30/06/2026
NO MEU ANIVERSÁRIO, MEU NAMORADO DE CINCO ANOS ME DEIXOU SOZINHA PARA CORTAR BOLO COM SUA ESTAGIÁRIA E EU DEIXEI TUDO EM UMA MALA PARA SEMPRE
Eu estava na orla de Copacabana, com o vestido azul-claro colado no corpo pelo vento quente do mar, meu cabelo preto comprido caindo em ondas grossas sobre os ombros, quando o celular vibrou na minha mão. O sol descia rápido, pintando tudo de laranja e dourado. Famílias tiravam fotos, casais caminhavam de mãos dadas, crianças corriam na areia molhada. Eu segurava um s**o de papel pequeno com o bolo de morango que comprei para mim mesma. Vinte e nove anos. Cinco anos depois de deixar Salvador com Marcos, cheia de promessas que ele nunca cumpriu.
O texto dele chegou três minutos antes das luzes da praia acenderem de vez. “Desculpa, Letícia. Tô lotado de trabalho. Não me espera. Sai com as amigas, eu pago.” Eu sorri. Não de alegria. De cansaço. Porque era a centésima oitava vez que ele me deixava sozinha em um aniversário. Eu abri o Instagram. O post de Camila apareceu na tela. Rosas cor de rosa. Bolo de morango. A mão dele, com a abotoadura de prata que eu comprei juntando dinheiro por meses, cortando o bolo. A legenda perfurou meu peito como faca: “Quando a pessoa certa te ama, todo dia é Dia dos Namorados.”
Eu reconheci a abotoadura no mesmo segundo. Eu mesma escolhi. Eu mesma paguei. Ele disse que eu era a única que guardava os detalhes dele. Agora aquele detalhe contava a verdade grande. Ele tinha tempo. Só não tinha tempo para mim.
Eu desliguei a tela. Não chorei. Não liguei. Virei as costas para a praia e entrei num café pequeno do outro lado da avenida. Sentei sozinha, comi uma fatia do meu bolo e abri o email. A carta de demissão que eu mantinha em rascunho há meses estava lá. “Com efeito imediato, apresento meu pedido de demissão…” Apertei enviar. Pela primeira vez em cinco anos, minha mão não tremeu.
Quando cheguei no apartamento em Botafogo, era quase uma da manhã. Marcos entrou com uma única rosa cor de rosa na mão. “Ainda acordada?” disse ele, como se o mundo estivesse normal. “Terminei o trabalho agora. Te trouxe uma flor.”
Ele tentou me abraçar. Dei um passo para trás. Olhei para a rosa. Era igualzinha à do post. “Que trabalho?” perguntei. “Trabalho de cortar bolo para outra mulher no meu aniversário?”
Ele congelou. Depois franziu a testa. “Letícia, tô morto de cansado. Pode parar de fazer cena?”
Levantei o celular com o print do post. Ele ficou sem palavras por alguns segundos. Depois suspirou. “Aniversário dela também é hoje. Foi só bem-estar da funcionária. Bolo, flores, coisa simples. Eu não sabia que ela ia postar assim. Amanhã falo com ela para apagar.”
Ele pegou o celular e mandou um Pix. “Desculpa, Letícia. Da próxima vez eu compenso. Prometo, no seu próximo aniversário eu preparo tudo.”
Da próxima vez. Ele disse isso quando fiz vinte e cinco. Vinte e seis. Vinte e sete. Vinte e oito. E agora, aos vinte e nove, repetia a mesma frase.
Eu não abri o Pix. Já não aceitava as compensações dele há três anos.
Ele entrou no banheiro. Quando saiu, cabelo molhado, toalha na mão, rosto irritado. “Marcos,” chamei. “Letícia, já pedi desculpa. Amanhã tem trabalho. Não vamos aumentar isso.”
Respirei fundo. “Eu não sabia que até estagiária que ainda não é efetivada tinha benefício de aniversário na Lumina Corp.”
Ele levantou a sobrancelha. “Política nova. Eu preciso te reportar tudo?”
“Todas as estagiárias,” perguntei baixinho, “você para o trabalho para cortar o bolo com as próprias mãos?”
Ele jogou a toalha no chão com força. “Você tem vinte e nove anos, Letícia. Não é mais criança. É só um aniversário. Por que você transforma tudo em problema enorme?”
Eu o encarei. “Não importa mais.”
“Se não importa, o que você quer? Eu saio agora? Compro bolo? Coloco chapéu na cabeça e canto parabéns?”
Balancei a cabeça. Naquele instante, todas as palavras que ainda guardava acabaram. Ele saiu do quarto e bateu a porta do quarto de hóspedes.
No dia seguinte, um s**o plástico pequeno esperava do lado de fora do quarto. Um bolo pequeno de liquidação. Um maço de flores de plástico. O recibo mostrava os preços. Bolo: R$ 79. Flores artificiais: R$ 99.
Marcos saiu já vestido. “Cheguei tarde ontem. Era o que tinha aberto. No ano que vem a gente celebra direito.”
Não esperou resposta. Saiu.
Eu olhei para o bolo. Parecia nosso relacionamento. Barato. Forçado. Sem coração.
Tomei café da manhã. Depois comecei a arrumar as malas. No apartamento de cinco anos, eu tinha apenas uma caixa de coisas minhas. Uma bolsa. Uma mala pela metade. Eu queria comprar canecas iguais, chinelos iguais, plantas para a varanda. Ele disse que era infantil, que não combinava com gente séria construindo carreira. Por isso nunca comprei. Não era nossa casa. Eu era só inquilina na vida dele.
À tarde o motoboy levou minhas coisas para Salvador. Fui ao escritório fazer a clearance. Falei com o RH sobre o post e a tal política de aniversário para estagiárias. Confirmaram: não existia. Iriam investigar.
Quando voltei ao apartamento, eram oito da noite. Abri a porta e ouvi a voz dela. “Chefe Marcos, coloca mais açúcar, tá? Eu gosto bem doce!”
Camila estava na cozinha. Vestindo o meu pijama de seda. Marcos, de avental, cozinhando. Na mesa: pernil, espaguete ao molho doce, milho com manteiga, salada de frutas cremosa. Tudo doce. Tudo favorito dela. Nada que eu gostava.
Camila virou para mim com sorriso largo. “Oi, Letícia! Minha roupa sujou no escritório. O Chefe Marcos me emprestou a sua. Tudo bem, né?”
Olhei para Marcos. Ele não me olhou. “Letícia não gosta de comida doce,” disse ele, mexendo o molho. “Come se quiser.”
Sorri. “Já comi.”
Eles continuaram comendo como se eu fosse visita na minha própria casa.
Ia entrar no quarto quando ouvi Camila rir. “Letícia, onde f**a o travesseiro extra? Aquele que eu usei na sexta-feira… ainda está no armário de vocês?”
A co**ha caiu da mão de Marcos e bateu no piso com força.
Ele me olhou como se só naquele segundo tivesse entendido que eu sabia sair.
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