SEBASTIÃO GRIFO

SEBASTIÃO GRIFO Selo Sebastião Grifos - novos olhos sobre a nova literatura

22/02/2019
Jorge Humberto Chávez (Ciudad Juarez, México, 1959) foi vencedor do Prêmio Aguascalientes de 2013 com o livro "te diria ...
06/11/2015

Jorge Humberto Chávez (Ciudad Juarez, México, 1959) foi vencedor do Prêmio Aguascalientes de 2013 com o livro "te diria que fuéramos al río Bravo a llorar pero debes saber que ya no hay río ni llanto", um desses raros livros que mantém a qualidade dos poemas de sua primeira à última página. Convido-os a ler alguns desses poemas que estão publicados na antologia "Versões acústicas", organizada por Luis Alberto Arellano e publicado pela Mantis Editores.

ANIVERSÁRIO

O mundo é simples quando se tem nove anos a chuva por exemplo sempre vem do poente lavando os pedregulhos da rua

não existe leste: só norte e poente a palavra sol é do poente a palavra rio f**a no norte a palavra molhado1 também no norte

guerra quer dizer Fort Bliss ou Vietnã e a palavra papai signif**a Denver ou um velho Chevrolet esperando por seu proprietário

papai é norte a palavra país era difícil não era poente nem norte país parecia dizer cidade e algumas a usavam melhor como bairro
sob cuidados da montanha Franklin que era norte e os entardeceres e as chuvas poentes apareceu a palavra sul

esse mesmo dia chegou à fronteira a palavra massacre: signif**ava trezentos estudantes baleados pelo governo em uma praça

país então não era a casa era por certo uma estranha província por onde passavam coisas que não podiam ser mencionadas

mãe é como uma grande cesta de pão doce e a palavra país por certo se refere ao fato de que não tenhas pães em tua mesa

não é difícil por isso compreender o que são aos nove anos a palavra massacre a palavra sul a palavra país

______________________

1 Mojado, espalda mojada são termos empregados para designar os imigrantes ilegais nos EUA, onde utilizam we***ck, em referência à travessia do rio Bravo.

*

OUTRA CRÔNICA

Em seis de outubro de seu ano Armando El Choco comentou com a gente em uma festa que o tinham ido procurar

e o encontraram um mês depois numa certa manhã quando aquecia o motor de seu veículo para levar suas filhas para a escola

em 1967 íamos para o rio Bravo lavar os carros do bairro primeiro era o do Chato depois o de Bogar e por último o de Huarache Veloz

em 1990 os policiais iam para o rio Bravo pescar garotas que esperavam na margem para entrar em El Paso
no ano 2010 quase já sem rio um oficial da imigração e Sergio Adrián de treze anos brigaram ele com uma pedra na mão e o agente com um revólver

esse mesmo ano num mercadinho de Salvárcar o empregado se negou a pagar a propina e levou um tiro nas fuças
28 e dezessete vizinhos seus foram caçados um a um enquanto comemoravam a vitória de uma partida de futebol

oh jovens filhos de Cadmo eu sei que queriam estar noutra parte mas hoje estão aqui cantava o velho Ovídio

e a ti mulher que foi arrancada de casa sob a ameaça de matarem teu marido se não subisses para teu derradeiro passeio de carro

te diria que fôssemos até o rio Bravo chorar mas deves saber que já não há nem rio nem choro

*

ESSE HOMEM SENTADO NO BANCO DA PRAÇA
SE CHAMA W. C. WILLIAMS

“Uma vez/ em El Paso/ próximo do anoitecer,
vi (ouvi)/ dez mil pardais.”
W. C. W.

