Semema Semema, "em meio ao mar de signos", é a revista de arte e cultura do escritor Adriano Dias. Somos uma revista de conteúdo original, múltiplo e democrático.

Compre o livro aqui: https://www.editorapatua.com.br/produto/202030/semema-de-adriano-dias Em meio ao mar de signos que nos cerca, Semema fornece leituras críticas do que vem acontecendo no mundo das artes, da educação e na sociedade como um todo. Aqui divulgamos os diversos pontos de vista sobre os assuntos mais recorrentes dos nossos dias.

A poesia é um buraco de fechadura,Cuja porta se encarrega De proteger, De quem procura,Um reino de formas tão purasQue s...
16/03/2026

A poesia é um buraco de fechadura,
Cuja porta se encarrega
De proteger,
De quem procura,
Um reino de formas tão puras
Que só seu vislumbre já cega.

E cumpre ao poeta,
Em sua frágil armadura de termos,
O terrível mergulho vão adentro,
No indizível das formas belas,
Vastas e profundas,
Reluzentes e escuras,
E entalhar para nós,
De dentro para fora,
Essa preciosa fissura...

Adriano Dias
Ilustração de Wenyi Geng (http://www.wenyigeng.com/)

Sólidos, com seus fardos velhos,Quase todos ao meu redorPregam seus evangelhos.Os bons, digo, pois pertenço aos maus.Bri...
22/09/2025

Sólidos, com seus fardos velhos,
Quase todos ao meu redor
Pregam seus evangelhos.

Os bons, digo, pois pertenço aos maus.

Brincamos de procurar (em vão),
Sem migalhas de pão,
Alguma alma no labirinto do caos.

Adriano Dias
Ilustração da russa Krugliakova Mariia (https://www.behance.net/mary_kru)

E se fosse o completo universoum experimento dispersona abarrotada despensa dum titã esquecido,guardado como compota num...
19/09/2025

E se fosse o completo universo
um experimento disperso
na abarrotada despensa
dum titã esquecido,
guardado como compota
numa prateleira meio torta
entre outras tantas outras criações mal compostas,
também guardadas feito amostras de um laboratório maluco,
cada frasco lacrando seu respectivo produto:
fetos boiando, animais em decomposição,
buracos largos, inversos escuros,
todos lado a lado,
crescendo em proporção
a ver no que é que dão;
Ocorre,
como é costumeiro neste tipo de coleção,
que não se notem
os detalhes de cada pote,
conforme ainda não se tornem evidentes:
como no de vácuos dormentes,
onde antinadas luminosos ousam sua 4ª geração
à sombra dum breu que definha.

E, no nosso cosmos, em expansão,
nem se notaria um cisco planetinha
guardando um cisco ser que nele caminha
em posse dum pote compota que nem lembrava que tinha
e agora o observa atentamente,
numa manhã de quinta bem quente,
e vê e assusta e compreende
(na massa daquela experiência viva,
colhida entre outras tantas que cultiva)
o ciclo infinito proibido impossível que todos somos,
ao notar, estupefato,
um como Titã criando, autônomo,
entre tantos frascos,
um contendo nosso cosmos...

Adriano Dias
Ilustração do japonês So PineNut (https://www.behance.net/sop2099)

Nossa bela relação impossível:Enquanto ela apanha as moedas caídasOrganiza seus sapatos e bolsas por nívelNa dinâmica au...
04/09/2025

Nossa bela relação impossível:
Enquanto ela apanha as moedas caídas
Organiza seus sapatos e bolsas por nível
Na dinâmica austera dos afazeres da vida

Eu terminava de empacotar uma névoa
Mais uma à minha coleção
Junto às compotas de chuva morna
que coleciono como profissão

E o quanto mais nos somos, inteiros e francos
Tanto mais um do outro ficamos apartados
Você pisando nos pretos, eu nos brancos
Na maior distância entre dois pontos: lado a lado

Adriano Dias
Ilustração do filipino James Bernaldez (https://www.behance.net/jimiblake)

Quinta-feira, 5/6, a conversa poética com café será confusa, complexa, estranha e misteriosa. Vamos tantar cantar e dize...
04/06/2025

Quinta-feira, 5/6, a conversa poética com café será confusa, complexa, estranha e misteriosa. Vamos tantar cantar e dizer o que não se diz porque não pode, não dá, não se consegue, mas existe.
É o quarto encontro no charmoso coreto da cafeteria LaMar, na Azevedo Sodré, 59. Um retiro poético no caos urbano, com atendimento de excelência, café e quitutes deliciosos.
O convite está lançado: venha!

Entre o nirvana e o cromossomohá a confusão de vísceras e símbolos que somos.E pouco mais nos vazaalém de quereres parad...
02/06/2025

Entre o nirvana e o cromossomo
há a confusão de vísceras e símbolos que somos.

E pouco mais nos vaza
além de quereres paradoxais
que permitam nossas parcas palavras

como o anseio por paz,
sempre para fora de casa
(no infinito do céu,
no horizonte que não acaba,
nas fossas abissais);

como o amor imenso
feito de tanta posse dentro
e os ódios que ela traz;

como a ordem imposta ao mundo,
fosse o ordenador oriundo
de um reino congruente,
não de um caos latente
e nada mais;

Como se a realidade
que nos nasce
na carne da alma
encontrasse
a coerência que lhe falta
num verso ou numa frase

Como se um desejo instintivo
coubesse inteiro (quase cabe..)
num simples substantivo.

Adriano Dias
Ilustração de L-E-N-T-E-S-C-U-R-A (https://www.behance.net/LenteScura)

Nesta quinta-feira (29/05), estarei na rua Azevedo Sodre, 59, na cafeteria LaMar, conduzindo um fim de tarde com poesia,...
27/05/2025

Nesta quinta-feira (29/05), estarei na rua Azevedo Sodre, 59, na cafeteria LaMar, conduzindo um fim de tarde com poesia, música e bate-papo sobre o Amor. Será apaixonante 🥰!

