03/02/2022
Naquele solo sempre seco sempre a comer pó no deserto do Sul o calor o sol as barragens a secar os animais a morrer a fome a alastrar naquele distante 2022 o clima a peste as árvores ainda de pé os humanos intricados uns nos outros as mãos cheias de pó e sal nada de água doce era o fim ali para que todos mudassem de vida opinião certezas arrogância a rodos Algarve exangue Alentejo exangue rios exangues animais exangues e tu a negar tudo a vida a morte as vacinas o racismo o fascismo a tua existência naquela tarde tudo era frouxo lento e uma baba escorria pelos teus dentes tortos a tua imperfeição ali mostrada a escorrer sangue na tua baba amorfa e acéfala tu o primeiro a dizer que tudo isto não passa de mentiras tudo isto não passa de medidas para controlo das populações e que tu o único o último desta raça de gente superior e esperta tu o único a vociferar a negação tu no deserto no pó a exibir a tua perfeição já putrefacta e ignóbil tu a lamberes as tuas lágrimas salgadas no meio da seca do deserto do Sul Portugal ou Marrocos ou onde quer que queiras estar tu parado à espera da chuva que nunca vai chegar tu na bonomia do silêncio e da fome mas tu sempre tu na esperança vã da tua salvação