Comprida é a Interestadual 10 e dela pode se ver a luz das cidades abaixo Juarez City acima El Paso Texas

grandes armazéns envidraçados em suas bordas e dois mi-lhões e meio de pessoas sonhando em idiomas diferentes

sonhos de terra e de metais sonhos de meninos em suas bicicletas passeando entre as fábricas sonhos de trens como pontes

em 1911 de El Paso podia se ver homens de Francisco Villa disparando seus fuzis de oeste a leste

para evitar que uma bala perdida atingisse os turistas que assistiam a nossa revolução de seus cômodos terraços

e quinze anos anos depois fomos El Paso del Sur e foi tanto uísque que correu pelas ruas que a bebedeira durou cinquenta anos

mulheres e homens sem esperança alguma encontraram sua pátria e sua verdade na voz e na pélvis de Elvis o Rei

perto do Mississípi uma senhora negra chamada Rosa Parks pegou seu ônibus de costume e mudou para sempre a face da América

no começo dos anos sessenta uma bala saiu de um depósito de livros e ricocheteou em um Lincoln escuro e foi se alojar nos muros de um cinema

então pudemos ver os garotos americanos em sua guerra deixando para trás seus carros conversíveis e suas namoradas

outros escalavam os degraus do ar e desembarcavam na lua com seus grandes e brancos sapatos
mas agora que me servem uma segunda taça neste bar de Mesa Street acho que nada disso foi importante

a não ser aquele anoitecer no qual viste e ouviste a dez mil pardais chegarem do deserto a esta mesma praça e disseste as palavras que te fazem memorável:
este fui eu
Williams Carlos Williams
fiz o que pude
adeus

*

CRÔNICA DE PÉRE LACHAISE
OU O PASSEIO DOS MORTOS

Ei caríssimo senhor Guillaume Apollinaire agora sim me toquei que nós também travamos uma guerra no fronte norte

contra o duro coração delas contra o poder escuro do dinheiro contra as usuras do espírito

por isso fui te procurar naquela tarde em Paris e por isso antes de chegar ao cemitério comprei uma garrafa de vinho e um saca-rolhas em uma ta*****ia

ao entrar de cara escutei uma voz entre os túmulos a voz inconfundível de Juanjo Rodríguez que devia estar em Mazatlán
se tratava de um guia de turistas espanholas era o mesmo Juanjo fazendo-se passar de guia de umas moças espanholas

depois da surpresa e de nos cumprimentar me juntei ao grupo e Juanjo me levou ao túmulo de Jim o Lagarto e lhe disse

que tudo bem mas que eu precisava chegar até tua lápide porque havia te prometido um vinho fazia trinta anos

oh velho professor vi tantas coisas com teus olhos amei tanto com tuas palavras e agora caminhava entre o rebanho das pontes

com vinho nos bolsos de meu sobretudo vinho exclusiva-mente para ti um vinho como una moeda reluzente

Marcial outro companheiro de livros do México também estava por ali e deixamos as garotas para ir ao teu encontro velho Apollinaire

duas horas lendo nomes de túmulos tão comuns como os de Augusto Comte Isadora Duncan e Colette
e de repente nos mármores estavas GUILLAUME APOLLINAIRE DE KOSTROWITZKY 26 AOUT 1880 - 9 9BRE 1918 / JAQUELINE APOLLINAIRE 1891-1967

ardia o sol nos campos longínquos e nunca tinha estado tão perto da grandeza como nessa tarde perto de ti

abri uma garrafa de vinho mal o provei e virei o primeiro gole onde deveria estar tua cabeça e disse
me chamo Jorge e creio que te devo alguns amores e te devo a poesia e venho do México para brindar contigo

contigo brindo por teus pés e derramei o vinho contigo brindo por tua mão direita e derramei vinho e contigo brindo por tua mão esquerda

e brindo por Jacqueline a Linda Ruiva e deixei cair sobre o túmulo o resto do álcool e Marcial exclamou Jorge Jorge me deixa um restinho

não senhor lhe respondi esta garrafa era para Guilherme Apollinaire mas não te preocupes porque há dois bolsos em meu sobretudo

e abri a segunda garrafa e no gargalo começamos a beber os três e o mundo se aproximava de seu apogeu

na volta me recusei a oferecer vinho a Alfred de Musset a Sara Bernhardt e a um tipo farsante chamado Allan Kardec

mas não a Federico Chopin a quem lhe lancei um trago oh torre Eiffel pastora o rebanho das pontes bale esta manhã

tenha pena de nós que combatemos sempre nas fronteiras do ilimitado e do porvir

Miguel Maldonado nasceu em Puebla em 1976 onde hoje dirige o Colégio de Puebla e edita a revista UNIdiversidad. Seguem a...
19/06/2015

Miguel Maldonado nasceu em Puebla em 1976 onde hoje dirige o Colégio de Puebla e edita a revista UNIdiversidad. Seguem alguns poemas traduzidos por mim para a antologia Versões Acústicas, organizada por Luis Alberto Arellano para a Mantis Editores.

