23/01/2026
O ORÁCULO DAS DEZ PEDRAS NO TABULEIRO DE SAL.
Quando os grandes deuses de ferro, de lábios de pólvora e frio,
Cerrarem as portas do Norte e secarem as veias do rio,
As nossas dez pedras de luz, lançadas no azul do deserto,
Verão o mundo encolher e o abismo tornar-se mais perto.
Não haverá paz no radar, nem sossego no cabo submerso,
Pois as ilhas são o umbigo onde se cruza o universo.
I. O Cerco dos Gigantes
Vejam os pássaros de aço que não trazem semente nem bico,
Eles rondam o nosso basalto, cobiçando o que temos de rico:
Não é o ouro, nem o petróleo de cheiro infecto,
É a nossa posição no espelho, o nosso ângulo reto.
Eles querem fazer do nosso ventre o seu porto de guerra,
E transformar em sentinela a paz da nossa terra.
O mar, que era estrada de peixe e caminho de ida,
Pode tornar-se o muro que nos corta o sopro da vida.
II. A Metamorfose do Grão
O milho que vem de fora terá sabor a metal e a luto,
E o que era auxílio será, amanhã, o mais pesado tributo.
Quem não plantou o sustento no tempo da bonança,
Terá de comer a poeira e mastigar a esperança.
As ilhas serão como barcos com as velas de pano queimado,
À deriva num oceano de orgulho e de sangue manchado.
A morna será um lamento de quem perdeu a frequência,
E o nosso silêncio, a única forma de resistência.
III. A Profecia da Tartaruga
Ouvi o que diz a tartaruga, a mais velha habitante do fundo:
"Quando os impérios colidirem no vidro rachado do mundo,
Recolhei-vos à casca, mulheres e homens de sol.
Não mordais o anzol que brilha, nem o falso lençol."
A nossa força não está no canhão nem no voo da bala,
Mas na rocha que aguenta o embate e nunca se cala.
Teremos de ser como a lava: por fora, fria e cinzenta,
Por dentro, o fogo guardado que a alma alimenta.
IV. O Sal como Último Reino
Se a geopolítica for o fogo que queima as pontes de vidro,
Que o nosso sal seja o pacto, o nosso último escudo erguido.
Tiraremos do mar o sustento, da neblina a água potável,
E faremos da nossa pequenez uma torre inexpugnável.
Pois no dia em que os impérios caírem de sede e cansaço,
As ilhas serão as únicas que ainda saberão ler o espaço.
Não sejais o peixe que se deslumbra com a luz do navio,
Sede o oceano que, imenso, engole o terror e o vazio.
Clauino Moreira