16/08/2022
Você já refletiu alguma vez sobre o fato de que, apesar dos horrores da guerra, ela é uma grande coisa? Estou querendo dizer que nela a gente se defronta com realidades. As loucuras, o egoísmo, o luxo e a mesquinhez em geral do tipo de existência vil e comercial, praticado por 9/10 das pessoas no mundo em tempos de paz, são substituídos na guerra por uma selvageria que ao menos é mais honesta e explícita. Veja a coisa assim: em tempos de paz cada um vive a própria vidinha, envolvido em trivialidades, preocupando-se com o próprio conforto, com questões de dinheiro, e com todo esse tipo de coisa – vivendo apenas para si mesmo. Como é sórdida essa vida! Na guerra, por outro lado, mesmo se você for morto, só estará antecipando o inevitável em alguns anos, de qualquer maneira, e terá a satisfação de saber que levou a pior na tentativa de ajudar seu país. Você, na verdade, realizou um ideal, o que, até onde eu sei, fazemos muito raramente na vida normal. O motivo para isso é que na vida normal a vida se desenrola numa base comercial e egoísta: se você quiser “se dar bem”, como se diz, vai ter de sujar as mãos.
Pessoalmente, eu com frequência me regozijo de que a guerra tenha surgido em meu caminho. Ele fez com que eu me desse conta de como a vida é mesquinha. Creio que a guerra deu a cada um a oportunidade de “sair de si mesmo”, como eu poderia dizer... Certamente, falando por mim, posso dizer que nunca em toda a minha vida eu havia experimentado uma alegria tão desenfreada, como se fosse o início de uma grande arrancada, como a de abril última, por exemplo. A excitação durante a última meia hora, se tanto, que a antecede não se compara a nada na Terra.
Tenente britânico Henry Jones, 3 dias antes de sua morte na 1ª Guerra Mundial.
Trecho do livro Homo Deus, uma breve história do amanhã – Yuval Noah Harari.