23/08/2026
A gente sente falta de coisas que nem existem mais
Moro em Paulínia há 51 anos. Nasci em Campinas e vim para cá quando tinha apenas 5 anos. Praticamente toda a minha história foi construída nesta cidade.
E talvez por isso, de vez em quando, eu me pegue sentindo saudade de coisas que não existem mais.
Não estou falando apenas de lugares. Estou falando de uma Paulínia que ficou guardada na memória.
Quando morávamos na Avenida 9 de Julho, a rua era o nosso quintal. A gente brincava de betis, jogava futebol onde hoje está o Hospital Municipal e passava boa parte do dia na rua.
Não havia celular.
Aliás, não havia nem a possibilidade de alguém ligar para saber onde você estava.
E estava tudo bem.
Quando anoitecia, muitas vezes os adolescentes ficavam conversando na calçada de casa até tarde. Ninguém precisava mandar mensagem dizendo “onde você está?”. Ninguém compartilhava localização. A vida simplesmente acontecia.
Também sinto falta de alguns lugares.
Do Bar do Vitor, perto da Escola Porphyrio.
Do Stalos, na Praça do Rotary, onde os jovens se encontravam, ficavam rodando pela praça, paquerando, conversando e tentando chamar a atenção de alguém.
E da La Fiesta, naquela esquina em frente ao que hoje é o Fórum, onde funcionava a Prefeitura.
No fim da noite, era quase um ponto de encontro. A turma aparecia para comer alguma coisa, conversar e prolongar um pouco mais o dia.
Hoje, olhando para trás, percebo que talvez aqueles lugares fossem muito mais do que bares e lanchonetes.
Eram pontos de encontro de uma geração.
E aí vem a parte mais difícil da saudade.
As pessoas.
Quantos amigos daquela época já se foram?
Entre eles, o Vadão.
Tenho uma lembrança muito carinhosa dele. Era o melhor fabricante de p**as do bairro. Para quem viveu aquela época, uma p**a bem feita tinha quase o status de uma obra de arte.
Hoje, quando penso nele, não lembro apenas das p**as. Lembro de uma época da vida que não volta mais.
Também lembro das viagens para a praia de Fusca. Minha mãe dirigindo, eu, minha irmã e meus avós juntos. Todo mundo dentro daquele carro, seguindo viagem.
Hoje talvez pareça desconfortável.
Naquele tempo, era uma aventura.
Eram momentos simples que, sem que ninguém percebesse, estavam construindo as nossas melhores lembranças.
Também sinto saudade de quando eu era escoteiro.
Talvez porque, naquela época, a gente ainda estivesse descobrindo quem seria.
Mas é curioso.
Eu não acho que antigamente era melhor.
Hoje também é bom. A vida mudou, a cidade mudou, nós mudamos.
Temos coisas hoje que seriam inimagináveis naquela época. Tecnologia, conforto, comunicação, oportunidades.
O que acontece é que o tempo transforma momentos comuns em lembranças extraordinárias.
Naquele dia em que ficamos horas conversando na calçada, ninguém imaginava que um dia sentiríamos saudade daquela conversa.
Quando entrávamos no Fusca para viajar, ninguém pensava que aquele passeio simples ficaria guardado para sempre.
Quando o Vadão fazia uma p**a, ninguém imaginava que, muitos anos depois, lembraríamos dele com tanta saudade.
Talvez seja essa a grande ironia da vida.
A gente só descobre que estava vivendo uma época especial depois que ela passou.
Por isso, talvez o melhor que possamos fazer seja prestar mais atenção no presente.
Conversar um pouco mais.
Rir sem precisar fotografar.
Encontrar os amigos.
Visitar quem amamos.
Criar memórias sem perceber que estamos criando memórias.
Porque um dia, daqui a muitos anos, talvez alguém olhe para trás e sinta saudade exatamente da vida que estamos vivendo hoje.
E talvez essa seja a maior lição que o tempo me ensinou:
a vida que hoje parece comum pode ser justamente aquela da qual sentiremos mais saudade amanhã.
Paulínia
Paulínia tem uma oportunidade importante de transformar sua força econômica em novos negócios, investimentos e empregos. A iniciativa da Prefeitura de ouvir empresas e investidores e, ao mesmo tempo, estudar a possível implantação de uma Zona de Processamento de Exportação mostra uma visão de futuro e merece ser acompanhada de perto. Mais do que atrair novos empreendimentos, planejar a internacionalização da economia pode ampliar a competitividade do município e abrir novas possibilidades para o desenvolvimento local. É um movimento que aproxima Paulínia de uma economia cada vez mais conectada ao mercado global e que, se conduzido com planejamento e responsabilidade, pode trazer resultados positivos para toda a cidade.
Coluna do Naja 852 Por : Alexandre Mane