O FLANELINHA
Sabe que seu oficio
é desnecessário
Os jornais não anunciam
“Precisa-se de flanelinhas”
nem existe carreira de gerente
nas vagas de carros da rua
Volta pra casa
sem salvar nada como o vigilante das nuvens
e o defensor
do arco-íris
como se fosse
o grande guardião da poça

[EL CUIDACOCHES CALLEJERO
Sabe que su oficio
es innecesario
Los diarios no anuncian
“Se solicita cuidacoches”
ni hay ascensos a gerente
en el estacionamiento de la calle
Se va a casa
sin salvar nada como el vigilante de las nubes
y el defensor
del arcoíris como si fuese
el gran guardián del charco]

O CORCUNDA
Quase sempre a corcunda
é acompanhada de uma perna coxa
e pela cabeça de ninguém passou
um belo corcunda
de nome Serafim

Podemos ver casais de anões
mas não de corcundas
Por onde andam os corcundas?

Hoje que está na moda
valorizar a diversidade
não tenho visto cadeiras
com encostos especiais
nem suéteres
sobrando
nas costas

Os corcundas não se juntam
e jogam basquete
continuam assim
fugidios
nos trabalhos de corredor

[EL JOROBADO
Casi siempre a la joroba
la acompaña una cojera
y a nadie le ha pasado por la mente
un hermoso jorobado
de nombre Serafín

Podemos ver parejas de enanos
pero no de jorobados
¿Dónde andan los jorobados?

Hoy que están de moda
las capacidades diferentes
no he visto asientos
con respaldos especiales
ni suéteres
sobrados
en el dorso

Los jorobados no se juntan
y juegan baloncesto
siguen así
huidizos
en labores de pasillo]

O BRAÇO

Na terceira esticada
alcança a lâmpada
Na quarta
o teto
Seu verdadeiro alcance
é um mistério

Até onde
se pode esticar um braço?

[El Brazo
En el tercer estirón
alcanza el foco
En el cuarto
el techo
Su verdadero alcance
es un misterio

¿Cuánto más
se puede estirar un brazo?

A MÃO
Tem uma região nas costas
que não alcança
um instante em que não pode mais
continuar com os dedos
enroscando o parafuso
numa ranhura onde não entra mais

Mas ali continua
em coisas comuns
ainda que não mais a usem
como pente
nem máquina
para fazer picolés

[LA MANO
Hay una región en la espalda
que no alcanza
un momento en que ya no puede
seguir con los dedos
enroscando el tornillo
una ranura donde ya no entra

Pero allí sigue
en cosas comunes
aunque no la usen
como peine
ni máquina
para helados]

A ESCADA DE MÃO
Ninguém confia
nas borrachas
das pernas
de uma escada
e pede
que alguém
a segure

Aqueles que seguram a
escadas
sabem que de cima
se apreciará melhor sua careca
se saberá
até onde circula
quem foge do crime

Aqueles que seguram a escada
desconhecem
quase tudo
e vão tranquilos
no nível do mar

[LA ESCALERA DE MANO
Nadie confía
en las gomas
de las patas
de una escalera
y solicita
que alguien
la sostenga

Los detenedores
de escaleras
saben que desde arriba
se apreciará mejor su calva
se sabrá
hacia dónde da la vuelta
quien huye del crimen

Los detenedores de escalera
lo desconocen
casi todo
y van tranquilos
a nivel del mar]

O VENDEDOR DE BALÕES
Aqueles que crescem
na casa do vendedor de balões
cheiram sempre a gás butano
Sabem quantos balões
levam pelo ar uma lapiseira

São proibidos de
jogar perto dos tanques
e têm os pulmões sãos
de tanto andar inflando

Não tem um quarto para balões
estão espalhados pela casa
O fio que lhes ata
se enrosca nos brincos
se enreda nas bochechas
emporcalham os cozidos

Os balões
não cabem num carro
o vendedor de balões
os conduz caminhando
Também como a gente
já desejou que os balões
o conduzam voando

