08/05/2026
PALAVRAS QUE EMERGEM DOS ESCOMBROS: nossas turbinas eólicas estão sendo ligadas para começar a preparar o livro da poeta Inaam M Suliman que publicaremos em coedição de Martim Cartonero e Vento Norte Cartonero. Como antecipo apresentamos aqui a entrevista que Monica Messa fez desde Itália para que conheçam um pouco o pensamento da nossa autora!!!...................
1. Poderia nos dizer quem é Inaam M. Suliman?
Antes de mais nada, gostaria de agradecer por esta entrevista e pelo seu nobre compromisso em dar voz a nós, em Gaza. Muito obrigado.
Meu nome é Inaam Said, também conhecida como Inaam M. Suliman. Sou uma sobrevivente do Holocausto de Gaza. Sou escritora e, ao mesmo tempo, trabalho como facilitadora de sessões de apoio psicossocial para mulheres que perderam suas famílias em eventos traumáticos. Este trabalho me dá a oportunidade de escrever sobre mulheres e seu sofrimento.
Também atuo na vida cultural por meio de alguns grupos e iniciativas. Tenho um profundo interesse em questões femininas e participo de encontros sobre direitos das mulheres e envolvimento político em organizações locais que trabalham com questões femininas.
2. De onde você é e onde mora atualmente?
Sou palestina, da Palestina, a terra de Cristo. Fui forçada a deixar minha casa sob a ameaça de bombardeios e fogo de artilharia. Agora moro com minha família em um apartamento localizado em uma vila perto do mar, longe de casa.
3. Quando você começou a escrever e o que a atraiu para a poesia e a ficção?
Comecei a escrever muito cedo, por volta dos dez anos de idade. Escrevia sobre as paisagens naturais que via, pois nasci rodeada pela natureza. No ensino fundamental, escrevia pequenos textos sobre minha terra natal, a amizade, e a minha mãe. Elaborava pequenas redações. Gostaria de agradecer aos meus professores de árabe, que me incentivaram e valorizaram o que eu escrevia.
A verdadeira motivação para a minha escrita é que ela é o meu refúgio definitivo: me traz paz e inspiração. Também gosto de compartilhar meus pensamentos com os outros.
Escrever é um bálsamo no qual buscamos refúgio quando a adversidade nos assola. Considero a escrita uma forma refinada de expressão, capaz de falar à alma sem restrições ou condições.
4. Quais temas se repetem com mais frequência em sua poesia e obras literárias?
Os temas que mais se repetem na minha poesia e nas minhas obras literárias são: a pátria, as mulheres, a guerra e o amor.
Perdi minha casa e minha terra. Não consigo alcançá-las, então escrevo sobre minha pátria, da qual sinto muita falta.
Também escrevo sobre as mulheres de Gaza, cuja realidade piorou, depois de terem vivido uma vida bela e pacífica.
E há um tema essencial e belíssimo: o amor. Apesar das duras circunstâncias, ainda há espaço para o amor.
5. Muitas das suas obras refletem uma realidade intensa e dolorosa: como você transforma a experiência pessoal e coletiva em poesia?
É verdade: minhas obras refletem uma realidade intensa e difícil. Aqui em Gaza, vivemos em condições extremamente duras: deslocamento, assassinatos, destruição. Perdemos muitos entes queridos e muitos amigos.
A poesia e a literatura são ferramentas de testemunho e documentação. A poesia é o último refúgio em meio a todo esse sofrimento. Sem a poesia, a dor teria sido ainda maior.
Há também a dor do esquecimento e da negação. Minhas palavras nascem do meu juramento à minha pátria: não a abandonar e não abandonar o povo palestino aflito. Quero ser a sua voz e fazer da minha caneta uma janela para Gaza. É o mínimo que posso fazer.
6. Poderia nos contar algo sobre seus estudos?
A leitura de literatura inglesa, tanto britânica quanto americana, enriquece minha imaginação e me oferece diferentes perspectivas.
A literatura inglesa amplia meus horizontes intelectuais por meio da exposição aos grandes clássicos da literatura mundial e suas traduções. O idioma aprimorou minhas habilidades de escrita criativa, refinou meu estilo narrativo e me permitiu explorar diferentes culturas e valores.
7. Como o público, dentro e fora da Palestina, reagiu aos seus poemas e contos?
A resposta do público tem sido muito positiva e realmente me emocionou. Foi uma resposta repleta de apoio e incentivo.
