05/04/2026
O cheiro da carne assada no forno começa a tomar conta da casa. Eu já terminei de esmurrar as batatas. Alho generoso, cebola sem economia, fios de azeite escorrendo como parte do ritual. É curioso lembrar do meu pai aqui. Depois que ele se foi, batatas ao murro viraram uma forma de presença. Ele continua na memória e continua na mesa.
Aqui na cozinha da minha mãe, a Páscoa acontece antes de qualquer explicação histórica. Ela começa no cheiro, no barulho das panelas, na conversa da família atravessando de um cômodo para o outro. A gente passou a quaresma inteira segurando o hábito. Na prática, quarta e sexta sem carne. Um costume repetido com disciplina quase automática. Eu faço isso por respeito. E também porque virou rotina. O ser humano transforma repetição em verdade com uma facilidade impressionante.
Logo mais, estaremos todos reunidos em volta da mesa, prontos para fazer o que gerações antes da gente já faziam: celebrar.
Meus sobrinhos cresceram, já são adultos, mas a memória deles correndo pela casa ainda está muito viva aqui dentro. Teve um tempo em que a gente acordava mais cedo só para deixar pegadas de coelho pela casa e esconder ovos, primeiro os simples, depois os de chocolate. Eles saíam em busca desses tesouros com uma dedicação que faria qualquer explorador se sentir amador. Pequenos arqueólogos do açúcar, guiados por pistas improvisadas e pela expectativa do prêmio.
Antes deles, fui eu. Minhas irmãs organizaram esse mesmo teatro comigo. A tradição se repete com pequenas adaptações, mantendo a essência intacta. Os ovos aparecem como recompensas cuidadosamente escondidas e a história começa ali, no chocolate. Esse é o primeiro contato, a primeira camada. Toda tradição precisa de uma porta de entrada.
Enquanto escrevo, o cheiro da carne chega no ponto certo e as batatas absorvem tudo que importa. E é impossível não perceber: essa cena é antiga. Muito mais antiga do que a gente costuma imaginar.
E é daqui que a gente volta no tempo.
Muito antes de qualquer calendário cristão, lá por volta de 2.000 a.C. ou até antes, povos do Hemisfério Norte já marcavam essa época do ano como um momento de celebração. O inverno perdia força, os dias se alongavam, a terra voltava a responder. A vida reaparecia com insistência. Eles celebravam fertilidade, abundância, continuidade. O coelho já circulava como um símbolo poderoso dessa lógica natural. Um animal associado à terra, à reprodução acelerada, à ideia de vida que se multiplica com facilidade. Ele representava exatamente o que a primavera trazia: renovação em escala generosa.
Os ovos também já estavam presentes nesse cenário. Eles carregavam um significado direto: vida em potencial. Um símbolo simples e eficiente da continuidade da existência.
Por volta do século XIII a.C., com o povo hebreu, essa mesma época ganha uma narrativa histórica. Surge a Pessach, a passagem. A celebração registra a libertação da escravidão no Egito, tradicionalmente associada ao período de Moisés. A travessia do Mar Vermelho entra como um dos grandes símbolos dessa memória coletiva. O pão sem fermento guarda a pressa da fuga. As ervas amargas preservam o gosto do sofrimento vivido. A celebração vira lembrança ativa, transmitida de geração em geração.
Já no século I d.C., o cristianismo reorganiza esse mesmo eixo de significado. A ideia de passagem se expande e alcança uma dimensão espiritual. A narrativa passa a girar em torno da morte e da ressurreição de Jesus, eventos situados historicamente entre os anos 30 e 33 d.C. O cordeiro permanece como símbolo, agora com um novo sentido. A tradição ganha força e começa a se estruturar dentro das primeiras comunidades cristãs.
E esse “organizar” tem um momento bem específico.
No século IV, no ano 325 d.C., durante o Concílio de Niceia, a Igreja decidiu padronizar a celebração. A Páscoa passaria a ser comemorada no primeiro domingo após a primeira lua cheia da primavera no Hemisfério Norte. Uma escolha que mistura observação da natureza com decisão institucional. O céu e a doutrina sentando na mesma mesa.
Séculos depois, durante a Idade Média, entre os séculos V e XV, a Igreja Católica incorpora costumes populares que já existiam e atribui novos significados a eles. O ovo ganha uma leitura especialmente interessante. Durante a quaresma, o consumo de ovos era evitado, então eles eram guardados, cozidos e muitas vezes esvaziados para conservação e decoração. Quando a Páscoa chegava, esses ovos voltavam à mesa como presente. Com o tempo, esse gesto passa a carregar um simbolismo cristão muito específico: o ovo fechado representa o túmulo, e o interior vazio representa o fato central da fé cristã, o túmulo sem corpo. Vida que venceu a morte.
O coelho segue presente, agora atravessando de um sistema simbólico para outro. Ele continua sendo fertilidade, continuidade, abundância. Um animal que nasce da terra e anuncia ciclos novos. Dentro da Páscoa cristã, ele se mantém como um mensageiro indireto dessa mesma ideia: vida que insiste em aparecer.
Já no século XIX, com o avanço da confeitaria na Europa, especialmente na França e na Alemanha, surge uma novidade que muda tudo: o chocolate entra em cena. Primeiro, ovos de galinha são esvaziados e preenchidos com chocolate. Depois, surgem os ovos totalmente feitos de cacau. A tradição ganha uma nova camada. E essa camada se espalha com uma velocidade impressionante, porque poucas coisas competem com chocolate bem feito.
E aqui estamos nós.
Uma mesa sendo preparada, uma família reunida, memórias que atravessam gerações, crianças que cresceram carregando histórias que começaram muito antes delas. A gente mistura comida, afeto, costume, símbolo e história em um único momento.
A Páscoa sempre carregou essa ideia de passagem.
Passagem da escassez para a abundância.
Passagem da opressão para a liberdade.
Passagem da morte para a vida.
Passagem do passado para aquilo que a gente escolhe manter presente.
E no meio de tudo isso, entre o cheiro da carne, o sabor das batatas e as lembranças que insistem em permanecer, a gente continua fazendo a mesma coisa que aqueles povos antigos já faziam.
Feliz Páscoa pra ti 🥰🐇💐