22/08/2026
Guiné-Bissau
Opinião: Entre certificados e discursos, onde estão os resultados dos campos de formação das organizações juvenis da Guiné-Bissau?
Todos os anos, sobretudo nos meses de julho e agosto, a Guiné-Bissau assiste a uma intensa movimentação juvenil. Jovens provenientes de diferentes regiões administrativas participam em campos de formação, oficinas, jornadas de capacitação e outras atividades promovidas por organizações juvenis, com apoio de instituições nacionais e parceiros internacionais.
Falam-se de liderança, cidadania, democracia, direitos humanos, empreendedorismo, paz, participação juvenil e Estado de direito. No final, recebem certificados, fotografias são publicadas nas redes sociais e fazem-se discursos de encerramento.
Há uma pergunta que a sociedade guineense, sobretudo as organizações juvenis, precisa de começar a fazer com maior coragem onde estão, na prática, os resultados do campos de formação ?
Ao longo dos anos, mais de mil jovens passaram por esta experiência, participaram em oficinas, palestras e formações sobre cidadania, democracia, direitos humanos, empreendedorismo, boa governação, desenvolvimento local, educação financeira, literacia digital, entre outros temas.
Mas é precisamente aqui que surge a grande interrogação depois das formações, o que acontece?
Não basta reunir mais de 420 jovens durante duas semanas, entregar certificados, tirar fotografias publicar nas redes sociais, fazer discursos e regressar às suas organizações como se a missão estivesse cumprida.
Um campo de formação de cada organizações juvenis deve produzir transformação sólida, criar jovens capazes de questionar, pensar criticamente, defender a Constituição da República, respeitar as instituições democráticas, rejeitar a violência política, manipulação, abuso de poder, intrigas, bajulação, divisão étnica, religiosa e colocar o interesse nacional acima dos interesses individuais, grupos ou partidários.
Infelizmente, a realidade que observamos em determinados momentos da vida pública guineense mostra uma contradição preocupante.
Formam jovens para a cidadania, mas continuamos a assistir à instrumentalização de jovens na política. Formam jovens para a democracia, mas boa parte está apoiar decisões inconstitucionais. Falam de liderança juvenil, mas ainda encontramos jovens dispostos a defender interesses de atores políticos em troca de benefícios pessoais, posições políticas, reconhecimento ou simples proximidade ao poder.
Portanto, a questão não é saber quantos jovens participaram nos campos de formação. A pergunta mais importante é quantos jovens, depois de participarem no campo, criaram iniciativas concretas nas suas comunidades?
Quantos passaram a fiscalizar a gestão pública?
Quantos organizaram campanhas de educação cívica?
Quantos defenderam os direitos humanos?
Quantos recusaram ser instrumentalizados por políticos?
Quantos jovens passaram a denunciar práticas antidemocráticas?
Quantos criaram associações sustentáveis?
Quantos participaram na resolução de problemas das suas comunidades?
Quantos conseguiram transformar os conhecimentos adquiridos em projetos concretos?
É neste ponto que precisam de mudar de paradigma, formação sem acompanhamento não produz transformação sólida, não basta realizar campos de formação uma vez por ano.
É necessário criar um mecanismo permanente de acompanhamento dos antigos participantes, cada edição deveria terminar com compromissos concretos.
Caso contrário, correm o risco de transformar campos de formação numa espécie de evento anual de formação de entrega de certificados, tirar fotografias publicar nas redes sociais, discursos, aplausos, passeios turísticos, namoros e espaço de criar amizade, em vez de uma verdadeira campo de formação de transformação social.
Por Jornalista, Professor e Pedagogo Nelson Oliveira Intchama