
Que fuzil tinha muy pouco e
Era escassa a munição.”
Adão Latorre era o gaúcho do século XIX em carne, campo e osso. Mestre na faca, sabia carnear qualquer tipo de bicho.
O lombo do cavalo era extensão do próprio corpo.
Habitava o pampa como se nele não houvesse nenhum aramado, cruzando de um lado para o outro das fronteiras como se elas não existissem.
Assim, dominava o portunhol, sem ter frequentado escolas, pouco sabia de ler e escrever.
Por ser pobre e descendente de escravos, Adão Latorre sabia, desde jovem, a importância da sobrevivência.
A sina de uma criança pobre no Rio Grande do Sul e Uruguai do século XIX era a lida do campo, trabalhando como peão de estância, ou a lida militar, pois guerras, assim como o gado, também não faltavam para se trabalhar.
Adão Latorre conseguiu sobreviver em tempos de guerras e também nos tempos de paz.
No Brasil, depois das lutas no Uruguai, virou capataz de estância em Bagé.
Era tido como um membro da família Tavares, sempre que chegava na Estância do Limoeiro, as portas estavam abertas.
Tinha em Olhos D’Àgua uma chácara onde morava com a mulher, com o pai e uma filha.
Dizem que certa feita, quando Adão andava com os irmãos Joca e Zeca Tavares, tropeando bois para o Uruguai, seu rancho foi invadido por um grupo de soldados Pica-paus.
A casa foi saqueada, a filha e a mulher foram estupradas diante dos olhos de seu velho pai. Para além da amizade de Adão pelos irmãos Zeca e Joca, talvez, esse acontecimento tenha contribuído muito para que ele se alistasse junto aos Maragatos.
Sempre que podiam, Adão, Zeca e Joca destruíam os trilhos da ferrovia para evitar que munição e armas fossem enviadas para a cidade de Bagé, onde estavam as tropas comandadas por seus desafetos, Maneco Pedroso e seu irmão, Antero.
Em outubro de 1893, o marechal Isidoro Fernandes assumiu o comando castilhista e marchou para Bagé com soldados, cavalos, canhões e armas.
Queria transformar a cidade em reduto dos lenços brancos, sufocando o coração maragato da região.
Para isso, repartiu as forças: parte em Bagé, outra em Quebracho Grande, sob comando do capitão Bento Gonçalves da Silva Filho, e ele próprio com os irmãos Pedroso na estação Rio Negro, hoje Hulha Negra.
Joca e Zeca investiram repetidas vezes contra os defensores de Rio Negro, minando pouco a pouco a resistência.
Certa tarde, Maneco tentou romper o cerco com um pequeno grupo, mas foi barrado pelos lanceiros maragatos. Antero insistiu que o irmão fugisse à noite, pois a vantagem dos Tavares era evidente. Maneco se negou: não abandonaria seus homens.
Antero partiu sozinho. Maneco ficou.
“Era no tempo do inimigo não se poupa,
Prisioneiro era defunto,
E se não fosse era exceção.”
O Marechal Isidoro, não se sabe se por falha ou má-fé, condicionou a rendição: queria que todos os oficiais militares fossem poupados e recebessem tratamento digno.
Maneco não era um oficial de carreira, seus soldados não eram militares.
Eram civis, peões, trabalhadores, uns eram argentinos, outros uruguaios, uns eram mercenários que haviam sido contratados.
No acordo de rendição, todos foram deixados para trás pelo famoso marechal.
Maneco e seus soldados foram presos e colocados na mangueira de pedra.
O triste e famoso “Potreiro das Almas”. Zeca Tavares e Maneco Pedroso, dois dos maiores desafetos da Revolução Federalista, enfim, estavam postos um na frente do outro.
Zeca, mesmo contra a vontade do irmão, ordenou que a degola começasse.
Queria que alguém de confiança fizesse o trabalho, alguém que honrasse o ocorrido na Estância do Limoeiro. Chamou Adão, seu major, capataz e amigo.
