12/03/2020
Mascates e foliões, 485, 483.
Luiz Otavio Cavalcanti
Olinda e Recife, Recife e Olinda. Geminadas. Justapostas. Misturadas. Fraternas.
Mas cada uma no seu perfil, sua história, sua memória. Uma fiadora da outra. No tempo. Nas cores.
Nos fazeres de uma cultura tríbia. Branca, negra, índia.
Olinda era uma arquitetura de açúcar. Que se transformou em alegorias nada triviais, de vivos carnavais. Uma elite de produtores que fundou um modo de viver, comer, beber, refinado na mesa, popularizado na rua. Reinado da lua.
Olinda foi sede e singularizou-se matriz. De artistas, pintores, compositores, escultores de nuvens, cantadores de emboladas, contadores de causos. Tapioqueiras.
Olinda é abrigo e fábrica de sonhos. É lá que o frevo acorda. E sacode o folião. Homem da Meia noite, Pitombeiras, Elefante.
Já Recife é mercado, mercadoria, mascataria. Mascates que se assinaram revoltosos, revolucionários, republicanos. Mascates de ideias, de compromissos, de cartas ao futuro. E se transmudaram em mascates tecnológicos.
Recife é um grito de dor. É chama, lama, cama, armada no rio, como desvio, remando na correnteza, navegando na incerteza, molhado no suor da informalidade, no arremate da dignidade.
Ainda assim, Recife é um poema de amor. De Bandeira, ao seu avô na rua da União. De Cabral, faca amolada cortando laranjas em Sevilha. De Cardozo, amansando o massapê para cobrir o sono dos humildes. De Carlos Pena, para pintar de azul o horizonte dos intimidados.
Olinda olha o Recife. E Recife zela por Olinda. Foi um pernambucano do Recife que levou a Veneza a defesa que deu a Olinda o título de patrimônio cultural da humanidade.