12/08/2026
Moçambique | Investigação
𝗔 𝗣𝗔𝗦𝗧𝗔 𝗟𝗜𝗟𝗔́𝗦: 𝗢𝗦 𝗗𝗢𝗜𝗦 𝗠𝗜𝗟𝗛𝗢̃𝗘𝗦 𝗤𝗨𝗘 𝗔𝗕𝗥𝗜𝗥𝗔𝗠 𝗔 𝗣𝗢𝗥𝗧𝗔 𝗔𝗢 𝗖𝗔𝗦𝗢 𝗜𝗡𝗦𝗦
------ >> Dois contratos. Centenas de milhões de meticais. Uma auditoria interna que começou a fazer perguntas. E, segundo a acusação do Ministério Público, uma tentativa de fazer essas perguntas parar por dois milhões de meticais
Beira, Moçambique, 12 de Agosto de 2026 (𝗛𝗮𝗻𝗶𝗳 𝗖𝗥𝗩 – 𝗠𝗲𝗱𝗶𝗮 | 𝗩𝗲𝗿𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗽𝗲𝗹𝗮 𝗩𝗲𝗿𝗱𝗮𝗱𝗲) – Há histórias de corrupção que começam com uma denúncia. Outras começam com uma transferência bancária.
Esta começa com uma auditoria.
E, no centro dela, segundo a acusação do Ministério Público (MP), há um auditor interno, dois contratos, uma administração sob pressão, um empresário preocupado com as perguntas que lhe estavam a ser feitas e uma pasta de cor lilás contendo dois milhões de meticais.
A história envolve o Instituto Nacional de Segurança Social (INSS), instituição responsável pela gestão da segurança social dos trabalhadores moçambicanos, e antigos membros da sua administração, actualmente constituídos arguidos num processo de corrupção.
O 𝗖𝗮𝗻𝗮𝗹 𝗱𝗲 𝗠𝗼𝗰̧𝗮𝗺𝗯𝗶𝗾𝘂𝗲, na sua edição de 12 de Agosto de 2026, publicou novos detalhes do processo de corrupção n.º 57/11/P/GCCC/2025, com base na acusação do Ministério Público. É a partir desse documento, e da reconstrução feita pelo jornal, que emerge uma sequência que se aproxima mais de um argumento cinematográfico do que de uma vulgar auditoria administrativa.
Mas os factos, neste caso, não pertencem ao cinema.
Pertencem a um processo judicial.
𝗔 𝗣𝗥𝗜𝗠𝗘𝗜𝗥𝗔 𝗣𝗘𝗖̧𝗔: 𝗗𝗢𝗜𝗦 𝗖𝗢𝗡𝗧𝗥𝗔𝗧𝗢𝗦
Tudo começa, segundo a acusação, com dois contratos de prestação de serviços celebrados pelo INSS.
Um deles, identificado pelo n.º 047/CP/INSS/UGEA/2022, tinha um valor inicial de cerca de 23,7 milhões de meticais.
O outro, n.º 0120/CP/INSS/UGEA/2023, apresentava um valor inicial de cerca de 55 milhões de meticais.
Ambos estavam relacionados com serviços de comunicação e imagem e tinham como beneficiária a RAM Multimédia, empresa associada ao empresário Abubacar Sumaila Ali, também arguido no processo.
Segundo a acusação, contudo, a execução dos contratos teria produzido pagamentos muito superiores aos valores inicialmente previstos.
Foi precisamente aí que entrou a Auditoria Interna.
E com ela, Lino Khalau.
𝗢 𝗛𝗢𝗠𝗘𝗠 𝗤𝗨𝗘 𝗖𝗢𝗠𝗘𝗖̧𝗢𝗨 𝗔 𝗣𝗘𝗥𝗚𝗨𝗡𝗧𝗔𝗥
Lino Khalau era, à data, Chefe do Departamento de Auditoria Interna do INSS.
A auditoria incidia sobre a Direcção de Administração e Finanças e abrangia o exercício económico de 2024, incluindo uma monitoria às actividades realizadas entre Janeiro e Outubro desse ano e uma auditoria relativa ao período de Janeiro a Outubro de 2023.
Foi nesse trabalho que, segundo o MP, começaram a ser identificadas irregularidades na execução dos contratos.
