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Conteúdo é discurso. Ananda MirandaNas últimas semanas tive a oportunidade de dar palestras e conversar com alguns pré-c...
07/07/2020

Conteúdo é discurso. Ananda Miranda

Nas últimas semanas tive a oportunidade de dar palestras e conversar com alguns pré-candidatos a cargos eletivos nas próximas eleições. Venho dizendo há algum tempo que o discurso é o conteúdo que cada candidato irá veicular e que, para que as estratégias eleitorais sejam mais ef**azes, o conteúdo, apesar de transmitir a mesma ideia por trás do discurso, pode e deve ser diferente.

A partir daí, bolei dois artigos. Este primeiro trata da polarização dos discursos como resultado de ações de branding/marketing e o segundo irá tratar da apropriação do Centro Político enquanto uma das saídas estratégicas desta sensação de polarização.

Não é uma novidade que as redes sociais nos “embolharam”. Pressupondo que a sociedade está polarizada e que, pela lógica, só existem dois polos, vivemos um grande paradoxo, já que não existem apenas duas bolhas que garantem categoricamente que a sociedade está dividida ao meio.

A grande responsável por essa quase unânime sensação é a forma ef**az com que um discurso é transformado em conteúdo e que, consequentemente, será injetado nas nossas bolhas digitais.

Assim, para que o discurso seja assertivo é necessário o mapeamento de 3 pontos específicos:

1) O propósito a ser veiculado

2) Os segmentos de eleitor para os quais este propósito vai ser transmitido

3) As propostas e ações necessárias à execução deste propósito

Exemplifico:

1) O propósito a ser veiculado é o da segurança.

2) Para alcançarmos a segurança, a proposta do candidato é flexibilizar o porte de armas.

A partir disso podemos pensar em alguns segmentos de eleitores diferentes. Aqui elenco dois cenários. O primeiro indica que os receptores desse discurso são homens com afeição às instituições militares e arroxo no sistema penal. Para eles, o conteúdo a ser injetado em suas bolhas deverá ser incisivo, com cenas de assaltos e violências. O discurso a ser difundido será algo como "O cidadão de bem precisa se armar e ter o direito de defesa frente aos horrores proporcionados por perigosos bandidos armados". – Foto 1

O segundo cenário delimita o segmento de eleitores enquanto mulheres ou homens conservadores/religiosos pertencentes às classes médias e baixas. Para esse grupo focal, o discurso é a defesa da família. Há ainda a indicação do alto índice de violência como resultado da omissão das gestões anteriores. O discurso aqui não deve ser armamentista, mas sim pró vida – Foto 2.

Foi comunicada, de duas maneiras diferentes, a proposta da flexibilização do porte de armas, ainda que no segundo cenário o discurso não seja nem armamentista nem violento. Diferentes discursos foram transmitidos a diferentes grupos de forma ef**az, sob o guarda-chuva do propósito da segurança.

Ainda que o candidato tenha como meta a política pró-armas, para cada público específico o conteúdo deve ser adequado. Assim, ainda que o grupo focal do segundo cenário não seja a favor da flexibilização, ele segue a favor do candidato que discursa “pró vida”.

O candidato deve ser, portanto, o agregador de massas heterogêneas. A ideia de que todos os eleitores deste candidato são a favor de políticas armamentistas ou violentas é passada como unanimidade e o resultado disso é a sensação de polarização.

Este trabalho de mapeamento de discursos para determinados grupos ou entendimento de como falar/para quem falar, nada mais é quem um processo de branding aplicado ao campo político.

A sociedade não está polarizada, está segmentada e quem entender isso larga na frente na corrida eleitoral, que não se trata apenas de ganhar votos; é muito sobre não perder nenhum.

07/07/2020

em terra de fakenews, quem tem whatsapp é rei.

Lançado em maio de 2018, o livro “O voto do brasileiro”, do Alberto Carlos Almeida, faz uma previsão do resultado das eleições daquele ano. Almeida não cravou, mas calculou um segundo turno entre PT e PSDB. Uma facada, meia floresta amazônica queimada e uma pandemia depois, sabemos que o resultado não foi bem o esperado.

Ainda não vimos a oposição trabalhar na tão chamada “frente progressista”. Tanto a centro-direita quanto a centro-esquerda não conseguiram coesionar para, de fato, se oporem ao presidente, que, diga-se de passagem, é ele mesmo o seu maior opositor.

Mas, diante do mesmo inimigo (aqui falo da ignorância, não de nosso presidente), alguns estão tendo que deixar diferenças ideológicas de lado para reconhecer o bom trabalho que fazem durante a pandemia. Quem imaginaria, por exemplo, Lula elogiando o trabalho de João Dória (PSDB) em São Paulo ou Dória elogiando um governador do Partido Comunista do Brasil? Foi o caso do Flávio Dino do Maranhão. Via Zap ou Twitter, a única unidade que se vê é a dos governadores – independente de credo, cor ou religião.

O apoio de Jair Bolsonaro pode ser comparado a uma mola: quando sofre pressão, se comprime e depois volta ao mesmo patamar: os bons e velhos 30%. Bolsonaro, que sempre teve apoio dos mais instruídos e da classe média, durante a recente crise (já aqui me refiro à da COVID-19 e não a do vídeo da reunião ministerial) viu seu formato se modif**ar. O auxílio emergencial impulsionou a aprovação do governo entre os beneficiários, que pertencem à classe dos mais desfavorecidos.

Como então combater esse Megazorde que se tornou Bolsonaro? Apresento a vocês o produto incrível chamado: comunicação. Vamos tomar o auxílio emergencial como exemplo. A medida foi uma vitória importante da oposição (talvez a única), mas quem capitalizou com isso foi a situação. As constantes crises são uma ferida aberta e exposta do presidente que poderia levar, por exemplo, à abertura de processo de impeachment, mas a oposição não consegue sequer veicular isso aos seus, quiçá aos apoiadores volantes do governo.

Com o isolamento social, quem está em casa f**a majoritariamente conectado à internet. O fluxo de dados e informações aos usuários aumentou muito e, mesmo com as infinitas lives no Instagram, YouTube e afins, a oposição não consegue se comunicar.
Está evidente que o problema não está nas ferramentas e sim na estratégia.

Microssegmentar assuntos, simplif**ar (e não reduzir) temas e, principalmente, determinar a linguagem certa para cada grupo de pessoas é a saída. A era da informação não é somente sobre velocidade e quantidade; é, principalmente, como a informação chega até o usuário que, neste caso, é o eleitor. Era fundamental comunicar de diferentes formas que o auxílio emergencial foi uma vitória da oposição. Mas não aconteceu.

A eleição de 2018 foi vencida pelo grupo que soube comunicar verdades e mentiras de maneira cirúrgica a quem precisava ouvir. Quem sabe não está na hora da oposição fazer um workshop com Carlos Bolsonaro para reaprender a falar com as massas. Na era da pós- verdade, não saber como desmascarar fakenews pode custar mais do que eleições e mandatos. Neste momento em que, mesmo com milhares de mortos pela COVID-19, pessoas são convencidas pelo presidente e seu clã de que a pandemia é uma histeria, o preço está sendo cobrado diariamente e em vidas.

Comunicar seus propósitos é o que o governo Bolsonaro faz de melhor. O veneno na dose certa pode ser um remédio. A oposição precisa entender que, em terra de fakenews quem tem WhatsApp é rei.

Texto originalmente publicado no Blog da purpurinacc.com

Endereço

Rua Professor Almeida Cousin
Vitória, ES
29050565

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