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Nunca tinha falado sobre isso. Há uns cinco anos, ainda na Universidade, quando eu entrei numa turma já iniciada de Rádi...
14/09/2017

Nunca tinha falado sobre isso. Há uns cinco anos, ainda na Universidade, quando eu entrei numa turma já iniciada de Rádio e TV, um curta que viria a ser o trabalho do meu grupo deu ruim. Mas deu ruim mesmo. Daqueles ruins que a gente tem que se convencer e levar como aprendizado. Problema no áudio. Foi feito correndo. Ninguém se comunicava. CD que não rodou na apresentação. Acontece que como eu tinha assumido a bronca de ficar com a edição final grande parte do problema acabou sendo jogada no colo do novo aluno. No caso, eu. Mas o real problema foi o que aconteceu depois.

Por eu ter ido na festa de dez anos da Festa Trash na The Week Brazil duas ou três pessoas do grupo haviam descoberto que eu era gay (na época eu não era assumido). Então todo dia estas pessoas começaram a gritar em sala de aula coisas como “sai do armário bichinha” ou “seja homem pra ser viado” toda vez que eu entrava na sala. Por umas duas semanas foi assim com todos meus colegas de sala ouvindo o que aquelas pessoas falavam sobre mim. Como eu não cogitava processar a universidade e não sou muito do tipo que responde na hora (e geralmente internalizo até o fim a maioria das m***as que fazem comigo), fui cada vez mais me isolando sem conversar com ninguém e só planejando em como fazer jus ao bom e velho “não mexe com quem tá quieto”. Apesar dos meus anos como “consultor especial para assuntos de Big Brother e A Fazenda” terem me ensinado que o ser humano ama mesmo é um barraco dos bons, eu sabia que o bom humor quica e rebola na cara da violência. Segue o plano.

Um dia cheguei na sala antes do professor e do horário da aula e sentei exatamente onde estes dois ou três colegas costumavam sentar. Ao entrar na sala e me ver, uma pessoa destas três, a mais barraqueira já se aproximou e começou a gritar. E eu, o mais suavemente possível tentando me convencer para não fazer m***a, me afastei e caminhei lentamente até a frente da sala de aula. Daí abaixei um pouco das calças. Com parte da cueca aparecendo, caminhei de volta em direção à barraqueira e disse bem baixinho no ouvido dela:
-Você me tirou de lá pra cá à toa?

Daí a postura agressiva dela foi embora. A barraqueira ficou completamente sem reação. Murchou e nem parecia a mesma barraqueira que tentava me humilhar naquelas semanas. A barraquiane virou sonsiane. Devolvi então os mesmos gritos que ela dava sobre mim em sala de aula e também gritei para toda sala ouvir:
-Você me tirou de lá pra cá à toa?

Peguei a bolsa que ela tinha apoiado em cima da mesa e joguei para o outro lado da sala. Daí ela gritou:
-Você tá louco?
Daí abaixei um pouco mais as calças e deixei a cueca lá. Linda, livre, leve e solta pra ela ver. Com o volume encarando aquele nariz de barraqueira dela. Se fosse hoje em dia tinha mandado um "Quando o grave bater você vai quicar?" Não aguentando o tamanho da afronta, a pessoa então se aproximou pra me bater e foi segurada por alguns amigos. Dali eu disse a próxima frase.
Uma frase em homenagem à antológica Luana Muniz sabe? Aquela que era considerada a rainha da Lapa carioca. Aquela que imortalizou um meme LGBT pedindo por respeito e devolveu na mesma moeda toda violência que os LGBTs sofrem no Brasil.
A frase que naquele ano tinha virado meme por causa de uma situação de desrespeito durante uma reportagem do Profissão Repórter. Gritei.
-Você tá pensando que tr****ti é bagunça?
Depois da confusão e dos depoimentos na direção da Universidade, a barraqueira foi suspensa e nunca mais fui alvo de gozação desta pessoa nem dos outros colegas. Eu como um millenial genuíno resolvi um caso de bullying encenando um meme.

Desde que voltei a escrever conteúdo pra internet no Observatório G percebi noticiando casos de preconceito e violência com LGBTs que a comunidade inteira ainda tem que bater no peito pra tentar impor o mínimo de respeito. E mesmo assim enfrenta um preconceito e uma violência muito maiores do que os eu que sofri. As vezes fatais.

Nas últimas semanas, em uma cidade gaúcha, um pai planejou um ataque ao próprio filho homossexual num ato que acabou mutilando a orelha do rapaz. Estes dias uma grande amiga foi chamada de abominação no Facebook apenas pelo fato de anunciar um casamento com sua namorada. Semana passada uma tr****ti foi assassinada aqui na Barra Funda num bairro do lado do meu. Morreu baleada. Crime sem suspeitos ainda. O Brasil é o maior paradigma LGBT do mundo: aqui se faz a maior parada Gay do mundo, mas também vivemos na nação que mais mata LGBTs no mundo.

E foi por estas que criei o OlhaBi. Pra terminar de ser o homem e o viado que quero ser. Se tudo der certo penso em contar alguns destes casos em um livro (ou e-book) que pretendo escrever (algo como o FolheiaBi).
Porque somente espalhando informação (e bom humor) é que nossa comunidade pode impor respeito. Espero sempre mantê-los informados para que assim espalhemos nossa mensagem.

Vamos ser viados pra sempre?
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