28/01/2026
SOCIALISMO E A URGÊNCIA DA JUSTIÇA SOCIAL EM CABO VERDE!
Em Cabo Verde, falar de socialismo não é um exercício académico nem um capricho ideológico. É, antes de tudo, uma resposta ética e política a uma realidade social marcada por desigualdades profundas, exclusões persistentes e negação sistemática de direitos básicos a uma parte significativa da população.
O socialismo só deixará de fazer sentido no dia em que forem erradicadas a fome, a miséria, o desemprego estrutural, a prostituição infantil, a precariedade laboral e a angústia quotidiana que atravessa milhares de famílias cabo-verdianas. Enquanto essas chagas permanecerem abertas, qualquer tentativa de decretar o “fim das ideologias” constitui, na prática, uma estratégia para conservar privilégios e perpetuar injustiças.
Há quem questione se o socialismo ainda faz sentido em sociedades economicamente avançadas. Tome-se como exemplo Nova Iorque, frequentemente apresentada como símbolo máximo de prosperidade e sucesso. Ainda assim, trata-se também de uma cidade onde a pobreza convive lado a lado com fortunas colossais, onde milhares de pessoas vivem sem habitação estável e onde a desigualdade assume proporções gritantes. Se o socialismo se justifica num dos centros financeiros mais ricos do mundo, quanto mais num país periférico, pequeno e estruturalmente vulnerável como Cabo Verde.
Tem-se repetido, com frequência, que Cabo Verde está “no bom caminho”. Contudo, impõe-se a pergunta essencial: ?
Certamente não para os jovens que concluem a escolaridade e deparam-se com um mercado de trabalho incapaz de absorvê-los.
- Certamente não para as famílias que vivem em habitações indignas ou em situação de sobrelotação.
- Certamente não para as mulheres que sustentam lares inteiros com rendimentos insuficientes.
- Certamente não para as crianças que crescem sem igualdade real de oportunidades.
O país produz riqueza.
O problema central é a forma como essa riqueza é distribuída.
Uma parcela reduzida da sociedade concentra rendimentos, património e acesso privilegiado aos recursos do Estado, enquanto a maioria vive num permanente esforço de sobrevivência. Este padrão não resulta apenas de falhas pontuais de governação. Ele decorre de um modelo económico e político que, ao longo do tempo, foi estruturado para beneficiar grupos específicos, reproduzindo ciclos de exclusão.
Neste contexto, o socialismo afirma-se como projeto político de rutura com a normalização da desigualdade.
Não se trata de negar a iniciativa privada ou a economia de mercado em si, mas de recusar um sistema onde o lucro se sobrepõe à dignidade humana. Trata-se de defender um Estado forte, transparente e orientado para o interesse público; um Estado capaz de garantir políticas eficazes de redistribuição da riqueza, proteção social robusta, acesso universal a serviços de qualidade e valorização do trabalho.
Dizer que “não há alternativa” é, em si, uma posição ideológica.
E é uma posição que serve aos que beneficiam do actual arranjo.
A alternativa existe.
● Chama-se justiça social.
● Chama-se equidade.
● Chama-se compromisso político com a maioria.
Ser socialista em Cabo Verde significa escolher, de forma consciente, o lado do povo. Significa afirmar que nenhum cidadão é descartável, que nenhuma criança deve crescer condenada à pobreza e que nenhum jovem deve ser empurrado para a emigração forçada por falta de perspectivas.
Este não é um apelo ao confronto gratuito.
É um apelo à responsabilidade histórica.
Cabo Verde precisa de um debate sério sobre o modelo de desenvolvimento que tem seguido e sobre quem, de facto, beneficia dele. Precisa de coragem política para enfrentar interesses instalados e colocar a vida das pessoas no centro das decisões.
A política só cumpre a sua função quando serve para transformar realidades, reduzir sofrimentos e ampliar direitos. Quando se afasta desse propósito, perde legitimidade.
O socialismo, enquanto horizonte de justiça social, continua a ser não apenas pertinente, mas necessário.
Porque um país verdadeiramente desenvolvido não é aquele onde alguns vivem muito bem, mas aquele onde ninguém é condenado a viver mal.