04/12/2025
Antiga Fazenda Recreio: herança cafeeira do século XIX e núcleo da pecuária leiteira moderna às margens da RJ-186, em São José de Ubá, Rio de Janeiro.
1. Situação e ambiência
A Fazenda Recreio localiza-se na zona rural de São José de Ubá, às margens da rodovia RJ-186, logo após a sede municipal no sentido de Itaperuna. O conjunto principal se implanta em área relativamente plana no centro da propriedade, emoldurado por morros e pela malha de estradas vicinais que ligam o vale ao povoado de Toiama e ao centro urbano de São José de Ubá.
O acesso à casa-sede é feito por um caminho em declive, calçado com pedras e ladeado por coqueiros, que conduz a um pequeno patamar onde se organiza o núcleo histórico: casa-sede, casa de colono, curral, paiol e outras dependências rurais. A fazenda conserva um marcado caráter de paisagem produtiva: pastagens, áreas de horticultura e instalações ligadas à criação de gado convivem com pomares e pequenos reflorestamentos.
Um traço forte da ambiência descrita no relatório é a preservação de espécies frutíferas tradicionais da região, muitas já raras em outros contextos rurais. São citados exemplares de cambucá, araçá, abiu roxo, jaqueiras, jabuticabeiras, goiabeiras, laranjeiras e macieiras. Destacam-se também a siriguela e o jaracatiá (jaracatiá spinoza), conhecido na região como mamãozinho, mamão do mato ou barrigudo, árvore valorizada tanto pelos frutos quanto pelo potencial ornamental e paisagístico.
Além dessas árvores, os proprietários promoviam, à época do inventário, o reflorestamento de encostas com eucaliptos e frutíferas, tanto para recompor a cobertura vegetal como para fornecer sombra ao gado. Assim, a ambiência da Fazenda Recreio em 2010 é a de uma antiga propriedade cafeeira adaptada à pecuária leiteira, mas que preserva a estrutura de fazenda histórica e uma borda verde composta por pomares, matas pontuais e pastos, em clara continuidade com a paisagem rural tradicional da região.
2. Descrição arquitetônica
A casa-sede apresenta as características típicas da arquitetura rural colonial brasileira do século XIX: robustez, despojamento formal e simplicidade construtiva. Assenta-se sobre porão alto e habitável, o que indica um uso original ligado ao beneficiamento da produção agrícola (como engenho ou depósitos), ao mesmo tempo em que protege a construção da umidade do solo e valoriza a implantação no terreno.
O volume principal é coberto por telhado de quatro águas, arrematado por beiral forrado, ao qual se soma um pequeno acréscimo lateral com telhado de meia-água, resultado de adaptações posteriores às necessidades de uso. A fachada principal, de composição simétrica, é marcada por sequência de janelas e porta central, com esquadrias de madeira de desenho simples, e portas internas do tipo ensilhadas, algumas com o mesmo repertório ornamental observado em edificações urbanas de fins do século XIX.
A estrutura construtiva tradicional é de pau a pique ou taipa de mão: um trançado de varas de madeira disposto em sebe, preenchido com barro, formando paredes espessas. Os frechais apresentam orifícios e marcas que permitem identificar esse sistema, que ainda preserva parte de sua integridade. A cobertura utiliza telhas cerâmicas do tipo capa e canal, deixando trechos aparentes e, em alguns pontos, formando um “telhado vã” com beiral encachorrado.
Um dos elementos mais marcantes é a varanda em “L” que envolve parte da casa. Ela funciona como espaço de transição entre interior e exterior e, no cotidiano descrito no relatório, como área de estar e lazer, valorizada pela vista para o entorno e pela ventilação. Essa varanda possui piso de tábuas corridas de madeira e guarda-corpo de réguas vazadas, apoiado em colunas de madeira chanfradas que sustentam a cobertura.
No interior, o piso é predominantemente de madeira, com salas de visitas e de jantar, dormitórios e circulação articulados de forma linear. A presença de um lavabo com espelho fixado à parede e um porta-toalhas indica um grau de modernização do conforto da casa, aproximando certas práticas da casa rural às residências urbanas do interior ao longo do século XX. O mobiliário mencionado inclui conjuntos com trabalhos de marchetaria, lustres e peças de louça inglesa com flores em relevo, que revelam o gosto decorativo dos proprietários e o nível de distinção social associado à fazenda.
