03/08/2025
Na Espera do Relógio
Ao meu pai, José Caboclo
Agosto sempre chega com um vento diferente. Traz memórias. E junto com elas, a presença de alguém que o tempo insiste em manter vivo dentro de nós: o pai.
É inevitável não lembrar daquela cena, tantas vezes repetida na infância: meu irmão e eu, sobre uma colina, ao lado da porteira, com os olhos atentos ao horizonte. Bastava uma nuvem de poeira se erguer ao longe para que o coração disparasse. “É ele!”, pensávamos. E era.
Montado no Relógio — não o do tempo, mas o do cavalo branco que parecia ter nascido para brilhar — nosso pai vinha ao nosso encontro. O som dos cascos batendo forte no chão seco anunciava sua chegada. Antes mesmo de vê-lo de perto, já o sentíamos presente. Tinha esse dom. De ser presença antes mesmo de ser toque.
Quando ele se aproximava, subíamos apressados na porteira. Meu irmão era o primeiro a montar na garupa. Eu, mais novo, era erguido por seu braço firme e pousava sobre a cabeça da sela, como quem é elevado ao trono da infância. as vezes sentia até uma dor no braço, mas a dor sumia como passe de mágica, ao ser aconchegado em seus braços! Relógio, sábio e manso, entendia que agora levava preciosos passageiros. E seguia em passos lentos, como quem queria eternizar o caminho de volta para casa.
Crescemos ao lado dele. Tornamo-nos homens sob sua sombra, no abrigo da sua palavra e da sua retidão. Nunca imaginamos que um dia a colina estaria vazia. Que não haveria mais poeira se erguendo no horizonte. Que o som dos cascos cessaria para sempre.
Quando nosso pai partiu, algo dentro da casa também desmoronou. Éramos adultos, mas nos sentimos órfãos como meninos. A ausência dele foi como perder o esteio principal de uma casa: ela pode continuar de pé, mas algo essencial já não está mais lá. Podemos ter tudo — teto, mesa farta, conforto — mas há uma fome que não passa. Uma saudade que não se alimenta.
Viajamos pelo mundo, mas sem o desejo sincero de sair de casa. Porque, no fundo, o nosso lar era ele. Era o seu jeito de estar no controle sem precisar mandar. Era sua palavra simples que resolvia o que o mundo complicava.
Hoje, sorrimos, seguimos... mas ainda choramos por dentro. Porque, quando um pai se vai, ele não leva apenas a si mesmo — leva uma estrutura inteira que só ele sustentava. E ainda assim, deixou o essencial: nos encaminhou, nos fortaleceu, nos ensinou o caminho de casa.
E é ali, no silêncio da colina, onde um dia esperamos por ele, que o reencontramos — nas lembranças, nas lições, no cavalo branco da infância, que agora galopa dentro da memória.
Crescer debaixo do cuidado de um pai justo e amoroso é uma grande bênção. Ter um pai exemplar é motivo de orgulho. Mas quando você o perde... ele apenas não se vai... ele leva quase todas as suas vontades. Você se alimenta e continua com fome. É uma saudade que não se alimenta.
Luiz Sérgio da silva