30/06/2026
Quando uma cidade aprende a agradecer
Por Jorge Guimaraes
No encontro entre a juventude e a experiência, a cidade celebra um de seus maiores nomes e mostra que o futuro também se constrói com gratidão.
Ao homenagear o professor Claudio Boeira Garcia, a iniciativa do jovem vereador Ricardo Cidade une gerações e reafirma que a cultura é o alicerce da identidade de Tapes.
Há cidades que constroem prédios. Outras constroem estradas. Mas existem aquelas que, de tempos em tempos, decidem construir memória.
A memória é um patrimônio curioso. Não se ergue com concreto, nem se compra com recursos públicos. Ela é construída quando um povo decide olhar para trás não com saudade, mas com gratidão. Quando reconhece aqueles que fizeram da inteligência um serviço, da arte uma identidade e da cultura um legado.
Vivemos um tempo de urgências. Tudo passa depressa. As notícias envelhecem em poucas horas, as redes sociais substituem heróis diariamente e a memória parece disputar espaço com o esquecimento. Talvez por isso as homenagens sinceras tenham se tornado tão necessárias. Elas interrompem a correria do cotidiano para lembrar quem somos e de onde viemos.
No próximo 14 de julho de 2026, às 18 horas, a Câmara Municipal de Tapes abrirá suas portas para uma solenidade que vai muito além da entrega de um título ao professor Claudio Boeira Garcia. Será um encontro entre a cidade e sua própria história.
Claudio levou o nome de Tapes para salas de aula, universidades, festivais e palcos. Como professor, filósofo, pesquisador, compositor e um dos fundadores do grupo Os Tápes, mostrou que uma pequena cidade pode produzir pensamento, poesia e música capazes de atravessar fronteiras. Em cada aula, em cada canção e em cada pesquisa, havia sempre um pouco da terra que o viu nascer.
Mas talvez o mais bonito dessa homenagem não seja apenas olhar para quem dedicou a vida à educação e à cultura. É perceber que esse reconhecimento nasce das mãos de uma nova geração.
Ao propor esta homenagem, o vereador Ricardo Cidade, uma jovem liderança da política tapense, oferece à comunidade uma lição que vai além da atividade parlamentar. Em um tempo em que muitos imaginam que a juventude precisa romper com o passado para construir o futuro, Ricardo demonstra exatamente o contrário: não existe futuro sólido para uma cidade que não aprende a honrar aqueles que escreveram sua história.
Os jovens costumam ser lembrados por suas ideias, por sua disposição para transformar o presente. Mas a verdadeira renovação acontece quando a energia da juventude caminha ao lado da sabedoria daqueles que vieram antes. É nesse encontro de gerações que as cidades se fortalecem.
Por isso, a iniciativa merece aplausos. Não apenas pelo reconhecimento ao professor Claudio Boeira Garcia, mas pela sensibilidade de um jovem vereador que compreendeu que investir na cultura também é fazer política. Que preservar a memória também é construir desenvolvimento. Que agradecer a quem dedicou a vida ao conhecimento é plantar sementes para o futuro.
Foi assim com o grupo Os Tápes. Um grupo de jovens que, em 1971, decidiu cantar sua terra, sua gente e seus sonhos. As canções atravessaram o Rio Grande do Sul, chegaram ao Brasil e ao exterior, mas nunca perderam o sotaque de Tapes. Décadas depois, uma nova geração de jovens volta a olhar para esse legado e compreende que ele continua vivo.
Talvez seja esse o verdadeiro sentido de uma homenagem.
Ela não pertence apenas ao homenageado.
Ela pertence à cidade.
Pertence às crianças que crescerão sabendo que, dali, saíram professores, músicos, filósofos e artistas capazes de dialogar com o mundo sem abandonar suas raízes.
Pertence aos jovens, que descobrirão que cultura não é algo distante, mas uma herança construída por pessoas comuns que ousaram sonhar.
Pertence aos educadores, que encontram no reconhecimento público a confirmação de que ensinar continua sendo uma das mais nobres formas de transformar a sociedade.
Quando a Câmara Municipal abrir suas portas, Tapes não estará apenas concedendo um título. Estará fazendo algo muito maior: estará agradecendo.
Agradecendo ao professor Claudio Boeira Garcia por dedicar sua inteligência, sua sensibilidade e seu talento à educação, à música e à preservação da memória de sua terra.
E agradecendo ao jovem vereador Ricardo Cidade por lembrar que a política também pode ser um gesto de gratidão.
Porque cidades verdadeiramente grandes não são aquelas que apenas crescem em tamanho.
São aquelas que conhecem sua história, valorizam sua cultura e ensinam, por meio de exemplos como este, que o futuro começa sempre pelo respeito ao passado.