Adão Latorre, até então, jamais havia sido associado ao triste assombro da degola, mas como peão que era, cumpriu a ordem do patrão.
O primeiro a ser retirado da cerca de pedra foi ele, Maneco.
“Quem mata chamam bandido,
Que morre chamam herói.
O fio que dói em quem morre,
Na mão que abate não dói.”
Na lenda que se conta, houve um diálogo entre Adão, o degolador, e Maneco, o degolado. Dois gaúchos que, em nome da política, lutavam de lados opostos, embora em vida morassem lado a lado. Campereando pelos mesmos pastos e sorvendo mates da água dos mesmos rios e sangas.
- Adão, quanto é que vale a vida de um homem valente e de bem? - Perguntou Maneco, firme, em pé diante do degolador.
- Valente, sim, mas de bem eu não sei. Respondeu Adão, com a faca de cabo de prata mão.
Houve um silêncio breve. Então Adão prosseguiu:
- A vida de um homem vale muito, mas a tua não vale nada, tanto é que ela tá aqui no fio da minha faca.
- Então degola! Vai, degola, negro filho da p**a!
Maneco, irritado com a ofensa, tentou dar um soco em Latorre, que respondeu com um tapa secom o dorso da mão estalando na cara de Maneco.
O chapéu do coronel caiu no chão.
- Para onde tu vais, não vais precisar de chapéu. Sentenciou Latorre.
Depois disso, dizem que não houve mais nenhuma palavra.
Nem súplica ou pedido de clemência.
Manecol se ajoelhou diante do degolador, levantou o queixo, como que tentando facilitar o trabalho de Latorre. Como se tentando permanecer de cabeça erguida, mesmo no fim.
“Botavam nele a gravata colorada,
Que era o nome da degola
Nesses tempos de leão”
Os Pica-paus foram sendo retirados do curral de pedra, uns eram arrastados pelos cabelos, outros, eram laçados e puxados para fora.
Os gritos, as orações, as súplicas, nada fazia diferença.
Dizem que entre os degolados, Adão encontrou os correntinos que invadiram seu rancho no Olhos D'Àgua e estupraram sua filha e esposa.
Naquele dia, a faca de Adão Latorre, de acordo com Joca Tavares, degolou vinte e seis homens.
A imprensa castilhista, porém, divulgou que foram mais de trezentos os degolados.
Os corpos, tão logo parassem de se mover, eram empilhados num canto, depois foram jogados nas águas da Lagoa da Música.
Nunca se soube de fato quantos foram mortos naquele dia de novembro na Estação Rio Negro.
Adão Latorre foi alçado pelos jornais governistas ao posto de maior vilão da Revolução Federalista, embora houvesse degoladores que tivessem feito pior e matado muito mais pessoas, eles não eram negros como Adão.
Em 05 de abril de 1894, no Boi Preto, perto de Palmeira das Missões, o Coronel Pica-pau Firmino de Paula, fez 370 maragatos como prisioneiros.
Durante o caminho em direção a cidade de Cruz Alta, ele foi degolando e enfileirando os corpos ao longo da estrada.
Chegou em Cruz Alta sem nenhum prisioneiro. Antes, Firmino já havia feito pior. Tinha 800 maragatos prisioneiros, entre eles, crianças, velhos e mulheres.
Quase todos foram degolados, inclusive as crianças.
Após o acontecido na mangueira de pedra, em 1895, já com sessenta anos, Adão voltou para a sua chácara.
Depois de perder um filho e esposa, viveu como um homem do campo normal.
Casou-se de novo, criou os filhos, viu os netos, carneou ovelhas, tomou chimarrão.
Evitava falar dos tempos de guerra e, sobretudo, evitava os olhares revanchistas no bolicho da vila.
Adão sabia que muitos queriam vingança, mas poucos tinham coragem de tentar.
Anos depois, em 1923, Adão Latorre tinha 88 anos.