Pagamentos superiores aos montantes inicialmente contratados.
Cotações. Facturas. Serviços alegadamente prestados. Documentos que precisavam de explicação.
Khalau começou a pedir esclarecimentos directamente à RAM Multimédia e ao seu proprietário.
E, de acordo com a narrativa constante da acusação reproduzida pelo Canal de Moçambique, as perguntas começaram a incomodar.
Muito.
𝗢 “𝗡𝗢𝗦𝗦𝗢 𝗝𝗢𝗩𝗘𝗠” 𝗤𝗨𝗘 𝗡𝗔̃𝗢 𝗣𝗔𝗥𝗔𝗩𝗔
A acusação reproduz mensagens trocadas entre Abubacar Sumaila e o então Director-Geral do INSS, Joaquim Moisés Siúta.
A 23 de Janeiro de 2025, Sumaila terá escrito a Siúta:
“Esse jovem não pára. Mas alguém tem que lhe parar.”
Dias depois, a 31 de Janeiro, uma nova mensagem:
“O nosso jovem não pára de ligar, o Khalau.”
Aquelas mensagens, segundo o MP, são enquadradas como sinais de preocupação perante a evolução da auditoria.
E é aqui que a história muda de natureza.
Já não se trata apenas de saber quanto dinheiro foi pago.
Passa a importar saber quem sabia, quem perguntava e quem queria que as perguntas parassem.
𝗔 𝗔𝗨𝗗𝗜𝗧𝗢𝗥𝗜𝗔 𝗖𝗛𝗘𝗚𝗔 𝗔̀ 𝗔𝗗𝗠𝗜𝗡𝗜𝗦𝗧𝗥𝗔𝗖̧𝗔̃𝗢
As constatações preliminares da auditoria começaram, segundo a acusação, a criar tensão entre o auditor e membros da administração.
O ambiente que anteriormente existiria entre Lino Khalau e Joaquim Siúta deteriorou-se.
O empresário Abubacar Sumaila, por seu lado, procurava saber o que estava a acontecer.
A pressão aumentava.
E, segundo o MP, foi nesse contexto que surgiram tentativas de interferência directa no trabalho do auditor.
𝗨𝗠𝗔 𝗖𝗢𝗡𝗩𝗘𝗥𝗦𝗔 𝗖𝗢𝗠 𝗔 𝗘𝗦𝗣𝗢𝗦𝗔
A 29 de Abril de 2025, Joaquim Siúta informou a sua esposa, Elisa Fondo, de que o auditor interno tinha tido um encontro de trabalho consigo.
A resposta, segundo as mensagens reproduzidas na acusação, foi curta:
“Ele é diabo.”
Três dias depois, Siúta voltou a escrever.
Disse que Lino Khalau “não está fácil” e revelou que estava à espera dele no Hotel Girassol.
Elisa Fondo terá então aconselhado o marido a falar pouco.
O motivo, segundo a mensagem reproduzida no processo, era outro detalhe que começava a tornar tudo mais delicado: numa reunião anterior, Khalau teria gravado a conversa sem conhecimento de Siúta.
“Reúna com ele, mas não fale muito... porque voltará a vos gravar.”
A partir desse momento, segundo a acusação, o receio já não era apenas sobre o conteúdo da auditoria.
Era também sobre aquilo que poderia ficar registado.
𝗗𝗢𝗜𝗦 𝗠𝗜𝗟𝗛𝗢̃𝗘𝗦
É aqui que surge a proposta que mudaria o processo.
Segundo o Ministério Público, Joaquim Siúta terá decidido pagar dois milhões de meticais a Lino Khalau para que este retirasse do relatório as constatações relativas aos dois contratos.
A decisão terá sido igualmente comunicada à esposa por mensagem:
“Já não tenho outra opção, tenho que falar com ele e, se possível, levantar dinheiro amanhã para pagar a ele.”
O encontro, segundo a acusação reproduzida peloCanal de Moçambique, teria como objectivo negociar a retirada das constatações da auditoria.
A notícia contém, contudo, uma referência temporal que aparenta ser incompatível com a sequência dos acontecimentos, ao situar um desses encontros em 2 de Janeiro de 2025, antes das mensagens de Abril e Maio descritas no próprio texto.
