24/08/2025
A luz do farol do carro, amarela e fraca, mal conseguia cortar a neblina espessa que engolia a estrada. Era o tipo de neblina que te fazia sentir como se estivesse dirigindo para o nada, um lençol úmido e pesado que silenciava o mundo lá fora. Daniel sentia um arrepio na espinha, não só pelo frio que vinha do rádio quebrado do carro, mas pelo silêncio opressor. Ao lado dele, Ana dormia, o rosto sereno contrastando com a tensão de Daniel, que segurava o volante com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.
Aquele era o pior caminho que poderiam ter escolhido. O GPS insistira que a antiga Estrada da Serra era o atalho mais rápido para a casa dos pais de Ana, mas as árvores retorcidas e o asfalto cheio de buracos pareciam conspirar contra eles. A lenda da estrada, contada pelos moradores da cidadezinha próxima, dizia que quem passava por ali depois da meia-noite era amaldiçoado. Uma lenda boba, pensou Daniel, mas o carro parecia ter uma opinião diferente. O motor tossiu, engasgou e, com um último suspiro, parou.
"Não, não, não", murmurou Daniel, batendo no painel. Ana despertou com o solavanco. "O que foi?" "O carro. Morreu." A respiração de Ana ficou acelerada. "O que a gente faz?" Daniel tentou manter a calma. "Eu vou ver o que é. F**a aqui." A poucos metros dali, uma sombra disforme se materializou na neblina, tomando a forma de um antigo casarão. As janelas, como olhos vazios, pareciam observá-los. Era a única opção. "Olha, tem uma casa ali. Deve ter alguém pra ajudar."
Ana sentiu um medo primitivo subir pela garganta. O pai, um homem rígido e severo, a havia proibido de se casar com Daniel. "Gente como ele não é pra você", ele dissera, com uma frieza que ainda a machucava. E agora, naquele lugar assustador, ela se sentiu ainda mais longe da proteção que ele negou. "Eu não quero ir lá", ela sussurrou. "Por favor, Dan." "É a única chance que a gente tem, Ana. E o bebê? Não podemos ficar no frio. Precisa ter fé. Confia em mim."
A porta da casa rangeu. A fumaça escura de uma lareira vinha de uma chaminé quebrada. Uma voz rouca e gutural vinda das sombras sussurrou "entrem, entrem". Era o som de algo antigo e faminto. As palavras se esticaram e ecoaram. "Entrem. Preciso de uma família".
O medo mais profundo não está nas sombras do casarão, mas na promessa de algo que você nunca terá. A promessa de uma família, uma promessa que o pai de Ana negou a eles. A porta fechou e trancou com um som que ecoou na estrada e desapareceu na escuridão. Eles se viram presos, as almas unidas por um destino assustador. Presos no silêncio da casa, onde uma voz os guiava, uma voz que repetia, "Entrem, entrem. Eu preciso de uma família." Uma voz que era o reflexo de um luto, um lamento, de uma família que nunca seria. E o choro de um bebê ressoou, um som que não era deles, mas se tornou deles.
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