Nos fundos da casa-sede, como era comum nas fazendas antigas, situa-se uma grande cozinha, provavelmente construída posteriormente ao corpo principal. Uma escada na fachada posterior leva a um nível inferior, onde dois cômodos são usados como depósitos, enquanto a área restante é aberta e integrada aos espaços de lazer contemporâneos, com churrasqueira e sauna. Toda essa área apoia-se em pilares de madeira e alvenaria de tijolos maciços, formando uma espécie de galpão sob a cozinha.
Entre as construções originais remanescentes, destaca-se o paiol ou tulha, edificação de madeira combinada com alvenaria de tijolos, com função de depósito de produtos agrícolas e insumos diversos. Esse elemento confirma a vocação produtiva histórica da fazenda e completa o conjunto de edifícios rurais tradicionais ainda presentes na propriedade.
3. Estado de conservação da fazenda em 2010
O relatório de 2010 registra que os proprietários tinham como objetivo realizar um trabalho minucioso de restauração, com orientação técnica especializada, para devolver à casa-sede e às demais edificações suas características originais, compatibilizando preservação patrimonial e uso residencial contemporâneo.
Entre 2006 e 2007, a casa-sede passou por uma reforma voltada principalmente à manutenção da habitabilidade e à estabilização estrutural. O forro original foi, em grande parte, preservado. Na cozinha, o piso de ladrilho hidráulico foi substituído por revestimento cerâmico, alteração funcional, mas que modifica um elemento de época. Também foi realizada prospecção em paredes internas, especialmente na sala principal, com o intuito de identificar as cores originais utilizadas no acabamento.
Do ponto de vista estrutural, algumas intervenções emergenciais já haviam sido executadas. Os pilares de madeira que apoiam a parte posterior da casa tiveram suas bases protegidas com concreto, para reduzir o apodrecimento causado pela umidade. Em pontos críticos, foram instalados cabos de aço atravessando ou amarrando paredes, com o objetivo de conter movimentações e fissuras e estabilizar o conjunto estruturado em taipa.
O paiol, em particular, encontrava-se em situação delicada. O relatório menciona que uma grande carreta colidiu com a construção, comprometendo sua estabilidade. Na tentativa de preservá-lo, os proprietários reforçaram os apoios com peças adicionais de madeira e também recorreram ao uso de cabos de aço para travamento, medida paliativa que, embora não substitua uma restauração completa, impediu a perda imediata da edificação.
Em síntese, em 2010 a Fazenda Recreio mantinha a integridade volumétrica e a maior parte de seus elementos arquitetônicos originais, mas já demandava um projeto de restauração mais abrangente, capaz de reverter adaptações pouco cuidadosas, tratar patologias estruturais e valorizar o conjunto como patrimônio histórico rural, sem comprometer sua utilização como fazenda produtiva e moradia.
4. Histórico da Fazenda Recreio
O relatório situa a história da Fazenda Recreio dentro da formação do distrito de São José de Ubá e da própria fronteira cafeeira do norte fluminense. O distrito de São José de Ubá foi criado em 1892. Antes, a localidade era conhecida como Rancho dos Ubás, por ser pouso de tropeiros vindos em sua maioria de Minas Gerais. O nome atual resulta da junção do padroeiro São José com “Ubá”, termo de origem tupi relacionado a uma planta nativa utilizada na confecção de cestos, revelando a forte presença indígena e cabocla na toponímia local.
Ao longo da primeira metade do século XX, a região integrou-se ao ciclo do café, desmembrando-se de antigos núcleos como Cambuci. Grandes e médias propriedades foram abertas em áreas antes ocupadas por aldeamentos indígenas e pequenas posses, formando um mosaico de fazendas cafeeiras e unidades de criação de gado. Nesse contexto, a área que viria a constituir a Fazenda Recreio fez parte de um processo de partilha e doação de terras dentro de famílias locais, até se consolidar como unidade autônoma, ligada à família Carvalho.
Segundo registros familiares, Joaquim Ribeiro de Carvalho foi o proprietário que deu à fazenda o perfil agropecuário que a caracterizaria ao longo do século XX. Ele manteve a cafeicultura herdada do ciclo anterior e investiu também na criação de gado. O relatório destaca que Joaquim foi um dos pioneiros na região no uso sistemático de inseminação artificial, prática que ele já adotava há mais de cinquenta anos, importando touros holandeses da Argentina para melhorar seu rebanho, fato que vincula a história da fazenda às primeiras experiências de melhoramento genético bovino no interior fluminense.
A partir de 1964, com a reorganização patrimonial da família, formou-se um condomínio entre seus filhos, e a gestão da Fazenda Recreio passou a ser exercida, sobretudo, por José, Roberto, Nelson e Joaquim de Oliveira Carvalho Júnior, o “Quincão”. Nesse período, a propriedade especializou-se em pecuária de corte e horticultura, acompanhando a desaceleração do café e a crescente importância da produção de alimentos e carne para o abastecimento regional.
