07/01/2026
Não mexa com pessoas depois dos sessenta. A sério.
Isto já não é apenas idade — é sobrevivência sem manual de instruções.
São resistentes como pão que ficou uma semana fora do s**o.
E precisos como chinelos de casa que voam direto ao alvo — sem aviso.
Aos cinco anos já sabiam o humor da mãe
pelo som da tampa da panela.
Aos sete levavam a chave ao pescoço e conheciam a regra:
“A comida está no frigorífico. Aquece. Não incendeies a casa.”
Aos nove cozinhavam sem receitas.
Aos dez consertavam uma to****ra
e sabiam fugir do cão do vizinho —
às vezes com um balde na cabeça, por precaução.
Passavam o dia inteiro na rua.
Sem telefones.
Sem ecrãs.
O percurso era sempre o mesmo: barra → rio → quintal → casa.
Voltavam ao entardecer,
com joelhos que pareciam um mapa de batalhas.
E sobreviveram.
Feridas eram tratadas com saliva e uma folha de tanchagem.
E se doía, a resposta era curta:
“Não caiu? Então não é nada.”
Comiam pão com açúcar.
Bebiam água da mangueira.
Tinham um sistema imunitário
que faria qualquer iogurte moderno morrer de inveja.
Alergias?
Ou não existiam, ou não se falava nelas.
Conhecem dezenas de formas de tirar manchas
de relva, óleo, tinta, sangue e lama.
Porque para casa era preciso voltar “em condições”.
Ponto final.
Viveram a evolução da tecnologia ao vivo:
rádio a transístores,
televisão a preto e branco,
vinil,
cassetes,
CDs —
e hoje carregam milhares de músicas no bolso.
Mesmo assim, sentem falta do estalo da cassete
rebobinada com um lápis.
Quando tiraram a carta, entravam num Lada
e atravessavam o país.
Sem ar condicionado.
Sem GPS.
Sem reservas.
Apenas um mapa,
sandes de ovo
e a confiança de que o caminho se resolveria.
E resolvia-se.
Esta é a última geração
que se lembra de um mundo sem internet.
Sem pânico da bateria acabar.
Lembram-se do telefone fixo,
dos cadernos de receitas escritos à mão
e dos aniversários sem lembretes.
E se esqueciam —
simplesmente não apareciam.
Eles sabem:
– arranjar quase tudo com fita isoladora, um clip e um alicate,
– ver um único canal e não se aborrecer,
– que “folhear” era uma lista telefónica, não uma rede social,
– e acreditar que se alguém não atende, está vivo — liga depois.
São diferentes.
Com armadura emocional.
Com nervos forjados em tempos de escassez.
Com reflexos treinados no quintal e na vida.
Os últimos ninjas do quotidiano.
Por isso, não mexa com pessoas depois dos sessenta.
Elas viram mais.
Viveram mais fundo.
E muito provavelmente
trazem no bolso um rebuçado de menta
mais velho do que o teu smartphone.
Autor: Ivan Tsymbaliuk