14/07/2026
Por que admiramos Odisseu mentir? - Os bad boys da literatura
Os gregos descrevem uma inteligência que torna Odisseu mais perigoso do que Aquiles
Na Odisséia, o grande clássico de Homero, surpreendemo-nos ao assistir ao herói Odisseu mentindo, trapaceando, enganando e cometendo atos bem pouco “heróicos”, ao menos no sentido medieval do termo. Em um dos diálogos mais dramáticos do livro, flagramos Odisseu tendo a pachorra de mentir até para Atena, a deusa da sabedoria, que tanto lhe protegeu. Qual a inteligência aí? Podemos comparar com situações modernas. Na série de TV The Big Bang Theory, testemunhamos 4 nerds capazes de entender como transmutar elementos químicos estáveis em instáveis com colisão de prótons em um acelerador de partículas subatômicas, mas são incapazes de lidar com sua vizinha bonitona. Já na vida real, estamos acostumados a observar pessoas com carreiras brilhantes e conhecimentos avançados, mas que cometem erros grotescos, às vezes pela ausência de algo trivial, como notar que alguém está mentindo.
O que une todos estes fenômenos? Existe um conceito em grego para a inteligência que muito nos faz falta – e pode explicar desde o motivo para admirarmos alguns bad boys no cinema e na literatura até como pessoas inteligentes conseguem escorregar em erros tão bobos constantemente.
A mais recente tradução da Odisséia em inglês, de Emily Wilson, utilizada por Christopher Nolan para sua adaptação hollywoodiana, chamou atenção já na primeira linha: o narrador invoca a musa, pedindo para que ela o inspire a cantar sobre um homem “polytropos” (πολύτροπος) – que Emily Wilson, a primeira mulher a fazer tradução completa da Odisséia para o inglês, traduziu por “homem complicado”. No original grego, o “homem que tem muitos tropos”, na verdade, carrega referência às muitos caminhos das erranças de Odisseu, mas principalmente às diversas vias e subterfúgios de que o herói (que Wilson prefere acentuar como anti-herói) se vale para atingir seus objetivos. “Complicado”, é claro, além de exagerar no reducionismo, ainda traz um caráter fortemente negativo.
Outro epíteto (“apelido”) de Odisseu no poema é polymetis (πολυμήτις), uma das palavras mais interessantes da língua grega. Odisseu, então, é aquele que tem muita (polys) métis, ou seja, muitos ardis, muita astúcia, muitos subterfúgios, muitas artimanhas. Mas o que de fato significa essa palavra que Odisseu tem muito, métis, na língua grega – e por que admiramos um traço de Odisseu que nem sempre é tão louvável?
Métis é a inteligência que poderíamos chamar de “não-linear”. Não é a inteligência do conhecimento, da lógica, dos livros ou da matemática. Estas são inteligências das regras, dependendo de um mundo estável. A objetividade nos permite contemplar, explicar e demonstrar. Métis, essa inteligência que os primeiros versos da Odisséia destacam em seu protagonista, é uma inteligência nem sempre precisa, que possa ser explicada ou ensinada. É a inteligência da habilidade, da astúcia, da prudência – e também a de criar planos, de escapar pela tangente ou de atacar o inimigo onde ele não espera.
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