Tem os sonhos, com seu brilho lógico, seu aroma liberdade, seu descanso gozoe seu impossível rebaixando meus desejos ao ...
20/03/2025

Tem os sonhos,
com seu brilho lógico, seu aroma liberdade, seu descanso gozo
e seu impossível

rebaixando meus desejos ao plano dos planos,
com seus passos necessários, seu esforço
e seu peso pisoteando as flores dos sonhos,

devolvendo-me ao cotidiano
com seus compromissos, com suas ordens, com suas gentes
e seu voraz imperativo do agora

arrastando o comboio das lacunas do passado,
com tantos planos inconclusos,
com tantos sonhos moribundos,
todos rançosos de seu abandono,

gotejando um visgo derrota em minhas engrenagens,
lembrando os eus planejados que ainda não ocorreram,
os desesperos controlados que ainda os tenho,

como uma massa compacta
sopesando-me ao mais baixo de mim,
onde redijo a fel,
o tempo todo,
o Impossível que me rebaixa os sonhos...

Adriano Dias
Ilustração a sul-coreana Aiden Lee Jangyong

Sobre a minha pátria: Brasil.
05/02/2025

Sobre a minha pátria: Brasil.

Tenho andado tremendamente intrigado com a palavra pátria.
Quanto ao uso, tem um poder nítido (e absurdo!).
Ouvir – Pátria! – instiga ímpetos de dar um soco, um tiro ou um berro de susto. Talvez ative o dispositivo que nos foi construído ao longo dos milênios em que precisamos permanentemente defender nosso grupo. É como em jogo do time para que torço, ou num ringue, em qualquer situação que me obrigue a defender um lado que pareça ou me convençam ser o meu.
Por isso, é só alguém de confiança atiçar um inimigo que a gente é capaz de se lançar ao seu encalço e destroçá-lo, antes de saber quem fosse. Ainda mais em bando.
Mas quando investigo seu significado, pensando um pouco, parece um conceito tão fortuito, fluido, maleável. Que ato configura uma defesa da pátria, além da guerra? Que coisas ou situações materializam sua ideia? É o idioma, a cultura do povo, nossas comidas, nossos objetos, jeito de falar característico, nossa arquitetura, nossa peculiar mistura? Ou é apenas a bandeira sacodida ao vento em fúria enquanto brada: Brasil!? Só essa sensação pura?
Como professor de literatura me pergunto: o que eu ensino é patriótico? Os grandes mestres da escrita em prosa como Machado, Gregório, Lobato, Gonzaga, Graciliano, Alencar, Oswald. Drummond era patriota? Independente das ideias que defendiam, da ideologia que pregavam, devo contar o que eles contaram, ensinar o que eles escreveram como digno de representar o meu país?
Ensinamos, no alto pedestal de um século quase, que a década de 1920 foi cenário de um embate entre duas correntes que reivindicavam o direito de se definir como Legítima Arte Brasileira (moderna, se possível). Como deve ser fascinante ler toda a produção dessa época.
De um lado, Oswald de Andrade, estudou em Paris (imagina!), viveu a Belle Époque (assistiu “Meia noite em Paris”?), veio cheio de globalismo na pauliceia fervilhando desenvolvimento urbano e industrial.
Defendeu a apropriação das descobertas estruturais e estéticas dos europeus para dar corpo à nova arte brasileira, usando o manancial da cultura popular, nosso mosaico tão diverso. Mário pirou na mesma linha, pesquisou apaixonado as nossas mais peculiares manifestações culturais e costurou tudo numa rapsódia absurda: Macunaíma.
Antropófagos!
Combatidos como entreguistas, estrangeiristas, francesistas, antipatrióticos.
Do outro lado da arena havia os verde-amarelos de Plínio Salgado, vinculado ao movimento integralista, defensores de uma literatura que espelhasse os princípios de sociedade que queriam ver instaurados no país. O nome do movimento refere às cores do símbolo máximo do patriotismo, a bandeira, assim como os valores defendidos estavam ligados à igreja e à restauração da família tradicional. Nosso folclore, nossos heróis, nossas riquezas exaltadas. Preciso ler Cobra Norato. Apaixonados e combativos, produziram menos, repercutiram menos, produziram pouco. É difícil rastrear o seu legado.
Eram os patriotas.
Verde-amarelos.
Ainda temos outros autores gigantes e polêmicos, como Monteiro Lobato ou o cubatense, infelizmente no ostracismo, Afonso Schmidt (o cara escreveu a primeira utopia de ficção científica brasileira – Zanzalás - e se passa em Cubatão!) Mais dezenas de grandes talentos que vêm consolidando um patrimônio cultural que podemos dizer com orgulho: é Brasil. É muito do que o mundo admira em nós, a mais que a natureza (que não é produto nosso, ao contrário, produzimos destroços), o futebol (que nem é mais aquelas coisas) e as bundas de nossas mulheres.
João Gilberto, Hilda Hist, Gilberto Mendes, Caetano Veloso, Mutantes, Hermeto Pascoal, Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral, Chico Buarque, Érico Veríssimo, Glauber Rocha, Paulo Leminski, tantos gigantes contestadores, polêmicos, compõem o caldo mais consistente da nossa pátria, talvez.
Para os quais são apontados (sempre foram) os dedos verdamarelos.
Como será a pátria em que eles não caibam?

Adriano Dias
Ilustração de Augusto Zambonato (https://augustozambonato.com/)

Oração: Santo milagre da normalidade
23/12/2024

Oração: Santo milagre da normalidade

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Santos, SP

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