11/12/2025
O barulho do caminhão sempre vem antes do dia.
Três e meia da manhã, o mundo ainda dorme e a cidade parece outra.
Eu subo na traseira, ponho as luvas e espero o primeiro apito do motorista.
A gente trabalha rápido, quase no automático: corre, ergue, joga, segue.
Naquela madrugada, o s**o preto rasgou antes de cair no compactador.
De dentro saiu um som.
Baixo, rouco.
A gente pensou que fosse gato.
Mas quando puxei o plástico, vi o que ninguém queria ver: um cachorro.
Pequeno, sujo, caramelo.
Com o corpo tremendo e o olhar preso em mim.
O pessoal gritou:
“Deixa, rapaz, vai dar trabalho.”
Mas eu não consegui.
Peguei no colo, o coração batendo igual tambor de escola de samba.
Enrolei com o cas**o da chuva, e ele encostou o focinho no meu braço.
Não latiu.
Não chorou.
Só ficou.
O motorista ficou bravo, mas não disse nada.
Terminamos a rota, o sol já nascendo entre os prédios.
Levei o cachorro pra casa.
Minha mulher olhou, cruzou os braços e suspirou:
“Mais um?”
Eu só respondi: “Esse não dá pra deixar pra trás.”
Dei banho com a mangueira do quintal.
A água saiu marrom.
Por baixo da sujeira, o pelo dourado apareceu — o tipo de cor que brilha até no meio do lixo.
Chamei de Ouro.
Nos dias seguintes, ele melhorou.
Dormia na beira da cama, esperava o barulho do caminhão.
Quando o motor ligava, corria pro portão, abanando o rabo.
Agora ele vai comigo.
Sobe na boleia, deita no banco, vê o sol nascer sobre o asfalto sujo.
O pessoal do turno br**ca:
“Olha o gari e o cachorro dele, os dois iguais — cheios de sujeira e coração limpo.”
E eu rio.
Porque é verdade.
A gente recolhe o que os outros jogam fora, e no meio do lixo ainda encontra vida.
Hoje, quando vejo Ouro dormindo, lembro da primeira vez que o vi — quase virando mais um s**o no caminhão.
E penso em como é fácil descartar o que ainda pode amar.
Ouro me lembra disso todos os dias:
nada é tão pequeno que não mereça ser salvo.