06/01/2026
Quando a manchete encontra a evidência científica
Ontem, a Folha de S.Paulo chamou atenção para um dado alarmante:
até 80% dos pacientes com câncer apresentam algum grau de desnutrição, condição associada à menor tolerância ao tratamento, pior prognóstico e maior risco de mortalidade.
O ponto central não é apenas ingestão calórica.
Envolve perda de massa muscular, inflamação sistêmica e reprogramação metabólica, fatores que afetam diretamente a resposta à quimioterapia.
Essa discussão converge diretamente com dois trabalhos publicados em 2026 pelo nosso grupo de pesquisa (DOMEN), sendo um na Cancers e outro recentemente aceito na European Journal of Nutrition.
Em um estudo experimental em sarcoma, demonstramos que a restrição calórica controlada, quando associada à doxorrubicina:
• aumenta a eficácia antitumoral
• reduz toxicidades hematológicas
• atenua estresse oxidativo e dano ao DNA
• sem comprometer o peso corporal ou a segurança metabólica
Em uma revisão sistemática sobre dietas que mimetizam o jejum, mostramos que intervenções metabólicas estruturadas podem:
• modular o metabolismo tumoral
• aumentar a vulnerabilidade das células cancerígenas
• preservar tecidos saudáveis por mecanismos de resistência diferencial ao estresse
A mensagem é clara:
nutrição não é suporte periférico no câncer.
Ela atua no epicentro da biologia tumoral, da tolerância terapêutica e da sobrevida.
Nossos resultados reforçam que, embora a desnutrição esteja associada a pior prognóstico e redução da expectativa de vida, quando o tratamento é conduzido de forma integrada e por equipes especializadas, é possível reduzir toxicidades, preservar a homeostase metabólica e aumentar a sobrevida, como observado em nossos estudos experimentais.
Ciência aplicada, conduzida com método, muda desfechos.
DOMEN | Metabolismo, Exercício e Nutrição Aplicados à Oncologia