Por essa razão, a data é aqui tratada com reserva, até que o documento integral da acusação permita esclarecer se se trata de erro material da publicação ou de outra referência temporal constante do processo.
O essencial da acusação, porém, é claro: teria havido uma proposta de dois milhões de meticais para fazer desaparecer as constatações da auditoria.
Khalau não teria aceitado o dinheiro naquele primeiro momento.
Disse que iria pensar.
Mas, naquela mesma noite, recebeu uma chamada.
Era Abubacar Sumaila.
Queria “um encontro para um café”.
𝗢 𝗥𝗔𝗗𝗜𝗦𝗦𝗢𝗡
O encontro aconteceu, segundo a acusação, no dia 3 de Maio de 2025.
Local: Hotel Radisson Blu, na Marginal.
O interlocutor: Abubacar Sumaila.
A missão: negociar.
Segundo o MP, Sumaila disse a Khalau que estava ali a pedido de Joaquim Siúta e que tinha mandato para negociar o relatório preliminar de auditoria.
Em causa estavam novamente os contratos celebrados entre o INSS e a RAM Multimédia.
O auditor tinha, portanto, recebido uma proposta.
Agora recebia uma segunda abordagem.
E, segundo a acusação, a negociação tinha um preço.
Dois milhões de meticais.
𝗔 𝗣𝗔𝗦𝗧𝗔 𝗟𝗜𝗟𝗔́𝗦
Chegamos então ao dia 4 de Maio de 2025.
Segundo a acusação do MP, Joaquim Siúta chamou Lino Khalau.
Entregou-lhe uma pasta de cor lilás.
Dentro dela estavam dois milhões de meticais.
Khalau recebeu a pasta.
Mas, segundo o relato constante da acusação, não ficou com o dinheiro.
Foi directamente à Procuradoria-Geral da República.
A pasta que deveria, alegadamente, servir para silenciar uma auditoria passou a constituir elemento de uma denúncia.
O dinheiro foi apreendido e posteriormente depositado na conta de Gestão de Activos Apreendidos do Ministério das Finanças, domiciliada no Banco de Moçambique, de acordo com a reportagem do Canal de Moçambique baseada na acusação.
Mas a pasta ainda guardava mais uma surpresa.
𝗢𝗦 𝟴𝟬𝟬 𝗠𝗜𝗟 𝗤𝗨𝗘 𝗔𝗣𝗔𝗥𝗘𝗖𝗘𝗥𝗔𝗠 𝗡𝗔 𝗣𝗔𝗦𝗧𝗔
Durante o exame pericial à pasta, o Ministério Público terá encontrado, além dos dois milhões de meticais, quatro talões de depósitos bancários, no valor total de 800 mil meticais.
Os depósitos estavam relacionados com operações efectuadas por Ilda Macapuque no interesse de Joaquim Siúta.
Para a acusação, a presença desses documentos dentro da pasta não seria uma coincidência.
Seria, segundo o MP, um indício objectivo da ligação material entre a pasta e o então Director-Geral do INSS.
Mas Siúta apresentou outra explicação.
Segundo a acusação, confirmou que os talões eram seus, mas alegou que Lino Khalau os teria retirado do seu gabinete e colocado fraudulentamente na pasta, com o objectivo de o comprometer.
O Ministério Público rejeita essa versão como defensiva e incompatível com os restantes elementos probatórios que diz ter recolhido.
Aqui, contudo, a decisão não pertence ao jornal.
Nem ao auditor. Nem à acusação.
Pertence à Justiça.
𝗗𝗘 𝟰𝟴,𝟱 𝗠𝗜𝗟𝗛𝗢̃𝗘𝗦 𝗔 𝗖𝗘𝗡𝗧𝗘𝗡𝗔𝗦 𝗗𝗘 𝗠𝗜𝗟𝗛𝗢̃𝗘𝗦
A dimensão financeira do processo é outra das peças que tornam o caso particularmente grave.
Em informação anteriormente divulgada com base no Informe Anual do Procurador-Geral da República, o Ministério Público apontou para um prejuízo de cerca de 433 milhões de meticais, resultante dos pagamentos efectuados acima dos valores contratados.
