05/09/2026
O Profeta que Cruzou Fronteiras: O dever de Lembrar Dom Pedro Zilli na Terra que o Viu Nascer
Há trajetórias humanas que transcendem a geografia de seu berço para se tornarem patrimônio da solidariedade universal. A de Dom Pedro Carlos Zilli é, sem dúvida, uma das mais expressivas do século XXI para a Igreja Católica e para o Brasil missionário.
Nascido em Santa Cruz do Rio Pardo em 7 de outubro de 1954, Dom Pedro construiu uma biografia marcada pela entrega radical ao próximo, fincando sua tenda nos solos áridos e desafiadores da África Ocidental. Contudo, enquanto cidades de outras regiões do país celebram e eternizam seu legado, sua terra natal permanece em um silêncio que desafia a memória coletiva.
A caminhada de Zilli foi pautada pela audácia da fé.
Membro do Pontifício Instituto para as Missões Estrangeiras (PIME), foi nomeado em março de 2001 pelo Papa João Paulo II como o primeiro bispo da Diocese de Bafatá, na Guiné-Bissau. Ao assumir essa missão em um território marcado pela pobreza extrema, cicatrizes de conflitos e onde os católicos representavam uma minoria expressiva, Dom Pedro tornou-se um autêntico pastor de periferias existenciais. Não era apenas um líder eclesiástico; era um construtor de pontes, promotor de saúde, educação e esperança, até ter sua vida ceifada em 31 de março de 2021, vítima da Covid-19, no Hospital de Cumura, na Guiné-Bissau.
O reconhecimento a essa envergadura moral encontrou eco longe de casa. No Paraná, por exemplo, a cidade de Ibiporã, onde o religioso residiu na juventude e recebeu sua ordenação sacerdotal, batizou com seu nome um grandioso complexo de lazer, o Lago Dom Pedro Zilli, inaugurado em 2023. Trata-se de um tributo público que perpetualiza a memória de um homem global, cujas raízes fincavam-se no interior paulista.
É justamente aí que reside o paradoxo cívico de Santa Cruz do Rio Pardo. É inaceitável que um município celebre tão pouco a memória de seu filho mais ilustre nas esferas da missão humanitária internacional. Nenhuma rua, nenhuma praça de relevo e nenhum próprio municipal carregam o nome de Dom Pedro Zilli na cidade que registrou seus primeiros passos.
A falta de homenagens locais não é apenas uma omissão burocrática; é um sintoma do esquecimento das grandes referências éticas em favor do efêmero.
Cidades constroem sua identidade e educam suas futuras gerações ao honrarem aqueles que personificaram a coragem e o amor ao próximo sem fronteiras. Santa Cruz do Rio Pardo precisa, com urgência, resgatar o nome de Dom Pedro Zilli e de outros ilustres personagens de nossa terra do anonimato institucional local. Dar o seu nome a um logradouro público, a uma escola ou a um espaço de convivência não é um favor à memória do bispo, que já garantiu seu lugar na história universal, mas um ato de autoimersão e dignidade para uma comunidade que deveria orgulhar-se de ter gerado um dos maiores missionários do Brasil.
Por Renan Ribeiro - Rádio Difusora.