26/10/2022
Acho que quem mora fora do Rio não sabe quem é Susana Naspolini, né?
Ela foi embora dessa terra hoje e acho que muita gente não conheceu essa coisa rica.
Vou dar a versão oficial de quem ela era pra maioria de nós cariocas: Susana Naspolini era uma repórter muito competente que sempre estava em pautas muito populares de reinvindicações de melhorias para os bairros cariocas, principalmente os bairros mais pobres e em situações mais precárias. Ela sempre estava nas ruas, praças, largos, avenidas e etcs ouvindo o povo, cobrando as autoridades, mostrando as mazelas da cidade. E depois voltava a esses lugares e mostrava se as autoridades tinham feito alguma coisa, mostrava as melhorias... ou dizia que nada tinha mudado e cobrava mais uma vez.
Mas como ela fazia isso? Com muito humor, com muita alegria, com muito riso, com muita leveza e cuidado, comendo bolo, brincando de carrinho de mão na lama, andando de barco nas enchentes, levantando a auto estima do povo, sendo carregada no colo pelos moradores, comendo com as donas de casa, correndo com a criançada, rindo com nossos Biras e Néias...
Ela era uma mistura de labrador, com fada, com borboletinha foi pra cozinha fazer um chocolate para a madrinha, com cachorro caramelo, com erê, com tia Carminha do prézinho, com fiscal de corredores das lojas americanas, com arraia, com festa de aniversário no quintal, com prima mais velha que vende chapeado, com professora de jazz de Quintino, com vendedora de Avon, com tia doida que mora em Niterói e vem mas festas de Madureira e samba fora do ritmo...
Susana no velocípede, gente! Já viram? A glória!
Alegre.
Humana.
Muito competente e dona de uma credibilidade à toda prova. Com todas as suas peculiaridades e solarismos ela era alguém confiável e a quem levávamos muito a sério.
A gente ouvia o "E vamos ao RJ MÓVEL COM ELA, COM ELA QUEM? COM A NOSSA SUSANA NASPOLINI, TÁ POR ONDE SUSANA?" e sabia que era babado, confusão, dedo no olho e unha encravada mordida por preá surda.
Uma vez passei por ela em um shopping do Rio. Ela estava vendo umas roupas na vitrine e atendeu ao pedido de uma fã para que tirasse uma foto. Ela comentou que nem sabia que tinha fã e fez várias poses sorrindo. Parecia uma daquelas florzinhas risonhas e dançarinas dos desenhos antigos. Quis ir lá dizer que na minha casa éramos todos Naspolinetes. Mas fiquei tímido. Que bobo eu fui...
Pra mim, é como se aqueles sóis sorridentes dos livros infantis perdessem o sorriso. Sinto assim. Ela era muito nossa. Como se a partitura do subúrbio carioca perdesse uma nota muito clara e rejubilante, divertidamente desafinada, mas muito cantante.
Ela estava sofrendo.Há muito tempo.
Que esteja em um lugar onde não lhe falte o reconhecimento que merece e o afeto que sempre inspirou.
Era uma amiga nossa, sabe? Uma amiga bem legal. Ai gente, eu achava ela muito legal. Muito mesmo. Quando ela sumia do ar eu sabia que ela estava dodói. Eu torcia. Com força. Tô muito triste pra caramba. Muito mesmo. Poxa...