02/09/2026
Carta para minha irmã
[voz baixa, suave]
Existem dores que habitam o nosso ser...
que se fazem permanentes...
que acordam com a gente...
passam o dia inteiro ao nosso lado...
dormem com a gente...
sentam à mesa.
Ela não nos abandona.
Tamanha dor é essa...
que é tão grande...
que é muito difícil explicar.
Dor não se explica.
A dor... a gente somente sente.
Ela habita.
Ela coabita.
Ela toma conta do seu ser.
Quando você perde alguém,
você tem certeza que nunca vai substituir esse alguém.
O que você pode ter são recordações...
e recordações não te preenchem.
Dói.
Dói a alma.
É uma dor tão grande...
que você sente falta...
e que você sente vontade de não ser mais.
Porque tudo que você era...
na verdade, você era...
Porque você queria ser igual àquela pessoa.
Por admiração.
Por respeito.
Por criação.
Quem está de fora não consegue compreender
o quão dói...
o quão é sofrido esse sofrimento...
o quão é dolorida essa dor.
Por mais que você tenha consciência
de que aquele momento seria necessário
para que aquela pessoa não sofresse mais...
Porque você também sofreria tanto quanto ela.
Mas, na verdade...
você não se perdoa
de ter vivido mais tempo ao seu lado,
de ter feito dias dela mais felizes.
[pausa longa]
E explicando para ela que aqui está tudo bem...
e que eu estou aqui...
E que tudo...
tudo...
tudo...
tudo que eu puder fazer...
Eu vou fazer pela família dela.
Pela família que eu tanto amo.
Que em tantos momentos difíceis da minha vida
eu precisei...
e tive seu acolhimento.
Ela participou da educação dos meus filhos,
que certamente são o que são
porque têm dentro deles...
um pouquinho dela.
E eu quero fazer parte da família dela.
Cuidar.
Cuidar de cada um...
com carinho...
com amor...
com dedicação.
Dedicação total.
Como ela muitas vezes fez por mim.
Quantas vezes, minha irmã,
eu fiquei sob seus cuidados.
Quando a mamãe adoecia
e precisava ser internada...
Era você quem cuidava de mim.
E hoje, minha irmã...
[pausa]
Quem vai cuidar?
Quem vai ouvir as minhas lamúrias?
Que engano...
engano daquele que pensa
que eu sou totalmente feliz.
Não.
Mas você me escutava.
E quantos conselhos eu ouvia...
[pa