14/01/2015
Alguns poemas de Carlos Aguasaco (Bogotá, 1975), do livro "Poemas del metro de Nueva York (El Quirófano Ediciones, Guayaquil, 2014). Aguasaco além de poeta é editor e professor de Estudos Culturais Latino-americanos e Espanhol no Departamento de Estudos Interdisciplinares em The City College of The City University of New York. (traduções Paulo Ferraz)
SOBRE O BOM SENTIDO
A partir de uma tela de Cesar Vallejo
Preciso te dizer, mãe,
Que existe um lugar no mundo ao qual todos chamam de Nova Iorque
Um lugar alto e distante e ainda mais alto
Mais alto que a igreja em Montserrat e umas pombas sonâmbulas
Mais alto e distante que o vulcão no qual nossa espécie foi extinta
e suas cinzas azuis queimando nossas faces mestiças
Mais distante que eu próprio quando fui a Paris visitar Vallejo
Mais alto que Vallejo que agora valleja ao rés do chão
Alto e distante como eu, visto por baixo
Quando pulo pelado para nadar no Hudson
e encontro imigrantes tentando alcançar a costa
Seus corpos sem vida me chamam do fundo
E eu falo para eles de ti, mãe
da borboleta que saiu de teu ventre
do dia em que sonhaste que eu era um anão
Mãe, este lugar no mundo ao qual todos chamam de Nova Iorque
Não é Paris, mas tem uma senhora francesa que sorri para a Europa
Do outro lado minha mãe me deseja primaveras
E aqui florescem as margaridas de plástico
e sorriem as garotas de tetas de borracha
Mãe, não me ajustes o colarinho
para que comece a nevar,
senão para que pare de nevar
Me deixa vagar por esta ilha soberba
entre as luzes do Show Business
Embriagar-me sozinho com tua ausência
aí começa a viver cansada de mim
Ausente de mim, vazia de mim, surda de mim, cega de mim, muda de mim, insone de mim
Debaixo desta muralha de sombras
jaz um Titanic de granito
e um garoto que chora nos trens subterrâneos
A mãe de outro homem o acorda
e o deita em sua cama
Nós mãe, somos de outro tempo
Nossa pele é couro de tambor
e jamais perderemos o sotaque.
NOVA IORQUE AO RÉS DO CHÃO
A saliva de um homem se transforma em granizo
E cai dos edifícios direto na minha cabeça
Deveria acreditar que é um sinal dos céus?
Queria cuspir de volta e fazê-lo engolir sua miséria
Minhas palavras são um vento frio que corta nas orelhas
É melhor se calar e seguir o caminho em busca de abrigo
Adormecido no ônibus,
sonho com uma palavra convertida em flecha
Uma peça triangular de gelo capaz de cruzar o Atlântico
Uma pomba de vento frio, e de água, que vá até minha casa
Uma imagem translúcida que baixe sobre minha mãe
E a faça saber que estou vivo
E SE QUEM QUE CUSPE FOR UMA GAROTA?
E se quem que cuspe for uma garota?
Não sei, pensaria que lhe pareci atraente
E quer me marcar para me ver passar de seu escritório
Acharia que me espera com um cigarro mentolado
junto à janela de vidro como uma cortina de coração e dentes
uma boca cheia de saliva pronta para me cumprimentar
Uma garganta disposta a me cuspir seus desejos
fantasias solitárias, paixões de alcova, convulsões
Uns pulmões que exalam fogo do ventre
Uma mulher gigante ou uma anã montada em uma poltrona
Uma mulher que sai pela rua à procura de uma cabeça cuspida
A nova-iorquina solitária que me ama das alturas
a dona deste chiclete com cheiro de paixão feminina
NOVA IORQUE
Este mundo é por definição desprezo e arrogância.
Gesto de nojo e o nojo de homens ombro a ombro
Sentados no trem.
Olhar fixo que no ponto médio se cruza sobre ti
E em ti se dissipa num arabesco em forma de turbante.
Este mundo é e não é teu mundo.
A cidade está ali para ser agarrada
A cidade está ali para dilapidar
Para dar desprezo, para ser reflexo do homem e o homem
Para recordar que sempre, não importa onde olhe,
O calor de uma lente te abriga com a discrição obscena
De quem sem te olhar te observa.
Seria preciso matar John Lenon e enfrentar o sarcasmo
De sorrir para a câmera para que ela te denuncie
Nas manchetes da imprensa por dez anos seguidos sem te pagar um centavo.
Rir como um louco e feder a dinheiro
Feder como um louco e rir do dinheiro.
Nova Iorque, não é a mim a quem saúdas
Com tua tocha acesa no atlântico
POEMA DOIS
Para escrever o poema, fazem falta dois
Ninguém escreve a poesia
e ninguém faz falta para que exista
Para que existam estas linhas você faz falta
E minha língua que as traça sobre sua pele
A caneta de saliva que soletra seu nome
na borda de seus lábios
E seus lábios como uma lousa
na qual aprendo a pôr os acentos
Para ler o poema, você faz falta
E seus olhos que o escrevem no ar
Seus olhos re-escritores, criadores de mundos possíveis
E impossíveis
Como esse mundo em que você e eu
somos uma única baleia gigante
Submersa num oceano de luzes, bêbada de amor
Ou quase impossíveis
Como esse mundo no qual caminhamos
pelas ruas de Nova Iorque
E ignoramos o frio do inverno,
as luzes de Times Square e as sirenes de emergência
Ou mundos que foram possíveis
Como esse mundo em que nos amamos
sem um centavo nos bolsos
E cantamos a canção das vogais
com as quais nossos nomes são escritos.
(Para minha esposa)
NOVA IORQUINA
Nova Iorque era um longa metragem em tecnicolor
A bailarina frustrada que faz bico de garçonete no Village
Junto a uma índia peruana que cozinha como os deuses
A Nova iorquina das costas de fora
A mulher de quadris soltos
A clavícula de açúcar
Um anúncio de coca-cola com pernas cumpridas
Alguém que passa depressa, que volta depressa, que vai depressa
Nova Iorque era uns olhares no bar
E um motel nos arredores
Um argumento de Huidobro produzido por David Linch
Cesar Vallejo envenenado com luzes
E mais uma vez, a garçonete que dá um salto ensaiado
A mulher que me serve e me mostra as costas
A jovem atriz que se surpreende ao me ver ler
O poeta entrou no filme por acidente,
Deram a ele um papel secundário pedindo café no balcão
Tinha que acender um cigarro sem filtro
e observar passar a protagonista
brilhar desgarrado em Nova Iorque
ver-se como um tamanduá farejando em meio ao ferro e se calar
Mas o poeta não sabe representar, apenas se representar,
pôr-se sério demais
Passa a vida em bares e não sabe de restaurantes
Nova Iorque era um longa-metragem em tecnicolor
A bailarina sentada com o poeta
E a magníf**a índia peruana que traduz pro espanhol
Tudo o que diz a loira