Enviei meus poemas para alguns amigos; eles gostaram e compartilharam. Alguns até sugeriram que eu os publicasse com eles ou por meio de editoras.
Gostaria de agradecer a todos os poetas que traduziram e leram meus poemas. Um agradecimento especial a você, querida Monica, por seus vídeos.
Outros amigos discutiram meus poemas comigo para aprimorá-los e fortalecê-los: essa é uma crítica construtiva, pela qual sou grata.
8. Quais escritores te inspiraram e que conselho você daria para quem está começando hoje?
Todo poeta que escreve um poema que toca minha alma é uma inspiração para mim.
Muitos escritores e poetas me inspiraram, incluindo o americano Paul Auster e o inglês William Wordsworth.
Do mundo árabe: Fadwa Toukan, Ghassan Kanafani, Saud Al-Sanousi entre outros.
Aconselho os novos escritores (e a mim mesma) a lerem com paixão e incansavelmente. A leitura é a principal força motriz da escrita. Escreva tudo o que vier à mente. Compartilhe suas ideias com outros escritores. Não tenha medo de críticas: elas são um reforço positivo.
9. Você está trabalhando em algum projeto ou livro novo?
Sim. Tenho mais de quatro obras que escrevi durante essas circunstâncias muito difíceis. Escrevi poemas e contos que documentam a vida durante a guerra.
10. Como você vê o futuro da literatura e da poesia palestinas nos próximos anos?
A poesia palestina manterá seu papel como uma ferramenta rápida e poderosa para responder aos acontecimentos, como vimos com a maioria dos poetas de Gaza que escrevem sobre seu cotidiano e documentam eventos dolorosos.
A literatura palestina continuará sendo um documento existencial e nacional. Portanto, diários e testemunhos serão cada vez mais disseminados pelas redes sociais, permitindo que a literatura palestina alcance um público global mais rapidamente, porque é uma literatura de resistência.
11. Se você pudesse compartilhar um poema ou verso que lhe seja particularmente caro neste momento, qual escolheria e por quê?
Esta pergunta desperta uma dor profunda em meu coração. Cada poema que escrevi tem uma história dolorosa por trás, e eu a transformei em poesia.
Escrevi sobre mães, pais e filhos. Escrevi um poema para meu filho, que perdeu muitos amigos naqueles eventos trágicos. É um poema que me toca profundamente.
Vejo manchas de tristeza
na camisa do seu coração, filho do meu coração.
Cada vez que você vira o s**o de farinha,
você vislumbra o último momento
em que seu coração caiu.
E a bala passou
entre você e ele.
Ele voou para o céu,
e você caiu
na terra da saudade,
sozinho...
Seu amigo,
no momento em que você recolheu os restos mortais,
seu coração ficou preso
entre um último suspiro
e uma mancha de morte.
A menininha que você segurava nos braços
se assemelhava à rosa de Damasco
em nosso jardim,
por isso o sangue deixou sua marca em suas mãos
e em seus braços:
um perfume,
cada vez que a nostalgia a s**ode
em direção à nossa casa.
Não era mais uma metáfora
quando o significado escolheu a sombra.
E você beijou três faces lunares...
Elas passaram,
atravessando as nuvens
com duas asas de luz,
invocando o céu
e recitando duas vezes
hinos batismais.
Havia um pacto lunar entre vocês:
percorrer o caminho juntos.
Nunca lhe ocorreu
carregar seu amigo
numa caixa de primeiros socorros.
Sua respiração não estava apenas tentando
restaurar a vida dele:
era o bater do seu coração,
talvez,
que queria colidir com o dele
e forçar a morte, finalmente,
a expulsá-lo.
Você não vivia no meu mundo,
e eu não habitava o seu.
Contudo, pertencíamos
a um mundo
que vivia em nossos peitos.
Você não me deixou,
e eu não apaguei sua tatuagem.
Você é o filho
do primeiro segredo.
https://zonadidisagio.wordpress.com/2026/04/03/intervista-a-inaam-m-suliman/?fbclid=IwY2xjawRrJKZleHRuA2FlbQIxMABicmlkETEzZ1Q5MWViTUZXY3htV21Bc3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHsvdY1eddqPTqTt28LehYcMlG4I-qAt8vpYwblSXDKuepWf8FDohgov6gY4J_aem_Krw-IK_RrQ5cu7cj5WC_QA
(Gaudêncio Gaudério / Estamparia Geral)