20/07/2026
CARPEGIANI: O CÉREBRO DO MEIO-CAMPO QUE FEZ HISTÓRIA NO INTERNACIONAL, FLAMENGO E SELEÇÃO
Elegante, inteligente e dono de uma visão de jogo privilegiada, Paulo César Carpegiani foi um dos maiores meio-campistas do futebol brasileiro nas décadas de 1970 e 1980. Maestro de equipes históricas, destacou-se pela qualidade nos passes, liderança e capacidade de ditar o ritmo das partidas, tornando-se o coração da "geração de ouro" do Internacional e, mais tarde, campeão mundial comandando o Flamengo. Historiadores esportivos frequentemente o citam como um dos primeiros "volantes modernos" do Brasil, pois, enquanto a função na época era restrita a apenas destruir jogadas, Carpegiani jogava de cabeça erguida, sendo o principal responsável por iniciar os ataques.
Essa facilidade para driblar e o controle de bola em espaços curtos, características incomuns para jogadores de marcação, explicam-se por sua origem nos gramados. Nascido em 7 de fevereiro de 1949, em Erechim, Rio Grande do Sul, ele começou a jogar nas categorias de base do Internacional atuando como ponta-esquerda.
Promovido ao elenco profissional no fim da década de 1960 já recuado para o meio-campo, rapidamente chamou atenção pela técnica refinada e inteligência tática. Sob sua batuta, o Colorado viveu um de seus períodos mais dominantes. Carpegiani foi a engrenagem criativa do time nas conquistas do bicampeonato do Campeonato Brasileiro em 1975 e 1976, além de levantar uma sequência impressionante de títulos estaduais.
O excelente desempenho no Sul não demorou a levá-lo à Seleção Brasileira, onde atuou em cerca de 30 partidas ao longo da carreira. Seu estilo cerebral e organizador fez com que fosse o homem de confiança de Mário Zagallo para a Copa do Mundo de 1974, na Alemanha Ocidental. Ele atuou como titular absoluto na campanha que levou o Brasil à quarta colocação, destacando-se em um cenário global como um dos raros jogadores capazes de aliar forte marcação a uma saída de bola impecável.
Em 1977, sua trajetória ganhou novos contornos ao se transferir para o Flamengo. No Rio de Janeiro, venceu os Campeonatos Cariocas de 1978 e 1979, exercendo um papel fundamental na transição e no amadurecimento daquela que viria a ser a geração mais gloriosa do Rubro-Negro, jogando lado a lado com Zico, Júnior e Andrade. No entanto, foi em 1981 que sua história sofreu uma virada dramática e espetacular. Forçado a encerrar a carreira precocemente aos 32 anos devido a uma grave e persistente lesão no joelho, ele pendurou as chuteiras para, logo em seguida, protagonizar uma das transições mais raras do futebol: assumir o comando técnico da própria equipe.
Quando a diretoria apostou no recém-aposentado Carpegiani, ele passou a dar ordens diretas aos mesmos craques com os quais dividia o vestiário poucos meses antes. O impacto dessa mudança de patamar foi imediato. Em seu primeiro ano como treinador, conduziu seus ex-companheiros às históricas conquistas da Copa Libertadores da América e do Mundial Interclubes, derrotando o Liverpool por 3 a 0 no Japão. No ano seguinte, em 1982, coroou o trabalho faturando também o Campeonato Brasileiro.
A consagração meteórica na Gávea abriu as portas para uma carreira de décadas no banco de reservas. Carpegiani comandou gigantes como São Paulo, Corinthians, Palmeiras, Cruzeiro, além de retornar ao Inter e ao Flamengo. No cenário internacional, marcou época ao dirigir o Cerro Porteño e a Seleção do Paraguai. Comandando os paraguaios, aliás, protagonizou um momento memorável na Copa do Mundo de 1998: montou um sistema defensivo lendário que levou a França, dona da casa e futura campeã, ao limite nas oitavas de final, caindo apenas na prorrogação com um amargo "Gol de Ouro".
Reconhecido pela classe dentro e fora das quatro linhas, Paulo César Carpegiani é um dos raros profissionais a atingir o topo do esporte tanto com a bola nos pés quanto com a prancheta nas mãos, deixando um legado tático e técnico irretocável no futebol sul-americano.