EL GLOBERO
Quienes crecen
en la casa del globero
huelen siempre a gas butano
Saben cuántos globos
hacen volar un lapicero

Se les prohíbe
jugar cerca de los tanques
y tienen los pulmones sanos
de tanto andar inflando

No hay un cuarto para globos
están regados por la casa
El hilo que les cuelga
se atora en los aretes
se enreda en las manijas
encochina los guisados

Los globos
no caben en un auto
el globero
se los lleva caminando
También como nosotros
ha soñado que los globos
lo lleven volando]

O D***X (FIA ADESIVA
Não tem a ef**ácia da cola branca
e deixa cair
de novo
o olho do boneco
Seus restauros
de curto prazo
são uma forma sincera de nos lembrar
como as cicatrizes
de Frankenstein
que as coisas
nunca serão
como antes

[EL DIUREX (CINtA ADHESIvA)
No tiene la ef**acia del pegamento blanco y se bota
de nuevo
el ojo del muñeco
Sus arreglos
de corto plazo
son una forma sincera de recordarnos
como las cicatrices
de Frankenstein
que las cosas
no serán nunca
como antes]

O AVIÃO
Mesmo que tenha algo
de parque de diversões
e atraia como uma gangorra ainda não se comparam às férias os passeios em avião
Os que sobem
para dar uma volta
não veem os acenos
que feitos lá debaixo
não veem o avião de papel moeda
que não alcança a outra margem
Não sabem que na terra temos graves problemas com os temas
de curto alcance

[EL AVIÓN
Aunque tiene algo
de juego mecánico
y atrae como un columpio aún no llegan a las ferias los paseos en avión
Quienes se suben
a dar una vuelta
no ven los saludos
que les mandan desde abajo no ven el avión de papel moneda
que no alcanza la otra orilla
No saben que en la tierra tenemos serios problemas con los asuntos
de corto alcance]

A CAMISETA
Aos que vieram depois lhes resta a roupa do irmão Não lhes importa
o buraco na camiseta
Assim vão se tornando práticos
Compram barato
os televisores
do mostruário das vitrines
Reagem diferentemente se pelo bolso furado caiu a carteira

[LA PLAYERA
A los segundos en turno
les toca la ropa del hermano No les importa
el hoyo en la playera
Y se van volviendo prácticos Compran barato los televisores
que se usan de muestra
Reaccionan distinto
si por la bolsa descosida se ha salido la cartera]

19/01/2015
Juan José Macías
19/01/2015

Juan José Macías

Alguns poemas de Carlos Aguasaco (Bogotá, 1975), do livro "Poemas del metro de Nueva York (El Quirófano Ediciones, Guaya...
14/01/2015

Alguns poemas de Carlos Aguasaco (Bogotá, 1975), do livro "Poemas del metro de Nueva York (El Quirófano Ediciones, Guayaquil, 2014). Aguasaco além de poeta é editor e professor de Estudos Culturais Latino-americanos e Espanhol no Departamento de Estudos Interdisciplinares em The City College of The City University of New York. (traduções Paulo Ferraz)

SOBRE O BOM SENTIDO

A partir de uma tela de Cesar Vallejo

Preciso te dizer, mãe,
Que existe um lugar no mundo ao qual todos chamam de Nova Iorque
Um lugar alto e distante e ainda mais alto
Mais alto que a igreja em Montserrat e umas pombas sonâmbulas
Mais alto e distante que o vulcão no qual nossa espécie foi extinta
e suas cinzas azuis queimando nossas faces mestiças
Mais distante que eu próprio quando fui a Paris visitar Vallejo
Mais alto que Vallejo que agora valleja ao rés do chão
Alto e distante como eu, visto por baixo
Quando pulo pelado para nadar no Hudson
e encontro imigrantes tentando alcançar a costa
Seus corpos sem vida me chamam do fundo
E eu falo para eles de ti, mãe
da borboleta que saiu de teu ventre
do dia em que sonhaste que eu era um anão
Mãe, este lugar no mundo ao qual todos chamam de Nova Iorque
Não é Paris, mas tem uma senhora francesa que sorri para a Europa