Ainda montava seus tordilhos com firmeza e empunhava a espada com a mesma naturalidade de antes. Não lhe passava pela cabeça ficar em casa enquanto os maragatos marchavam para a guerra.
Coronel já de nome e de respeito, saiu cavalgando em direção a Dom Pedrito.
Sabia que na batalha vindoura, do outro lado, o esperavam os antigos Pica-paus, agora chamados Chimangos, sob a liderança de Oswaldo Ar**ha e do coronel José Antônio Flores da Cunha, intendente de Uruguaiana.
No dia 15 de maio de 1923, nas margens do Rio Santa Maria Chico, o frio era tanto que até recebeu menção no diário de batalha de Flores da Cunha. Escreveu que do lado Chimango, as patas dos cavalos quebravam o gelo dos pastos, cada vez que se movimentavam.
Do outro lado do front, os jovens maragatos se embebedavam para combater o medo e mascarar o frio.
Ninguém entendia o que fazia ali aquele velhote franzino, de barba branca e rosto gordo.
Mas Adão, quieto sob o poncho, estava pronto para o dia seguinte.
Mal a geada havia desaparecido do pasto e as metralhadoras governistas começaram à cuspir forgo sobre os jovens maragatos. Muitos fugiam enquanto a saraivada de tiros ia varrendo tudo.
Adão e seu tordilho permaneceram em posição, numa tentativa de motivar os que ainda não sabiam o que fazer. A modernidade tinha chegado e a guerra já não era mais a mesma de antes.
Os maragatos ainda acreditavam nas guerras feitas no lombo do cavalo, com facas, rifles e espadas.
Já Borges de Medeiros, ele tinha armado a Brigada Militar com metralhadoras e os novos Mausers.
O tordilho de Adão jamais voltou para a chácara no Olhos D'Àgua. Foi morto a tiros.
Latorre, caído no chão, entre os sons de gritos dos feridos, ainda tentou seguir pelejando.
Ao tentar montar noutro cavalo, foi novamente atingido por tiros de rifle. Morreu aos 88 anos, com uma espada na mão e com um lenço vermelho no pescoço, lutando pelos maragatos.
Na localidade de Olhos D'Àgua, no alto de uma coxilha, perdido no meio do pasto alto, ainda resiste o túmulo erguido em 1926.
Nilson Mariano, autor de “Um tal Adão Latorre: A degola na Revolução de 1893”, quando visitou o local, encontrou uma lápide quebrada, talvez por uma marretada. Adão, até na morte, permaneceu nas terras do patrão.
A Estância do Limoeiro ainda existe.
Ela segue pertencendo a família Silva Tavares. Firme com suas construções antigas, seus móveis e sua arquitetura espanhola. Dentro da Casa Grande, até hoje está a cadeira onde Zeca Tavares viu um porco morto com seu chapéu.
A estância é patrimônio cultural do Estado, tem museus e uma pousada onde recebe visitantes.
E eu, no calor de um novembro, aqui em Uruguaiana, olho para o céu azul do pampa.
O mesmo céu que tantos olharam pela última vez. E vejo suas nuvens lentas, enxergo marrecas voando longe, no vento quente, em direção as lavouras de arroz. Estendo o meu braço sem preça e agarro a minha faca de bom corte, passo a lâmina lentamente contra unha do meu dedo. Afiada. Depois, passo ela na carne e retiro um pedaço da costela de ovelha que repousava sobre a brasa de espinilho.
E, antes da primeira bocada, é claro, aumento o volume do meu toca-discos para ouvir novamente a voz de Mário Barbará cantando ela... “Colorada”.
Indicação de livros:
Para os que gostariam de saber mais sobre a Revolução de 1893, além das diversas teses e dissertações sobre o tema, indico as obras de Nilson Mariano, “Um tal Adão Latorre.
A degola na Revolução de 1893” e o recente livro de Ricardo Ritzel, “As cinco tumbas de Gumercindo Saraiva e outras histórias de guerras gaúchas”.
Espetacular texto de Roger Baigorra Machado.
Bárbaro!!👏