Com o falecimento de Joaquim Ribeiro de Carvalho, o condomínio foi extinto e a Fazenda Recreio coube, por herança, à filha caçula, Ana Maria de Carvalho Laurindo. Posteriormente, sua filha, a agrônoma Mila de Carvalho Laurindo e Campos, assumiu a administração da fazenda em 1994. O relatório ressalta que Mila deixou Minas Gerais para se fixar em São José de Ubá, dando continuidade e novo rumo ao trabalho iniciado pelo avô.
No início de sua gestão, a fazenda mantinha foco principal em gado de corte e produzia menos de cem litros de leite por dia, em uma região com pouca tradição leiteira. A partir de uma decisão estratégica, Mila passou a direcionar a propriedade para a pecuária leiteira especializada, investindo na formação de um rebanho das raças Girolando e Gir. Paralelamente, aproveitou políticas públicas e programas locais voltados ao incentivo da produção de leite, adaptando as instalações e a base forrageira da fazenda ao novo perfil produtivo.
Na virada dos anos 2000, a Fazenda Recreio já vinha se consolidando como referência em melhoramento genético de gado leiteiro, integrando rebanhos colaboradores em programas de controle leiteiro e te**es de progênie coordenados pela Embrapa Gado de Leite e pela Associação Brasileira dos Criadores de Girolando. Esses programas utilizam dados de produção e genealogia para avaliar reprodutores, e a participação da Fazenda Recreio reforça sua posição como propriedade tecnificada e protagonista no desenvolvimento da raça Girolando no estado do Rio de Janeiro.
Assim, a trajetória histórica da Fazenda Recreio articula três tempos: o da fazenda cafeeira oitocentista na fronteira agrícola do norte fluminense; o da transição para pecuária de corte e horticultura na metade do século XX; e o da especialização em pecuária leiteira de alta tecnologia, com papel relevante em programas de melhoramento genético, sem perder a antiga casa-sede e o conjunto de edificações que testemunham o passado rural da região.
Créditos
Síntese elaborada a partir do Relatório INEPAC (Inventário das Fazendas do Vale do Paraíba Fluminense), com levantamentos realizados entre 2007 e 2010.
Informações recentes sobre a Fazenda Recreio (pós-2010)
As pesquisas em fontes abertas indicam que a Fazenda Recreio permanece ativa em São José de Ubá como referência em pecuária leiteira de raças Gir e Girolando e mantém forte presença pública e digital.
A fazenda possui página própria em redes sociais, onde se apresenta explicitamente como criatório das raças Gir e Girolando, com milhares de seguidores e divulgação permanente de animais, leilões e resultados de pista.
https://www.facebook.com/p/Fazenda-Recreio-100054408313708/
Material institucional de empresas de assessoria em leilões registra que Mila de Carvalho Laurindo e Campos está à frente da Fazenda Recreio há cerca de duas décadas e que a propriedade já conquistou, em anos como 2013 e 2014, títulos de “melhor criador” em eventos da raça, reforçando a continuidade e o sucesso do trabalho iniciado na década de 1990.
https://q2assessoria.com.br/imagens/arquivos/arquivo1157.pdf
Relatórios técnicos e sumários da Embrapa Gado de Leite e da Associação Brasileira dos Criadores de Girolando continuam listando a Fazenda Recreio, em São José de Ubá, como rebanho colaborador em programas de melhoramento genético e controle leiteiro, com animais registrados e avaliados em te**es de progênie até pelo menos 2022.
Notícias regionais sobre exposições e torneios leiteiros, como a Expoleite das Montanhas, mostram vacas e novilhas da Fazenda Recreio obtendo diversas premiações em diferentes categorias, o que confirma a reputação do plantel no circuito de exposições e leilões especializados em gado leiteiro de alto desempenho.
Além disso, guias comerciais e diretórios locais confirmam a localização atual da fazenda na RJ-186, Km 67, zona rural de São José de Ubá, com telefone de contato ativo, corroborando a continuidade da atividade agropecuária e a permanência da Fazenda Recreio como unidade produtiva e ponto de referência na rodovia que liga São José de Ubá a Itaperuna.
Por fim, publicações recentes em redes sociais indicam a realização de leilões próprios, como o 7º Leilão Fazenda Recreio em 2024, em parceria com empresas de assessoria em leilões, o que demonstra um nível consolidado de organização comercial, venda de genética e inserção da fazenda no mercado nacional de gado leiteiro especializado.