29/05/2026
Muitas vezes, a chuva traz perguntas, não apenas água. 🌧️ Eu estava ali, debaixo do toldo vermelho que me protegia do aguaceiro que esvaziou o parquinho. Meus olhos azuis, dizem, são da cor do céu límpido, mas hoje eles refletiam o cinza das nuvens e, no fundo, uma inquietação que eu não conseguia tirar da cabeça. Eu olhei para o brinquedo colorido, para os balanços vazios, e para o escorregador que sempre pareceu uma montanha intransponível de uma perspectiva, mas uma aventura incrível de outra. Eu sou essa outra perspectiva.
Sabe, eu passei a maior parte da minha vida ouvindo que eu sou "especial", "corajoso", um "exemplo de superação". E tudo bem. Eu sei que as pessoas têm boas intenções. Mas, às vezes, essas palavras soam como um co***lo para algo que eles acham que eu perdi. Mas eu não perdi nada que eu precisasse. Eu nasci assim, e para mim, o mundo é desse jeito. Minha cadeira de rodas é o meu foguete espacial, e minhas ausências de mãos são apenas o jeito que a natureza resolveu moldar minha singularidade. Mas hoje, uma coleguinha, com a inocência cruel que só as crianças têm, me olhou e disse: "Você é tão diferente. É verdade que você também é lindo?".
Aquilo me pegou. Não com raiva, mas com uma dúvida genuína. Eu corri para o espelho antes de sair para o parquinho. Eu vi o menino na cadeira. Eu vi a camisa vermelha com o tigre feroz, que eu adoro porque ele me faz sentir poderoso. Eu vi meus olhos azuis, os mesmos que a minha mãe diz serem as janelas da alma. Mas o que mais eu via? Eu via as marcas do meu corpo. A falta dos braços abaixo do cotovelo, os "toco", como eu às vezes os chamo em brincadeiras. Eu vi a cadeira de rodas, a "Ferrari preta" que me leva a todos os lugares.
Então, ali no parquinho, com a chuva caindo no toldo, eu pensei: "Será que eu também sou lindo?". Não de uma forma "ele é tão fofo", ou "ele é tão guerreiro". Não. Lindo de verdade. Com a minha força, com o meu sorriso que, confesso, é raro mas é verdadeiro. Com o meu jeito diferente de segurar as coisas com a boca ou com a ajuda de outras pessoas. Eu olhei para o parquinho vazio e pensei: "Lindo é ser você mesmo, sem desculpas