O valor global inicialmente previsto para os dois contratos foi reportado em cerca de 48,56 milhões de meticais.
Já a acusação agora descrita pelo Canal de Moçambique aponta para cerca de 510 milhões de meticais alegadamente sacados do INSS.
A diferença entre os valores não deve ser apagada nem tratada como mero detalhe.
Ela precisa de explicação documental.
Pode resultar de diferentes critérios de cálculo, períodos ou componentes considerados no prejuízo. Até que o conteúdo integral da acusação seja confrontado com as informações anteriores do Ministério Público, o rigor jornalístico recomenda que os montantes sejam atribuídos às respectivas fontes, e não apresentados como se fossem necessariamente a mesma cifra.
𝗢 𝗙𝗜𝗠 𝗗𝗔 𝗟𝗜𝗡𝗛𝗔
O processo colocou sob investigação antigos membros da administração do INSS, incluindo Joaquim Moisés Siúta, antigo Director-Geral; Jaime Custódio Nhavene, antigo Director de Administração e Finanças; Matias Moisés Mucavele, ligado à Administração Geral e Finanças; José Jaime Chidengo, relacionado com a Unidade de Aquisições; e o empresário Abubacar Sumaila Ali.
A acusação inclui ainda Elisa Fondo, esposa do antigo Director-Geral, entre os arguidos.
Os arguidos beneficiam da presunção de inocência e as acusações terão de ser apreciadas pelas instâncias judiciais competentes.
Lino Khalau, entretanto, continua ligado ao INSS como Chefe do Departamento de Auditoria Interna, segundo a reportagem do Canal de Moçambique.
Foi a partir daquele departamento que, segundo a acusação, começaram as perguntas que levaram à descoberta das irregularidades.
E foi a partir dessas perguntas que a história chegou a uma pasta lilás.
𝗡𝗢𝗧𝗔 𝗘𝗗𝗜𝗧𝗢𝗥𝗜𝗔𝗟
Há uma ironia difícil de ignorar nesta história.
A auditoria destinava-se a examinar documentos.
Mas, segundo a acusação, foi um documento de outra natureza — uma mensagem, uma gravação, um talão, uma pasta — que acabou por ajudar a transformar suspeitas administrativas num processo criminal.
O caso também mostra por que razão auditorias internas, mecanismos de controlo e denúncias não podem ser tratados como simples formalidades burocráticas.
Neste processo, segundo o Ministério Público, as perguntas feitas por um auditor conduziram a outras perguntas.
Quanto foi pago? Porquê? Quem autorizou? Quem beneficiou?
E, finalmente, quem tentou fazer com que a auditoria parasse?
As respostas definitivas caberão à Justiça.
Por agora, uma coisa é possível reconstruir a partir da acusação: a história dos milhões do INSS não terminou quando o dinheiro saiu das contas. Para a investigação, começou verdadeiramente quando alguém decidiu perguntar onde ele estava a ir.
𝗩𝗲𝗿𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗽𝗲𝗹𝗮 𝗩𝗲𝗿𝗱𝗮𝗱𝗲.
𝗡𝗢𝗧𝗔 𝗗𝗘 𝗔𝗣𝗢𝗜𝗢
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𝗖𝗥𝗘́𝗗𝗜𝗧𝗢𝗦 𝗘 𝗥𝗘𝗙𝗘𝗥𝗘̂𝗡𝗖𝗜𝗔𝗦
🖋️ © 2026 | Curadoria: Mahamad Hanif M***a
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📌 Fontes: 𝗖𝗮𝗻𝗮𝗹 𝗱𝗲 𝗠𝗼𝗰̧𝗮𝗺𝗯𝗶𝗾𝘂𝗲, edição de 12 de Agosto de 2026; acusação do Ministério Público, conforme reproduzida e citada pela referida publicação; informação pública anteriormente divulgada sobre o processo
📷 Foto: Colagem | Reprodução: 𝗜́𝗻𝗱𝗶𝗰𝗼 𝗠𝗮𝗴𝗮𝘇𝗶𝗻𝗲 / 𝗖𝗮𝗻𝗮𝗹 𝗱𝗲 𝗠𝗼𝗰̧𝗮𝗺𝗯𝗶𝗾𝘂𝗲