02/05/2019
Sobre a representação feita no São Paulo Fashion Week pelo estilista Ronaldo Fraga:
"Diante disso, a representação feita por Ronaldo Fraga, em seu desfile com tema “Guerra e Paz“, foi no mínimo controversa e suas atitudes também. Ao optar por representar o rosto de Marielle num tênis, com um alvo na cabeça, e depois sua face bordada em uma camisa em que tiros também faziam parte do bordado/composição. O estilista sem prévia autorização da família, nos fez lembrar do assassinato de Marielle, de forma que foi difícil entender se era una denúncia, ou apenas um fetiche pela representação da violência e criação de imagens que chocam, em cima de uma mulher que é tão significativa para mulheres e negros brasileiros. Posterior ao desfile, foi declarado que nenhum familiar de Marielle havia sido consultado previamente sobre tais representações, diferente do filho de Portinari que concedeu autorização prévia pois foi comunicado antes da produção das peças. Logo, mesmo num desfile que se propunha uma denúncia referente a realidade que compreende o racismo brasileiro. É inegável, que Ronaldo Fraga e sua equipe não acharam que fosse necessário o mesmo cuidado com familiares de Marielle, em sua maioria negros, que tiveram em relação a família de Portinari.
Ele pode até alegar que não foi por isso, mas por usar o trabalho de Portinari em suas estampas. A questão é que a imagem de Marielle não é de cunho público, e numa representação que causou mal estar para familiares e foi compreendida por eles como desrespeitosa, é inegável que houve uma sucessão de erros, equívocos e projeções de como esse sistema sempre funciona, produzidas por quem diz ser agente de crítica ao sistema. Diante disso é inegável discutir a dificuldade que brasileiros vêm mostrando em fazer homenagens dignas e respeitosas para com figuras como Marielle, ou tragédias como a dos 80 tiros que atingiram o carro de Evaldo Rosa, ceifaram sua vida e traumatizaram toda sua família. Fato que por mais traumatizante que tenha sido, em menos de um mês, surgiu nas redes sociais uma camiseta em que 80 círculos pintados a mão criaram uma estampa. Protesto? Sadismo? Oportunismo? Tantas perguntas surgem quando nos deparamos com isso. O que não compreendo, é de onde essas ideias surgem e quem elas afetam?"
Em tempos de ascensão do conservadorismo e de uma linguagem e conduta imoral dos nossos representantes públicos, como um todo, estamos carentes da discussão sobre ética, limites e bom senso. Os tempos são tão surreais, que até mesmo aqueles que defendem pautas semelhantes às nossas optam por...