Do outro lado minha mãe me deseja primaveras
E aqui florescem as margaridas de plástico
e sorriem as garotas de tetas de borracha
Mãe, não me ajustes o colarinho
para que comece a nevar,
senão para que pare de nevar
Me deixa vagar por esta ilha soberba
entre as luzes do Show Business
Embriagar-me sozinho com tua ausência
aí começa a viver cansada de mim
Ausente de mim, vazia de mim, surda de mim, cega de mim, muda de mim, insone de mim
Debaixo desta muralha de sombras
jaz um Titanic de granito
e um garoto que chora nos trens subterrâneos
A mãe de outro homem o acorda
e o deita em sua cama
Nós mãe, somos de outro tempo
Nossa pele é couro de tambor
e jamais perderemos o sotaque.

NOVA IORQUE AO RÉS DO CHÃO
A saliva de um homem se transforma em granizo
E cai dos edifícios direto na minha cabeça
Deveria acreditar que é um sinal dos céus?
Queria cuspir de volta e fazê-lo engolir sua miséria

Minhas palavras são um vento frio que corta nas orelhas
É melhor se calar e seguir o caminho em busca de abrigo

Adormecido no ônibus,
sonho com uma palavra convertida em flecha
Uma peça triangular de gelo capaz de cruzar o Atlântico
Uma pomba de vento frio, e de água, que vá até minha casa
Uma imagem translúcida que baixe sobre minha mãe
E a faça saber que estou vivo

E SE QUEM QUE CUSPE FOR UMA GAROTA?
E se quem que cuspe for uma garota?
Não sei, pensaria que lhe pareci atraente
E quer me marcar para me ver passar de seu escritório

Acharia que me espera com um cigarro mentolado
junto à janela de vidro como uma cortina de coração e dentes
uma boca cheia de saliva pronta para me cumprimentar

Uma garganta disposta a me cuspir seus desejos
fantasias solitárias, paixões de alcova, convulsões
Uns pulmões que exalam fogo do ventre

Uma mulher gigante ou uma anã montada em uma poltrona
Uma mulher que sai pela rua à procura de uma cabeça cuspida

A nova-iorquina solitária que me ama das alturas
a dona deste chiclete com cheiro de paixão feminina

NOVA IORQUE
Este mundo é por definição desprezo e arrogância.
Gesto de nojo e o nojo de homens ombro a ombro
Sentados no trem.
Olhar fixo que no ponto médio se cruza sobre ti
E em ti se dissipa num arabesco em forma de turbante.
Este mundo é e não é teu mundo.
A cidade está ali para ser agarrada

A cidade está ali para dilapidar
Para dar desprezo, para ser reflexo do homem e o homem
Para recordar que sempre, não importa onde olhe,
O calor de uma lente te abriga com a discrição obscena
De quem sem te olhar te observa.

Seria preciso matar John Lenon e enfrentar o sarcasmo
De sorrir para a câmera para que ela te denuncie
Nas manchetes da imprensa por dez anos seguidos sem te pagar um centavo.

Rir como um louco e feder a dinheiro
Feder como um louco e rir do dinheiro.
Nova Iorque, não é a mim a quem saúdas
Com tua tocha acesa no atlântico

POEMA DOIS
Para escrever o poema, fazem falta dois
Ninguém escreve a poesia
e ninguém faz falta para que exista
Para que existam estas linhas você faz falta
E minha língua que as traça sobre sua pele
A caneta de saliva que soletra seu nome
na borda de seus lábios
E seus lábios como uma lousa
na qual aprendo a pôr os acentos

Para ler o poema, você faz falta
E seus olhos que o escrevem no ar
Seus olhos re-escritores, criadores de mundos possíveis
E impossíveis
Como esse mundo em que você e eu
somos uma única baleia gigante
Submersa num oceano de luzes, bêbada de amor
Ou quase impossíveis
Como esse mundo no qual caminhamos
pelas ruas de Nova Iorque
E ignoramos o frio do inverno,
as luzes de Times Square e as sirenes de emergência
Ou mundos que foram possíveis
Como esse mundo em que nos amamos
sem um centavo nos bolsos
E cantamos a canção das vogais
com as quais nossos nomes são escritos.
(Para minha esposa)

