16/02/2026
Ubatuba que não cabe no cartão-postal: canoas, fandango e cozinha caiçara sustentam cultura e renda no litoral
Ubatuba tem praias demais para caber numa foto e histórias demais para caber no verão. Mas é fácil — e cansativo — ver a cidade sendo reduzida a um recorte: areia, sol, temporada. Enquanto isso, em volta do que o turista chama de “paraíso”, existe uma rotina antiga que segue em pé, com o mesmo tipo de resistência que não faz barulho: a das comunidades caiçaras.
A palavra “caiçara” costuma aparecer em folhetos e slogans como se fosse adereço. Só que, para quem vive isso, é outra coisa: é modo de vida, é território, é memória transmitida sem pressa. Em Ubatuba, há uma rede de núcleos tradicionais distribuídos por regiões do município — com presença marcante no Norte — incluindo localidades como Camburi, Picinguaba, Praia da Almada, Praia do Ubatumirim, Puruba, Barra Seca, Sertão do Ubatumirim e outras comunidades reconhecidas em publicações e mapeamentos locais.
É ali — e não só ali — que Ubatuba guarda um tipo de riqueza que não se mede por metro quadrado: pertencimento. E pertence quem permanece.
Em Ubatuba, a corrida de canoas caiçaras está presente no calendário cultural como quem lembra ao mar que ele ainda tem donos simbólicos: os que aprenderam a ler correnteza antes de ler papel. Há provas organizadas dentro de festas tradicionais e festivais culturais do município, com categorias que vão do infantil ao adulto, mantendo a canoa de pesca como protagonista.
O fandango caiçara — com sua música, dança, poesia e celebração — não é “apresentação turística” por definição. É prática social. Tanto que foi registrado como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil e reconhecido pelo Iphan como expressão ligada ao cotidiano das comunidades do litoral de São Paulo e do Paraná, transmitida entre gerações e conectada ao ambiente natural e às formas de convivência local.
Ubatuba tem muitas Ubatubas. A do visitante, que passa. A do morador, que f**a. E a do caiçara, que muitas vezes precisa provar, todos os dias, que sua vida não é “tema”, é existência.
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Fotos: Wendell Marques