11/01/2026
CABO VERDE NÃO É PROPRIEDADE PRIVADA: O País Sequestrado Pelo Privilégio!
A estabilidade de vitrine não esconde a realidade: uma elite pequena, organizada e intocável continua a capturar o Estado, enquanto o povo paga a conta.
Há um mito conveniente que, em Cabo Verde, é repetido como dogma por quem sempre esteve confortável com o sistema: “somos um país Estável, Exemplar, Democrático.”
Mas estabilidade de vitrine não enche barriga de ninguém.
E democracia de cartaz não paga a conta de ninguém.
O que existe, na prática, é uma realidade menos fotogénica e muito mais crua: , sustentada por uma elite reduzida, fechada e arrogante; económica, social e politicamente organizada, que se comporta como se o Estado fosse herança familiar, como se o poder fosse um direito adquirido e como se o povo fosse apenas plateia: vota, sofre e cala.
Em Cabo Verde, a elite não manda apenas pelo voto.
Manda pelo : o poder do compadrio, do favor, do “conhece quem”, do “é nosso”, do “arranja-se”. Manda através da porta giratória entre cargos públicos e interesses privados; através de nomeações em cadeia; através de concursos contaminados antes mesmo de abrirem; através de contratos que caem sempre dentro do mesmo círculo, .
E quando alguém ousa tocar no nervo exposto dos privilégios, tachos, monopólios, isenções, concursos viciados, influência sobre instituições, nepotismo refinado e impunidade com verniz jurídico, a reação é previsível e automática: aparece o discurso da chantagem.
●“Cuidado com a instabilidade.”
●“Cuidado com a polarização.”
●“Cuidado com o populismo.”
Mas traduzindo isso em português claro: não é o país que eles defendem, são os seus benefícios.
Eles não têm medo do caos, têm medo da justiça.
Têm medo da luz, da transparência e da responsabilização. Têm medo que o Estado deixe de ser balcão de negócios, estacionamento de amigos e escudo de impunidade.
Porque há quem viva num Cabo Verde paralelo:
um país onde as regras são elásticas, as portas abrem sozinhas e os erros nunca têm consequências. Um país onde a incompetência é desculpada, a mediocridade é premiada e a arrogância é apresentada como “autoridade”. Um país onde o acesso ao poder substitui o mérito, desde que se tenha o apelido certo, a rede certa, o partido certo, o padrinho certo.
Enquanto isso, a maioria vive no Cabo Verde real:
o Cabo Verde das filas intermináveis, do salário de miséria, do desemprego juvenil crónico, da dívida impagável, do transporte caro, do hospital sem resposta, da justiça lenta e da emigração como “projeto de vida”. Um país onde ser honesto custa caro e onde a dignidade é tratada como luxo.
E depois exigem que o povo permaneça calado.
Quando o povo reclama, chamam-lhe ingrato.
Quando o povo denuncia, chamam-lhe radical.
Quando o povo insiste, entra em cena a máquina de distração: comentadores de luxo, moralistas televisivos, “especialistas” de gabinete, gente que nunca apanhou um autocarro cheio, nunca enfrentou uma fila humilhante num hospital, nunca sustentou uma casa com um salário insuficiente. Gente que fala em “nação” enquanto protege o seu condomínio social.
É um método antigo: manter o povo cansado, com medo e dividido, enquanto uma minoria continua a capturar o país. E quando a indignação cresce, o sistema responde com propaganda, desinformação e tentativas de ridicularizar quem denuncia.
Só que há um detalhe que já não conseguem esconder: o povo já percebeu o jogo.
E quem percebe o jogo começa a recusar o papel de figurante.
Cabo Verde não é propriedade privada.
Não é feudo. Não é clube. Não é herança.
Cabo Verde precisa romper com a cultura do privilégio como normalidade. Precisa de transparência radical, fiscalização real, concursos públicos limpos, responsabilização séria e coragem política para enfrentar os esquemas que sobrevivem na sombra, esquemas que se alimentam da confusão, do silêncio e do medo.
E que não venham com chantagem moral:
não é ódio denunciar privilégios.
Ódio é normalizar a miséria.
Ódio é manter um povo inteiro a sobreviver enquanto uma minoria vive de conforto, arrogância e imunidade social.
O problema nunca foi o povo falar alto.
O problema é a elite achar normal viver por cima do povo.
E f**a o aviso — sem poesia e sem rodeios: a festa não é eterna.
Quem passou décadas a tratar o país como propriedade pessoal vai ter de aprender, finalmente, o que signif**a viver numa República: com regras, transparência e vergonha na cara.