06/09/2026
TREINADORES/TREINADORAS, PERMANECER TAMBÉM É UM RESULTADO
Por Edson De Lima
Enquanto as atenções se concentram nos clubes que avançam às fases decisivas, existe uma parte importante do futebol feminino brasileiro que costuma desaparecer quando a competição chega ao momento de definir campeões, acessos e rebaixamentos: o trabalho de quem terminou a temporada sem levantar uma taça, sem disputar uma semifinal e, principalmente, sem deixar sua equipe pelo caminho.
Nas três divisões nacionais, treinadores e treinadoras enfrentaram realidades bastante distintas. Na A1, Bahia, São Paulo e Flamengo já garantiram presença nas semifinais, enquanto Corinthians e Cruzeiro disputam a última vaga. Na A2, Vasco, Itabirito, Atlético Piauiense e Minas Brasília asseguraram o acesso à elite, com Vasco e Itabirito ainda brigando pelo título. Na A3, o Planalto- GO conquistou o campeonato diante do Juventude-SE, enquanto Realidade Jovem-SP e Portuguesa-AP também garantiram o acesso à A2 em 2027.
Mas entre os classificados e campeões existe um grupo numeroso de profissionais cujo principal resultado foi garantir a continuidade de seus clubes nas respectivas divisões nacionais. Parece pouco diante da lógica esportiva orientada por troféus, mas não necessariamente é.
Manter uma equipe competitiva em uma competição nacional exige administrar limitações financeiras, estrutura de treinamento, logística, elenco reduzido, calendário, lesões, oscilações de rendimento e, em muitos casos, uma realidade muito distante daquela encontrada nos clubes mais estruturados. Há equipes que não conseguem oferecer as mesmas condições de preparação, recuperação e contratação disponíveis aos concorrentes. Ainda assim, precisam competir.
Por isso, avaliar o treinador ou a treinadora exclusivamente pela classificação final pode produzir uma leitura incompleta. Há trabalhos que não alcançaram a fase decisiva, mas cumpriram uma função fundamental: impedir que o clube retrocedesse. Permanecer significa preservar a vaga nacional, manter um projeto em funcionamento e oferecer à instituição a possibilidade de começar 2027 em condições melhores do que aquelas que teria após um rebaixamento.
Isso não significa transformar permanência em sinônimo de sucesso. É preciso reconhecer que determinados trabalhos ficaram abaixo das expectativas. Jogadoras em quem havia confiança podem não ter correspondido, contratações podem não funcionar, escolhas técnicas podem ser questionadas e o desenvolvimento coletivo pode não atingir o nível planejado. Também existem situações em que o treinador não encontra respaldo suficiente da direção ou trabalha em ambientes nos quais decisões administrativas interferem diretamente no rendimento esportivo.
É justamente aí que entra uma avaliação mais madura. O futebol feminino precisa superar tanto a cultura da demissão imediata quanto a tendência de responsabilizar exclusivamente o comandante técnico. Antes de trocar um treinador, seria razoável perguntar: qual era o objetivo estabelecido? Quais recursos foram disponibilizados? O elenco correspondia ao planejamento? Houve tempo para desenvolver o trabalho? A estrutura permitia exigir determinado desempenho?
A permanência deveria ser analisada como ponto de partida para uma avaliação mais profunda, não como prêmio de consolação. Para os clubes, o desafio agora é transformar a experiência de 2026 em planejamento para 2027: corrigir deficiências, qualificar elencos, melhorar estruturas e oferecer maior estabilidade aos profissionais.
No fim, uma competição nacional não é construída apenas pelos campeões e promovidos. Ela também é sustentada por quem consegue permanecer. Reconhecer esse trabalho não significa diminuir a importância de quem venceu. Significa compreender que o crescimento do futebol feminino brasileiro dependerá também da capacidade de valorizar processos, medir contextos e entender que, em determinadas temporadas, resistir, consolidar e permanecer pode ser exatamente o passo necessário para avançar.