11/11/2025
Conto – “A Torre Que Não Afundou”
Quando o nível da represa baixou, a cidade antiga voltou a aparecer, como um rosto que nunca quis ser esquecido. As pessoas da cidade nova olhavam de longe, da estrada elevada, sem coragem de descer. Diziam que quem foi embora dali nunca devia voltar. Mas eu sou cartógrafo, e mapas não acreditam em avisos, só em contornos.
Na tarde em que desci a encosta, encontrei a rua principal inteira, exposta ao sol pálido. Casas sem telhado, com janelas vazias que pareciam observar quem passava. O ar tinha cheiro de ferrugem molhada e madeira encharcada. Caminhei devagar, anotando medidas, registrando ruínas. Tudo fazia silêncio, exceto a torre da antiga igreja, que parecia respirar.
A torre ficara de pé, teimosa, mesmo depois de décadas sob a água. Subi a escada estreita, cada degrau gemendo como se reconhecesse meus passos. Lá em cima, onde deveria existir um sino, havia um móvel antigo, repleto de pequenas gavetas alinhadas. Cada uma tinha um ano gravado na frente, como arquivos de uma história que ninguém pediu para guardar.
Abri a gaveta de 1951.
Dentro, havia um pano bordado com o nome “Isabel”. Envolvia um dente humano, limpo, polido, como se tivesse sido arrancado não por violência, mas por decisão. Meu corpo se enrijeceu. Senti a língua tocar meus próprios dentes, como se verificasse se estavam todos ali.
— Não devia mexer nelas — disse alguém atrás de mim.
Virei. Uma mulher, talvez quarenta ou cinquenta anos, mas com olhos antigos. Usava botas sujas de barro, como quem conhece bem aquele chão.
— Quem guardou isso? — consegui perguntar.
— O rio — respondeu ela, como se explicasse o óbvio. — O rio leva o que é seu e devolve quando quer ser lembrado.
— Isabel era alguém?
— Isabel é o nome que damos aos que o rio não batizou — disse ela, aproximando-se da gaveta. — Quando a represa subiu, muita gente perdeu partes de si. Objetos, histórias, nomes. O que sobra vem pra cá.
Fechei a gaveta, mas o móvel continuava vibrando, como se pedisse que eu entendesse. Na verdade, eu já entendia. Minha mãe nasceu naquela cidade antes da enchente. Contava histórias interrompidas, sempre evitando certos anos, certos nomes. Morreu sem explicar.
O vento subiu a torre e parecia dizer palavras que jamais seriam minhas.
— Você veio buscar quem? — perguntou a mulher.
Eu quis responder “ninguém”. Quis dizer que eu estava ali por trabalho, por topografia, por mapas. Mas minha mão, por vontade própria, tocou meu incisivo esquerdo, aquele com a pequena mossa que eu fiz aos sete anos mordendo a mesa da cozinha.
A mulher viu. E sorriu sem alegria.
— É assim que começa. Primeiro, o dente lembra. Depois, o resto segue.
Eu desci antes do anoitecer, mas desde então, toda noite sonho com gavetas. E, no sonho, a de 1989 — o meu ano — está esperando ser aberta.