25/10/2020
BONITINHA, MAS ORDINÁRIA
Por Wendell Setubal
ESTE é o título de uma peça teatral de Nelson Rodrigues, que conta a história de um personagem apaixonado por sua namorada, mas que acaba casando com a filha do patrão, que sofreu um estupro coletivo e não é mais virgem. Além disso, o patrão lhe dá, como recompensa, muito dinheiro. Mas não vou falar de teatro. A bonitinha a que me refiro é a cidade onde nasci, o Rio de Janeiro.
AS PRAIAS, as montanhas, o Aterro do Flamengo, o sol, o Maracanã, a festa de Ano-Novo, a lista é infindável. Ela é bonitinha, mas ordinária: 40% dos seus bairros são controlados pelas milícias, que cobram taxa de proteção, vendem botijão de gás, alugam TV por assinatura, ligada de forma clandestina, e ainda se dedicam à atividade política em favor da extrema-direita. Na área que controlam, só entram panfletos de seus candidatos.
O RIO de Janeiro já teve a classe média mais “do contra” do país. Em 1966, com dois candidatos ao Senado ditos de oposição, o MDB na verdade não tinha nenhum. Benjamin Farah era ligado a Chagas Freitas, dono de dois jornais de grande vendagem, O Dia e A Notícia, mas ligado à ditadura militar. Farah era mais situacionista que Venâncio Igrejas, candidato pela Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido que apoiava a ditadura. O outro candidato da oposição era contra a ditadura, mas moderadíssimo, o jornalista Danton Jobim.
FALTAVAM 15 dias para a eleição e o PCB convenceu Mário Martins a se candidatar. Em 15 dias, ganhou.
(O filho de Mário Martins, Franklin, foi um dos organizadores do sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, que, em troca da libertação do embaixador, exigia liberdade para dezenas de presos políticos e um avião para levá-los ao exterior. Franklin Martins foi assessor de imprensa do governo Lula.)
EM 1962, vindo de Porto Alegre, Brizola se candidatou no Rio a dep**ado federal. Mais de 200 mil votos o elegeram. Em 1984, 1 milhão de pessoas no Comício das Diretas Já! Em 1989, 1 milhão no último comício de Lula.
COMO chegamos à atual situação? A extrema-direita se elegendo com apoio das milícias, e os últimos governadores e candidatos a prefeito presos ou enfrentando processos (Garotinho, Sérgio Cabral, Pezão; Eduardo Paes, Marcelo Crivella e Benedita da Silva).
DEPOIS da redemocratização de 1946, pela influência de Getulio Vargas, o PTB sempre foi forte no Rio, era o partido dos pobres. Sua política era um populismo de esquerda.
HÁ POPULISMO na Rússia, também na Argentina. E aqui no Brasil, o que foi este populismo? Com o deslocamento da população rural, fugindo da seca para as grandes cidades, milhares de pessoas foram incorporadas ao processo político. Lembremos que até 1932 as mulheres não exerciam o direito ao voto; os analfabetos só passaram a votar a partir de 1988, depois da Constituinte. No Rio, o populismo de esquerda e progressista de Brizola, herdado do PTB getulista, decaiu, chegando ao populismo evangélico de Garotinho.
A DESINDUSTRIALIZAÇÃO do Rio foi profunda e a crise da Petrobras, maior compradora de navios, fulminou o setor naval, aumentando o desemprego. Por ter vocação turística, devido às belezas naturais, cresceu a indústria hoteleira, predominando, na economia carioca, o setor de serviços. É uma das cidades mais caras do mundo e com alto índice de trabalhadores na informalidade, com parte dos jovens nos bairros periféricos chamados de Juventude Nem/Nem, nem estuda nem trabalha.
SE FOI sempre difícil para as forças progressistas a organização popular, agora há outro complicador: lideranças de comunidades e pastores evangélicos veem como saída o empreendedorismo, que por aqui significa a uberização e a pejotização, disfarçando precárias relações de trabalho em supostas relações entre iguais. É o que acontece com os motoristas de aplicativos, entregadores por delivery e os serviços prestados por PJs e MEIs às grandes empresas, e são elas que determinam os preços.
POR fim, no início dos anos 1980, foi malsucedida a pretensão do Comando Vermelho de fazer um trabalho político nas favelas. As antigas lideranças, criadoras do CV, que se conheceram no presídio da Ilha Grande, foram presas ou assassinadas, e as novas lideranças, despolitizadas, optaram por entrar no comércio de co***na.
QUANTO às milícias, têm um padrinho poderoso, a família Bolsonaro.
SÓ a ação humana pode destruir as belezas naturais do Rio de Janeiro.
SÓ a ação direta da classe trabalhadora pode destruir o lado sórdido da cidade, o lado ordinário do domínio miliciano. Voltar às ruas que ainda não são dominadas pelo fascismo miliciano é o primeiro passo. Uma vacina contra a inércia.
Foto: Reprodução/Internet