NOVA IORQUINA
Nova Iorque era um longa metragem em tecnicolor
A bailarina frustrada que faz bico de garçonete no Village
Junto a uma índia peruana que cozinha como os deuses
A Nova iorquina das costas de fora
A mulher de quadris soltos
A clavícula de açúcar
Um anúncio de coca-cola com pernas cumpridas
Alguém que passa depressa, que volta depressa, que vai depressa

Nova Iorque era uns olhares no bar
E um motel nos arredores
Um argumento de Huidobro produzido por David Linch
Cesar Vallejo envenenado com luzes
E mais uma vez, a garçonete que dá um salto ensaiado
A mulher que me serve e me mostra as costas
A jovem atriz que se surpreende ao me ver ler

O poeta entrou no filme por acidente,
Deram a ele um papel secundário pedindo café no balcão
Tinha que acender um cigarro sem filtro
e observar passar a protagonista

brilhar desgarrado em Nova Iorque
ver-se como um tamanduá farejando em meio ao ferro e se calar
Mas o poeta não sabe representar, apenas se representar,
pôr-se sério demais
Passa a vida em bares e não sabe de restaurantes

Nova Iorque era um longa-metragem em tecnicolor
A bailarina sentada com o poeta
E a magníf**a índia peruana que traduz pro espanhol
Tudo o que diz a loira

Lançamento do livro "Poemas para o século XX" (Selo Sebastião Grifo e Editora Patuá), de Rafael Rocha Daud, no Hussardos...
04/08/2014

Lançamento do livro "Poemas para o século XX" (Selo Sebastião Grifo e Editora Patuá), de Rafael Rocha Daud, no Hussardos Clube Literário. 02/08/2014

Amigos, hoje tem lançamento do livro de estreia do Rafael Rocha Daud, "Poemas para o século XX", uma parceria do Selo SE...
02/08/2014

Amigos, hoje tem lançamento do livro de estreia do Rafael Rocha Daud, "Poemas para o século XX", uma parceria do Selo SEBASTIÃO GRIFO e da Editora Patuá. Será no Hussardos Clube Literário, que f**a ali na rua Araújo, 154, segundo andar, próximo da praça da República. Seguem algumas palavras de Andréa Catrópa para o prefácio do livro:

"No seu livro de estreia, Rafael Rocha Daud vasculha a tradição poética com a atitude irreverente de um menino às voltas com um baú de roupas extemporâneas, esquecidas: vesti-las não traz de volta o tempo que passou, nem quem as vestiu; mas empreende um deslocamento que lhes dá um novo sentido. Surgem, assim, poemas estranhamente belos, que trabalham frequentemente com extremos: tratam dos temas do amor e da guerra; apresentam metáforas e uma cadência onírica, ou um tom narrativo e prosaico; elaboram-se ora como voz individual, ora como coletiva ou, ainda, despersonalizada."

4 de julho de 2013, lançamento dos primeiros livros do Projeto EPRO, organizado por Mantis Editores, com o apoio do Cons...
05/07/2013

4 de julho de 2013, lançamento dos primeiros livros do Projeto EPRO, organizado por Mantis Editores, com o apoio do Consejo Nacional para la Cultura y las Artes (CONACULTA) e curadoria do poeta Luís Aguilar.

Vadim Nikitin fez um belo posfácio para "Histórias de amor e nem tanto". Segue um pequeno trecho, presente na orelha do ...
21/06/2012

Vadim Nikitin fez um belo posfácio para "Histórias de amor e nem tanto". Segue um pequeno trecho, presente na orelha do livro.

O Selo Sebastião Grifo e a Dobra Editorial convidam para o lançamento do livro "Histórias de amor e nem tanto", de Mario...
20/06/2012

O Selo Sebastião Grifo e a Dobra Editorial convidam para o lançamento do livro "Histórias de amor e nem tanto", de Mario Rui Feliciani, autor de "Quando o carteiro chegar" (fotografias, 2004), "Dobras" (contos, 2007) e "O livro das combinações: quando um país joga junto" (infantil, 2012).

29 de junho a partir das 19 h.
Canto Madalena
Rua Medeiros de Albuquerque, 471, São Paulo.

Endereço

São Paulo, SP

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